O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CRÍTICA

 

O ESTADO DE S.PAULO 07/05/1970
Sábato Magaldi

Se fosse necessário definir com único adjetivo a peça O Cordão Umbilical, novo cartaz do Teatro Vereda dificilmente se evitaria qualificá-la fraca. Mas se deveria.observar de imediato: o autor, Mario Alberto Prata, é muito talentoso. Como explicar essa diferença de juízo? De maneira primária: o talento não supre o analfabetismo.

Qualquer leigo percebe que Mario Alberto Prata não tem muita idéia de como construir uma peça e desenvolver uma ação. Freqüentemente, o diálogo cai no bate-papo e quase se arrastaria, se o autor não tivesse uma admirável espontaneidade cômica. Logo surge ele com uma réplica imprevista e uma observação inteligente, que resgata o vazio do momento anterior. A platéia acaba aderindo ao seu humor desabusado, depois de vencer as possíveis reservas, provocadas pelo apelo contínuo à vulgaridade. É de uma saudável e irresistível irresponsabilidade a personagem do jovem escritor que, interpelado pelo estudante de Medicina (com quem partilha o apartamento) sobre o gosto de acordar tarde, simplesmente responde: "Já que não posso mudar a ordem constituída, eu mudo o horário". O Cordão Umbilical é todo nutrido da força instintiva de uma juventude um tanto desnorteada mas que nem por isso tem menos vitalidade e simpatia.

Enquanto vai desfiando a sua graça, nascida apenas de um compromisso com a vida, o autor alcança um bom rendimento. Mas, a certa altura, ele introduz a "filosofia" de um feto, e aí começa a revelar as debilidades de sua formação cultural. Ela se mostra mais penosa no segundo ato, em que se representa a peça feita pelo jovem escritor da primeira parte, sobre os mesmos episódios já mostrados à platéia. A pôr o colarinho duro de escritor, Mario Alberto piora muito. E é um recurso pouco aceitável esse do "teatro dentro do teatro". Levado às últimas conseqüências nas peças pirandellianas.

Não importa que Mario Alberto declare em entrevistas, que desconhecia Pirandello. Quando um leitor de O Cordão Umbilical lhe chamou a atenção para esse parentesco espúrio, ele deveria ao menos ler as peças pirandellianas sobre o teatro, a fim de encontrar outra solução para o seu texto. O espectador não vence a impressão de que Pirandello já fez a mesma coisa, e muito melhor E essa fraqueza técnica prejudica a originalidade demonstrada no primeiro ato.

Pode-se considerar a montagem de José Rubens Siqueira uma verdadeira co-autora do texto, no sentido de que a estrutura melhora e preserva seu caráter lúdico, mesmo nas cenas melodramáticas. Depois de várias encenações discutíveis, José Rubens foi muito feliz e soube tirar partido de todo o elenco. Passa ele a figurar entre os jovens diretores, dos quais é lícito esperar muito.

A homogeneidade, o equilíbrio e o brilho do desempenho são quebrados apenas pela criação excepcional de Cacilda Lanuza no papel da prostituta. A comicidade que ela explora, com uma energia e um senso de medida exemplares, mantém a platéia numa permanente gargalhada. Ela é mais uma estrela com que pode contar o nosso teatro. Mas Cacilda não atingiria esse resultado se seus colegas não estivessem igualmente à vontade. São eles: Julia Miranda, Carlos Augusto Strazzer e Ênio Carvalho, jovens valores que se integraram perfeitamente no espírito da encenação.