O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CRÍTICA

 

Entrevista Revista Artes
Carlos von Schmidt

Mario Alberto Prata, autor do livro de contos "O Morto que Morreu de Rir" e da peça apresentada recentemente em São Paulo, "O Cordão Umbilical", em entrevista a Artes, fala sobre seu trabalho a Carlos von Schmidt.

ARTES: Houve um crítico que fez uma apreciação sobre seu livro "O Morto que Morreu de Rir". Dizia que você começou com alguns erros de ortografia mas com um transbordante talento literário. Em o "Cordão Umbilical" você continua a ser o autor do "Morto..." ?

MAP — Em primeiro lugar o cara que escreveu a crítica também cometeu alguns erros de ortografia. Cá entre nós "preta" não tem acento. "O Cordão Umbilical" é um trabalho mais bem cuidado, ou seja, com sentido profissional definido.

ARTES: O MORTO foi um trabalho de amador?

MAP—Foi. Alguns dos contos já tem mais de 8 anos...

ARTES: Que idade você tem?

MAP—24. Naquela época eu não imaginava escrever profissionalmente.

ARTES: Bem, no conto que deu origem ao nome do livro eu não vejo você como amador. Eu vejo aquele conto como uma obra completa. Não há nada a acrescentar, não há nada a tirar. Do ponto de vista do humor pode-se colocá-lo entre as tiradas de um Mark Twain e um Stanislaw Ponte Preta. Parece-me que no Cordão, embora haja conotações humorísticas que possam lembrar o autor do MORTO, o humor só raras vezes atinge pontos altos.

MAP—O problema é que no CORDÃO o humor é um meio e não um fim. O CORDÃO é uma peça seríssima e este humor só foi colocado para eu conseguir dizer o que devia ser dito, ou seja, dar uma porrada branda num sujeito de bigodinho sentado na terceira fileira. No 2.° ato eu tirei o humor e não passou nada.

ARTES: O que você quer dizer com "não passou nada"?

MAP — Já é difícil fazer o público ir ao Teatro. E, ou você coloca o sério entremeado de humor, de um realismo muito cotidiano — ou então você cai num emaranhado de neuroses que ele (o público) simplesmente não aceita. Não aceita porque não enxerga. Porque o 2.° ato da peça, ou seja, a peça do personagem Marco, é justamente uma crítica a esse tipo de teatro descrito, ou seja, coloca 4 criaturas que deveriam ser iguais à gente e, no entanto, não são, porque o Marco se esqueceu do dia-a-dia do 1.° ato e partiu prô dramalhão psicológico que não conseguiu dizer nada. O público não aceitou e com razão, a crítica não chegou a entender o que eu queria através do Marco. Infelizmente os críticos paulistas parece que vão ao teatro para ver uma determinada "coisa", se não é essa "coisa" ou se não é uma grande armação de ferro, preferem ignorar.

ARTES: Você acha que a crítica ignorou o CORDÃO?

MAP — Não, muito pelo contrário, foi a peça que mais indicações para prêmios teve no primeiro semestre de 70.

ARTES: Eu me coloco assim como um crítico fora da Crítica — não indico ninguém para prêmio—não pertenço à Associação Paulista de Críticos Teatrais, pertenci, mas achei um esquema totalmente furado, razão por que me afastei. Acho também que a crítica nos moldes atuais não corresponde mais ao teatro contemporânão. Usam-se os mesmos parâmetros de 1900 para se criticar um espetáculo feito agora. Além disso, o crítico é envolvido por injunções políticas, econômicas etc. e tal e passa a participar então de toda problemática econômico& político&familiar&sexual&etc. de um espetáculo. O que acontece? A crítica vai para as cucuias. O CORDÃO UMBlLICAL para mim coloca-se da seguinte forma: Uma personagem excepcional que é Kátia Porreta — um primeiro ato em que são focalizados vários problemas de ordem sociológica de primeira grandeza, entre risadas, através de um humor vivo. A prostituição é vista no seu dia-a-dia. Dois tipos de vida, a do futuro liberal, quadrado, limitado, estratificado e a de um intelectual aberto para o mundo e para a vida, são apresentadas. Um 4.° personagem, uma candidata a "starlett" é vista friamente dentro de um nosso contexto "Teatro amador&filmes de publicidade&novela&figurações em filmes de co-produção&amizade diretor X atriz (daquele tipo: "não precisa pagar, ele é tão bacana" — dando uma visão de uma outra forma de prostituição, a artística. Todos esses problemas são focalizados, são jogados para o espectador. Apenas uma vez enunciados, não são resolvidos, isto é, no 2.° ato há uma segunda peça, a de Marco, e tudo continua como tinha começado. Me parece que o mundo de Kátia Porreta perde em dimensão quando devia e podia crescer ao infinito.

MAP — Então vamos começar desde o início da explanação Schmidtiana. Quanto ao problema da crítica. Infelizmente não se têm feito análises do espetáculo como um todo, texto — direção — interpretação, e sim, um comentário de uma lauda sobre o texto, 2 linhas sobre a direção e mais uma sobre a melhor interpretação. E, Teatro, na "minha opinião", deve ser um triângulo eqüilátero: texto — direção — interpretação.

