O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CRÍTICA

 

Gente só e presa ao “CORDAO UMBILICAL”
Folha de S. Paulo, 24/04/1970
Jefferson Del Rios

Em uma agitada noite de autógrafos, Mario Alberto Prata se lançou como contista. Agora, é um dos mais novos dramaturgos brasileiros com a peça "Cordão Umbilical", que estréia hoje às 21 h no Teatro Vereda (rua Frederico Steidel, 198), dirigida por José Rubens Siqueira. No elenco, Cacilda Lanuza, Carlos Augusto Strazzer; Julia Miranda e Enio Carvalho.

MARIO ALBERTO PRATA.

"teatro para tocar um pouco as pessoas”

Rosto magro, anguloso, cabelos curtos, ele vai falando calmamente de sua obra de estréia, suas intenções no teatro e seus planos.

Quando publiquei meu livro de contos, "O Morto que Morreu de Rir", o pessoal de teatro gostou, disse que o diálogo era bom e sugeriu que eu tentasse a dramaturgia. Na época estava havendo uma explosão de novos valores e topei a parada. A peça foi muito esquematizada e quando abri os olhos, o conteúdo tinha se diluído. Tive de rever e refazer todo o texto pois o recado não estava sendo dado. Sentei à mesa com o diretor José Rubens e metemos a tesoura. O negócio foi se elucidando e passando a uma dramaticidade maior. Eu não creio muito nesta história de se fazer uma peça numa noite. Todo trabalho de arte deve ser muito bem elaborado, principalmente em literatura, em textos dramáticos. Neste tipo de arte, não pode haver primitivismo. Quanto aos motivos que me levaram a escrever; sei lá. Convivi e sou os meus personagens. Sou um pouco de cada um. Sou um pouco intelectual, um pouco universitário e um pouco atriz deslumbrada. Minha peça não tem segredo nenhum, é a historia de dois sujeitos, um universitário quadradíssimo e um escritor principiante, que moram em um apartamento de dois quartos. Depois, surge uma prostituta grávida e uma atriz sem sucesso. No primeiro ato, são apenas flashes da convivência quotidiana. Nada mais. No segundo, o escritor escreve sobre os quatro, o que se chama "O Cordão Umbilical” quer dizer, é uma peça dentro da peça. Algumas vezes, os quatro voltam à realidade do primeiro ato. É um jogo de realidade-ficção. No final, todos personagens são a própria platéia.

Mario Alberto está mais interessado na literatura publicada e com leitores. O teatro é experiência.

— Teatro é um parênteses. Se der certo, fico por aqui, senão, volto. Para ser franco, o teatro dá uma projeção maior e em termos econômicos, também é mais negócio, pelo menos dizem. A arte tem que ser encarada também como profissão e levada muito a sério. Mas o meu interesse mesmo é literatura de ficção. Fiz uma peça mas não quero classificar o meu teatro. Só uma coisa: é teatro brasileiro para brasileiro ver. Dos autores novos, fico com José Vicente  e Leilah Assunção. Plínio Marcos foi um começo de revolução teatral, fazendo um trabalho importante na época. Sem ele, eu creio, não haveria esta multidão de gente boa por aí. As influências maiores que recebi foram da literatura. Cito apenas um nome, Julio Cortasar um franco-argentino, escritor muito sério. Plínio Marcos não influiu na minha obra. Quando ele surgiu eu estava em outra. O tema não está muito longe, mas a maneira de apresentá-lo é diferente. Talvez, Leilah e Zé Vicente tenham alguma coisa comigo. O ator Raul Cortez disse que o meu teatro é diferente de tudo que já foi feito. Pode não ser melhor, nem pior, mas é diferente.

A iniciação literária deste jovem autor se deu, para o público, com " O Morto que Morreu de Rir", lançado em uma noite de autógrafos com muita batida de limão e poucas esperanças de sucesso. Duas semanas depois, o livro estava esgotado.

—Agora estou escrevendo um romance: “Ribeirão Campestre, Um Caso de Polícia”, que devo entregar à editora até agosto. Tenho também uma nova peça quase pronta, sem título definitivo. Por enquanto, chama-se "As mãos de Maria Eunice". Será que pode? O que eu pretendo? Quando eu me sento frente à minha máquina portátil o que pretendo é sacudir um pouco este pessoal que está por aí. A omissão é um grande crime, omissão implica em falta de opção. Logo, o sujeito não tem sentido em viver, não deveria ter nascido. Eu espero tocar um pouco as pessoas, sem agressão. Sacudir com muito amor e um grande abraço, como no fim da minha peça. Ninguém morre, não, e ninguém destrói ninguém. Eu sou muito bonzinho, sabe?

Mario Alberto Prata coloca um leve acento de ironia em tudo que fala, mesmo quando o assunto é sua vida.

— Tenho vinte e quatro anos e nasci em Uberaba, filho de uma família bem. Apesar do nome da peça, não tenho nada contra meus pais. Nasci logo depois da 2.a Guerra, sou um sujeito de paz. Gosto de cinema, desses diretores que os intelectuais e pseudos-intelectuais falam muito, os badalados. Não entendo nada de música, vou pela letra, Caetano e Gil, principalmente. Leio muito Julio Cortazar, Drummond, Millôr Fernandes (um gênio) e os latino-americanos de um modo geral. Passei minha infância em Lins e conheci o teatro já meio tarde. A primeira peça que assisti foi "Megera Domada ", dirigida por Antunes Filho. O teatro me tocou e fiz um curso no"Arena", com o Paulo José. Nunca tinha pensado em escrever peças, escrevia em jornal, na Última Hora.  Fiz algumas experiências com teatro amador, inclusive como diretor. Dirigi um espetáculo na Faculdade de Economia, da USP, que o diretor proibiu antes da estréia. Tempos depois, larguei o curso; no 3.o ano. Não dá pé.