O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CENA 9 (Gladys deitada na cama do Marco, de calcinha e soutiens entra o Didi, de pijamas. É madrugada).

DIDI — Cadê o Marco?

GLADYS — Tá no Katakombe.

DIDI — O Marco? No Katakombe?

GLADYS—  Katakombe.

DIDI (Sempre olhando para o corpo de Gladys) — Três horas da manhã. Vê se isso hora de estar na rua.

GLADYS — E o senhor? Que que faz acordado ?

DIDI — Tenho prova amanhã. Prova difícil... Ginecologia.

GLADYS — Você curte muito esta matéria, né?

DIDI — É, eu acho que vou ser ginecologista.

GLADYS — Tá na cara que vai. Você tem tudo para ser um ótimo ginecologista.

DIDI (Não entende a gozação) — Obrigado.

GLADYS — Meu pai queria que eu fosse médica.

DIDI — Ele é médico?

GLADYS — Mais ou menos: açougueiro.

DIDI — O curso é muito bom...

GLADYS — De açougueiro?

DIDI (Sem graça) — De medicina, né Gladys! Sempre foi o meu ideal. Desde pequeno.

GLADYS — Você tem cara de quem quando era criança brincou muito de médico.

DIDI — Como é que você sabe?

GLADYS — Ora, Didi.

DIDI (Senta-se no sofá cama, perto de Gladys) — A Dirce gosta muito.

GLADYS — Quem é Dirce? Sua mãe?

DIDI — Minha namorada. Mora lá em Ribeirão Campestre. Tirou o Normal faz dois anos.

GLADYS — Ela dá aulas?

DIDI (Categórico) — Não, está me esperando formar!

GLADYS — Quer dizer que não dá? Está esperando?

DIDI — É. Mas ela é muito bacana. Formou com notas boas, foi oradora e tudo. (Didi está excitado pela presença de Gladys) Quer ver uma fotografia dela? (Vai para o seu quarto buscar a foto. Lá, dá uma olhada para a altura do seu sexo e nota o vexame. Tira uma foto que estava colocada junto ao crucifíxo) Foi suplente de Elegante Bangu. (Voltando, curvado) Veja que cabelo mais bacana.

GLADYS — É... O vestido é muito bonito, também.

DIDI — Minha mãe que fez. A minha mãe tem uma mão de ouro.

GLADYS — Sorte do seu pai. Costura bem, hein? Bela costureira. (Pausa) Merda, que sono! (Didi se assusta com o palavrão) Você é o cara mais assustado que eu já vi com mulher. Parece que não conhece mulher...

DIDI (Bravo, ofendido) — Quem é que não conhece mulher? Quem é que não conhece mulher? Pergunta pra Katia, pergunta! Pergunta pra Katia.

GLADYS — A Katia não vale, é profissional.

DIDI — E que que tem que ela é profissional? Que que tem? O que que você tem contra?

GLADYS — Nada, muito pelo contrário

DIDI — Quer saber de uma coisa?

GLADYS (Levanta-se e vai em direção de Didi) — Fala, coração.

DIDI — Sabe o que você é para mim?

GLADYS — Fala...

DIDI — Você não passa de uma... de uma. . .

GLADYS — Fala... (Vai empurrando Didi com o corpo, Didi vai tropeçando nos móveis).

DIDI — Você entendeu muito bem... É evidente que entendeu. ( Vai até a porta do quarto) Sabe de quem é este apartamento?

GLADYS — Mas que mania de todo mundo ficar perguntando de quem é este apartamento! É do seu pai!

DIDI — E se você soubesse um pouco de Direito Romano estaria sabendo que tudo que é do pai é do filho e o que é do filho não é do... Tem até uma frase em latim. Portanto, é meu. E, conseqüentemente, se começar a me encher muito, te ponho pra fora. Tá percebendo? E pára de andar de calcinha e soutien aqui dentro porque isto aqui é um apartamento de respeito. O que que a velha aí da frente não vai pensar?

GLADYS — Mas o que é isso? Tá ficando louco? Eu estou quieta aqui no meu quarto, pronta pra dormir o senhor me entra com um papo furado "Cadê o Marco" ?, fica aí todo excitadinho, a gente começa a brincar e precisa dar este espôrro todo?

DIDI — Eu não gosto deste tipo de brincadeira.

GLADYS — Didi, vai dormir, vai o Marco me falou que você é muito inteligente e não precisa estudar muito. O fato de entrar no sexto vestibular eu tenho certeza que foi azar.

DIDI — Lógico, sempre caía o único ponto que eu não tinha estudado.

GLADYS — Eu sei. E, se o Marco falou que você é inteligente, é porque é. O Marco sabe das coisas.

DIDI — Só que o Marco me acha inteligente mas não aceita críticas minhas dos livros dele. Tá certo que eu não entendo muito de literatura e teatro, mas eu acho que as coisas que ele escreve devia ter um certo fundo, digamos... Um certo fundo ;psicológico. É isto.

GLADYS — Como assim?

DIDI — Assim, digamos... É evidente que nas passagens mais... sei lá. Mais psicológicos, você entende?

GLADYS — Picas.

DIDI — Escuta, você não consegue ficar sem dizer palavrão, não ?

GLADYS — Vai dizer que você não vive dizendo palavrão lá na faculdade? E pra Katia, você não diz?

DIDI — Mas a Katia é diferente; ela está acostumada com esses ambientes mais, digamos... mais baixos, é evidente.

GLADYS — O que que é evidente?

DIDI — Que é mais baixo, é evidente.

GLADYS — O que que é mais baixo?

DIDI — É evidente que é diferente, PORRA! Aí falei um! (Apaga a luz, rápido).