ARTES: Você falou em direção. Você acha que na composição formal do espetáculo, 0 diretor acertou?

MAP — Totalmente. A contribuição de José Rubens Siqueira foi plena. Inclusive o meu texto, com uma carência muito grande de rubricas e situações de marcação rígidas, foi parcialmente modificado pela direção para chegar ao que chegou. O trabalho de "soltura" dos atores foi fundamental — basta dizer que, Cacilda Lanuza, uma atriz até então dramática, transformou-se em um mês numa histriônica Kátia Porreta.

ARTES: A função do diretor sempre é essa. Recriar o texto. Elaborar sobre. Cacilda Lanusa é uma atriz. Quando eu falo da concepção formal do espetáculo não me refiro à direção de atores tão somente é o conjunto que dá forma ao conteúdo. Me parece que a forma não tem unidade, especialmente no que diz respeito às aberturas de cena. Você falou no dia-a-dia, que o que enriquece um texto é conservar o dia-a-dia. O dia-a-dia no Cordão só existe a partir do início da ação real, isto é: enquanto nós estamos na música, na apresentação formal dos personagens há uma ruptura, dissociação de tratamento.

MAP — O CORDÃO UMBILICAL termina com a fala do feto de Kátia Porreta — Pedro Leopoldo. Nesse momento a peça de Marco já está escrita e não é redundância do primeiro ato, é apenas a minha crítica particular a esse teatro. A direção de José Rubens Siqueira, eu considero perfeita justamente por ter compreendido todo o aspecto do texto, principalmente a diversificação realidade X ficção, pois de fato o tal de dia-a-dia existe realmente a partir do momento do encontro Marco — Didi no ônibus, e se encerra com a eleição de Kátia para o Sindicato das Prostitutas do Estado de São. Paulo. Quanto ao problema que você colocou sobre o 2.° ato não resolver nada e limitar o mundo de Kátia Porreta: Em primeiro lugar — a função do dramaturgo não é a mesma de um sociólogo...

ARTES: Discordo. Não é nada disso, pô!

MAP — Peraí. E em segundo lugar quem limitou o mundo da prostituta não fui eu. O que é que você discorda, cara?

ARTES: No momento em que eu me proponho a escrever sobre seres humanos, eu não devo apenas considerá-los como peças num tabuleiro de xadrez onde faço as minhas jogadas...

MAP — Também discordo, você embananou tudo. Então se a função do dramaturgo é tão elástica, a do teu jornal também deveria ser. Que tal a gente se unir e nós dois juntos mudarmos todo o cenário nacional?

ARTES: Saiu pela tangente. Primeiro — quando eu me refiro à sua peça, digo que deveria haver um vislumbre de saída para Kátia Porreta na trama da ação dramática. Aqui estou vendo o problema do personagem no contexto dramático. Ora, bicho, o problema da prostituição é uma realidade. Se aqui em São Paulo o Garcez não conseguiu nada, e era governo, imagine só darmos uma de bacana. É Kátia como personagem a única sem solução e é a que tem o maior problema como ser humano, pois é uma parideira nata, é um ser humano completo, no entanto, ela não tem saída. Todos se arrumaram — a atriz — o médico — o intelectual — e a Kátia Porreta? Ela que é o catalisador, ferro na boneca.

MAP — Resposta — Vislumbrar está mais que vislumbrado. Meu filho, veja só o fato de haver colocado Kátia Porreta como uma prostituta humana, como você mesmo disse, e com muito amor para dar aos filhos "natos" (de tal parideira) e assim colocá-la como elemento socialmente participante da sociedade que esta aí, e não apenas levando porrada de gigolô e comendo mortadela. Já é um vislumbre de que essa pessoa existe e eu gostaria muito de ter a personalidade, a força e o calor humano da Kátia Porreta. Quem marginalizou e fechou as portas para ela fomos nós e eu gostaria mesmo, agora falando sério, se a gente pudesse, de dar solução ou saída para esse tipo de problema. Outro dia, um cara chegou para mim e disse que eu tirei a Kátia Porreta do mundo da bolsinha e coloquei na sociedade.

ARTES: Paternalismo, não! Sai prá lá com esse negócio de papai. Sartre em a "Respeitosa . " mostrou não só a dimensão humana de uma prostituta como também, através dessa prostituta, denunciou uma série de mazelas políticas&morais&religiosas&sociais&etc Isso de colocar na sociedade é papo furado. Desde que o mundo é mundo elas fazem parte da sociedade. Pra mim o maior mérito de O CORDÃO UMBILICAL" é lembrar a gente de que as "meninas, as moças, as "velhas de bolsinha” existem, estão aí, são seres humanos. Kátia Porreta fica como personagem, completo, absoluto, essencial. Acho que "O CORDÃO UMBILICAL" vai ser o ponto de partida prá uma obra maior, Mais madura. Resolvida, como foi resolvida Kátia Porrela.

MAP — Sartre, sociólogo e ensaísta. Pano rápido.

ARTES: Pô!