MARIO
PRATA:A SERIEDADE DO HUMOR
Jornal Do Brasil 28/09/1972
Yan Michalski
A estréia de hoje no Teatro Senac
O Cordão Umbilical reúne vários motivos de interesse: a
estréia profissional de um jovem diretor, Aderbal Júnior; o primeiro trabalho no teatro
carioca de uma excelente atriz de televisão, Débora Duarte; e sobretudo o lançamento no
Rio de um jovem autor, Mario Prata, muito elogiado pela crítica paulista, e que, segundo
afirmação de Sabato Magaldi, "... traz um sopro de saudabilidade ao nosso
teatro."
Mario Prata, você está sendo lançado no Rio por um empresário
que se vem especializando como produtor de gargalhadas. A sua peça é também uma
gargalhada?
Acho que O Cordão
Umbilical tem muito humor, mas este não é um fim, e sim um meio para conseguir
coisas sérias. Há, aliás, poucas piadas de texto, o cômico surge mais das situações.
A peça mostra a convivência de quatro pessoas um estudante de Medicina, um jovem
escritor desocupado, uma candidata a atriz e uma prostituta grávida durante os
nove meses de gravidez da prostituta. O que há de mais sério na ação é o fato.de ela
revelar que os quatro tipos, que aparentemente não têm nada em comum, no funda são uma
pessoa só ou então todos nós.
Como foi que você se tornou
autor teatral?
Eu estava estudando, fazendo o
último ano de Economia e tinha uns contos guardados na gaveta. Mandei um deles para um
concurso de contos, e tirei o primeiro prêmio. Isto me estimulou: peguei os outros
contos, mandei fazer um livro, uma dessas baratas edições artesanais, e comecei a
vendê-lo de bar em bar, durante a noite. Vendendo o livro nos bares conheci muita gente
de teatro. Leilah Assunção achou bom o diálogo dos meus contos, me animou a escrever
para teatro. Mas antes de escrever comecei a trabalhar como ator, em Numancia, Quando Numancia acabou, o diretor José Rubens Siqueira não sabia o
que colocar no Teatro Vereda; então comecei a escrever umas cenas soltas, e de repente
estava com uma peça pronta, uma peça com quatro horas e meia de duração a
primeira versão de Cordão Umbilical.
A versão que veremos no Rio é
muito diferente?
Esta já é a quarta versão; a
segunda é a que foi montada em São Paulo; na terceira, feita para uma excursão pelo
interior de São Paulo, mudei muita coisa, inclusive juntando os dois atos originais num
ato único, o que melhorou muito o rendimento. Na versão atual, conservei esta solução,
e fiz uma transposição de vários problemas que eram atuais na época, em 1970, mas que
hoje já estão esquecidos. Por outro lado, em São Paulo a peça foi escrita em função
de uma montagem em teatro de arena, enquanto aqui está sendo montada em palco italiano
mas já vi que vai funcionar até melhor do que em arena; o cenário de Mixel
resolveu muito bem todos os problemas. E a direção de Aderbal Jr. está ao mesmo tempo
muito criativa e muito dentro do texto, valorizando exatamente aquilo que deve ser
valorizado.
Como foi a temporada em São Paulo? O que você aprendeu nesse seu
primeiro contato com o público?
A peça ficou em cartaz seis meses, e foi muito bem recebida,
inclusive foi indicada pelos críticos paulistas, na votação intermediária do primeiro
semestre, para seis prêmios, se bem que acabasse não ganhando nenhum. Mas o mais
importante para mim foi descobrir a que ponto o teatro é coisa séria, com que força ele
mexe com as pessoas Uma senhora teve enfarte ao assistir à peça, e um rapaz.tentou se
matar depois tê-la visto: nem o cinema. nem a televisão, nem a literatura têm esse
poder, essa abertura de diálogo. Mas mesmo sendo o teatro uma coisa tão séria, acho que
a única maneira de se dizer alguma coisa hoje é através do humor, dando um murro com um
tapinha nas costas.
O que mais você fez depois dessa primeira
experiência? E quais os seus projetos para os próximos meses?
No ano passado foi montada em
São Paulo minha segunda peça. E Se a Gente Ganhar a Guerra?, com
direção de Celso Nunes. Estou terminando a terceira, um bang - bang intitulado Oeste Side Story, que talvez estréie no Rio, com Ítala Nandi E dentro de
alguns dias vão começar as filmagens da versão cinematográfica de O Cordão
Umbilical, dirigida por Rubens Ewald Filho, com Marília Pera, Débora Duarte,
Marco Nanini e Nei Latorraca.