O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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Cenário

Apartamento completo, com dois quartos, uma sala, um banheiro e uma cozinha. Uma planta baixa dando a divisão dos cômodos. No quarto do Marco, uma cama, um sofá-cama, uma mesinha de datilografia com cadeira. Uma estante de livros de tijolos. Cartazes de peças nas paredes. No quarto do Didi, uma cama, uma cadeira-cama, um guarda-roupa, se possível embutido (no de Marco também). Mulheres nuas na parede, um crucifixo e uma foto do Flamengo.

CENA 1

APRESENTAÇÃO DOS PERSONAGENS

Ao iniciar-se a cena, estão os quatro personagens em atividades cotidianas, com a mesma roupa que deverá ser usada no final do espetáculo.

KATIA (Grávida de oito/nove meses) —Meu nome é Katia. Katia Porreta. Moro aqui neste apartamento com mais três pessoas. Até que é bom. Sou do Sul de Minas, mas meu pai era muito quadrado e eu me mandei. Não sou besta... Eu hein? Me mandei pru Rio Resumindo: tou na viração!

MARCO (Todo de preto) —Meu nome é Marco Aurélio Cunha Campos de Morais. Ninguém vai negar que, para escritor, eu já tenho um grande nome. Vinte e cinco anos, três livros publicados: tudo sucesso de crítica. (Apontando uma senhora da platéia) A senhora já leu um romance dum tal de Marco Morais, chamado "Manuela, a Guerrilheira de Hemorróidas?" Não? Ninguém leu. Mas é bom: é prêmio Walmap-68. Deu para curtir quase dois anos com o dinheiro.

GLADYS (De bata) — Meu nome é Gladys Regina. Faço cinema, teatro e televisão. Acho que vocês já ouviram falar de mim. Não sou tão famosa assim, mas já fiz meus filminhos. Estou numa novela agora. Eu morava em Caxias. Minha família ainda está lá: enterrada viva. Eu me mandei. Fazia teatro no colégio das freiras. Trabalhava só mulher. Os papéis masculinos também eram feitos pelas meninas. Teve uma menina que se especializou tanto em papel de homem, mas tanto, que... Coitada, outro dia vi ela no Piper's. Aí eu me mandei. Deixei tudo e vim morar aqui. No começo foi duro...

DIDI (todo de branco, com roupa de estudante de medicina, inclusive meias e sapatos) —Oi! Faço medicina. Tá certo que entrei no sexto vestibular... E de excedente, mas entrei. Meu nome é Valdir Melges Júnior, mas meu apelido é Didi. Todo mundo me chama de Didi. Lá na faculdade também, onde estou no 4.° ano.

MARCO—Eu fiz até o 4.° ano de engenharia, até que descobri que ia ser engenheiro. Só engenheiro. Daí, resolvi ser escritor. Só escritor.

KATIA (Experimentando uma camisa do Didi e se olhando no espelho) —O pessoal lá da boate repara muito neste negócio de roupa. Se a gente começa a repetir muito, fica logo com apelido. O Dionísio — Dionísio o porteiro — fala assim: aquela menina de calcinha verde-hemorragia já chegou? Pega mal, paca. Eu, até que sou boa. (Alisa a barriga) O que estraga é esta barriga, pô. Também, quem mandou errar na conta?

GLADYS (Lendo jornal) — ''Quase terminado o filme de Jece Valadão, "O Bandido da Luz Vermelha Contra A Viúva Virgem", inteiramente filmado em Parati, em cujo elenco encontramos: Adriana Prieto, Sandra Barsotti, Rossana Ghessa, Paulo Vilaça, Arduino Colassanti, participação especial de Valéria e outros". Outros? Outros é a mãe do produtor! Dou um duro danado, me afogo oito vezes num mar frio pra danar, quase morro de pneumonia e "outros"?

DIDI — O sonho do meu pai é eu me formar e ir trabalhar com ele lá em Ribeirão Campestre onde ele é médico (Pega uma carta) O ano que vem fico noivo da Dirce. Ah, a Dirce é linda. Mamãe adora a Dirce. Hoje em dia é raro uma menina como ela: prendada... (A luz cai em resistência e entra uma voz gravada do Didi lendo a carta para a namorada) (foco apenas em Didi).

GRAV.—Meu coelhinho: saúde. Acabo de receber a sua carta. Aquela que você fala da minha costeleta. Meu anjinho, não precisa se preocupar com os erros ortográficos. Todo mundo faz... Espero que ao receber esta, tudo esteja na santa paz de Deus junto aos seus. Sua mãe, como vai? Aqui, graças a Deus, tudo bem. Tanto na escola, como em casa. O Marco, cada vez mais famoso. Ás vezes a gente fica numa solidão aqui dentro, (Aqui dá uma luz geral e estão os outros três em atividades quaisquer pelo apto.), só nós dois... Dá uma vontade de estar em seus braços... Recebeu minha carta de antes de ontem? Mando mais dois beijinhos nesta. Outro dia tirei um dez de ginéco.

DIDI ( Como que explicando para o público) —Ginéco é ginecologia.

GRAV.—E fui para o quadro. Viu, coelhinho, o seu namoradinho está só estudando. Estudando para termos um lar sadio e um Mustang cor de sangue, abençoados por Deus. Um beijinho do namorado distante mas sempre perto do seu coração Didi. PS: você viu o Flamengo?

MARCO (Novamente luz como anteriormente) —Ganhei também um concurso universitário nacional. Um milhão, o prêmio. Só que até hoje não recebi...

KATIA — O médico disse que é para daqui a um mês. E médico sabe o que diz. Devido que me enfiou até o dedo. Se for homem vai se chamar Pedro Leopoldo, se for mulher, Kelly Cristina. Mas vai ser homem. E vai ser doutor; pra enfiar o dedo em tudo que for mulher.

GLADYS (Fazendo exercício de abrir e fechar as pernas) — Ó arte, dura arte. Expressão corporal. Grotowski. Tem uma menina lá no teatro que disse para o pai dela que perdeu a virgindade assim, ó: rompeu! E não é que o cara acreditou?

DIDI — Pra se ter um diploma, tem-se que estudar muito. Tem que fazer muito sacrifício. E tem muita gente que fica por aí puxando fumo. É só tempo que se perde. O que eles querem, afinal? (As luzes se apagam rapidamente)