O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CENA 8 (Marco chega da rua, Katia está sentada na mesa da sala, fazendo tricô e cantarolando "Quando o Carteiro Chegou", bem cafonamente. Marco dá uma olhada, ela arruma os cabelos. Marco esta indo para o seu quarto, volta).

MARCO — Em primeiro lugar, detesto mariposas! (Katia pega o seu tricô e vai para o quarto do Didi. Marco a segue) Em segundo lugar, se quiser mesmo habitar, conviver neste local de meditação e pureza, pelo menos uma coisa: pára de usar a minha toalha: a azul! Sei de muita gente que pegou doença por tabela.

KATIA (Coloca as mãos na cintura) — Em primeiro lugar, doente é a puta que o pariu! Sou uma ex-Testemunha de Jeová, temporariamente na viração. Em segundo lugar, a tua toalha foi usada pela Gladys também. E em terceiro lugar, pra mim, intelectual é bicha!

MARCO — Ah, agora quem manda é a senhora, é? Você é mais besta do que eu pensava. . .

KATIA — De quem é este apartamento?

MARCO — Do Didi.

KATIA — Então faça o favor de se retirar deste recinto. Pois além do apartamento ser do meu particular amigo e compreensivo companheiro, os seus pés estão pisando o nosso quarto. Por obséquio, queira se retirar antes que eu me enfeze. Estou com sono e necessito dormir devido que tenho uma longa noite de trabalhos pela frente.

MARCO — Xuxu, beleza.

KATIA — Olha aqui, seu escritor de... Escritor! Outro dia li uns troços seus..

MARCO — De qual livro?

KATIA — Foi livro, não. Tava jogado aí. Saiu num jornal. Cheio de bobagem .Uma bobagem atrás da outra.

MARCO — Mas qual?

KATIA — Era a história de uma menina que menstruava pelo nariz...

MARCO — Mas você entendeu?

KATIA — E tinha alguma coisa para entender? Pra mim, a menina era vampira!

MARCO — Que coisa! Sabe, você até que é inteligente. Sabe que teve um crítico que disse que a menina que menstruava pelo nariz simbolizava um país subdesenvolvido?

KATIA (Sem entender nada) — Pois é: eu, entendi!

MARCO — É raro uma prostituta inteligente.

KATIA — Prostituta... Vocês são gozados. Ficam aí no bem bom, lendo livro, trabalhando em cinema, jantando com artista... Olham a gente de cima e chamam de prostituta. Tem uns que não tem coragem nem de dizer o nome. Vêm com estas frescuras de mulher de vida fácil. Vida Fácil... Vai ficar um dia no meu lugar, vai. Rua boate, rua, boate, sanduíche de mortadela, frio, doença, porrada, polícia, cafetinagem, gigolô, coronel, delegado, o diabo. Veja só o que eu consegui: duas filhas, duas calças, duas blusas, tudo é só dois, nego. Pra mim três sempre foi demais. Além desta camiseta com o número 9 atrás (A que veste) que o Didi me deu. E foi duro arrumar um vestido de gravidez.

MARCO — E porque não muda de vida?

KATIA — Muito fácil dizer assim: muda de vida. O que que você quer que eu vá fazer? Ser doméstica outra vez? Duzentos contos por mês? E as minhas duas filhas? Todo meu dinheiro vai para elas. Trabalhar em escritório? Vou ter que dar para o chefe de Club Um do mesmo jeito. E de graça. Já que tenho que dar, pelo menos cobro.

MARCO — Porque não monta uma pensão para estudantes?

KATIA — E dinheiro? Onde é que eu vou arrumar dinheiro? Acha que eu consigo guardar dinheiro ? Logo-logo tou velha. Tou na vida, meu filho. ..

MARCO — O termo é muito certo. "Tou na vida".

KATIA —E depois, eu só sei fazer duas coisas na vida: abrir a Bíblia e as pernas. A Bíblia não me pode dar dinheiro. Meu corpo dá. Pelo menos para a Margot, a Neide e para o Pedro Leopoldo, porque eu tenho certeza que quando eu ficar velha, eles vão me compreender e me ajudar.

MARCO (Katia está quase chorando) — Eles não tem culpa de nada não, Katia. É a sociedade... essas coisas. (Pausa) Sabe, Katia, às vezes a gente faz mal juízo das pessoas. Gostei de você. Vem cá. (Marco vai para a sala e arruma uma cadeira para sentar-se. Katia passa direto para o quarto de Marco, deita-se na cama e abre as pernas).

KATIA (Deitada) — Trinta contos!

MARCO (Entrando) — Trinta contos, o que?

KATIA — Ah, como estes intelectuais são complicados. Vai me dizer que você não tá a fim de um michê?

MARCO — Não, Katia. Eu só queria te dizer que você é uma mulher inteligente. O que há de mais bonito no mundo é uma pessoa inteligente.

KATIA — Não sou, não.

MARCO — É sim.

KATIA — Não sou, pô. Sou é uma mulher de muita personalidade. O Didi até se assusta. Outro dia ficou me cantando para fazer uma coisa com ele e eu não fiz: mesmo. Sei de uma menina lá da boate que um dia fez e depois... Eu, hein ?

MARCO — É, assim não dá, não. Você deve ter umas histórias ótimas, né Katia?

KATIA — Ih, tem cada uma que nem te conto. Sabe que a coisa que eu mais adoro é escrever carta para Correio Sentimental ? Você pode rir, mas eu conheço muita gente que ja casou nesta base. Correio Sentimental pra gente como eu, é um golpe do baú.

MARCO — Correio Sentimental é o golpe de baú de puta! Você é sensacional...

KATIA (Imitando) — "Você é sensacional"... Essas coisas de escritor é que me deixa maluca. Não falei nada de mais. Se, por exemplo, eu te contar umas histórias lá do Reino. . .

MARCO (Cortando) — Que Reino?

KATIA — Lá, das Testemunhas de Jeová.

MARCO — Sai pra lá. Vai me dizer que este negócio de Testemunha de Jeová é verdade mesmo? ..

KATIA — E eu lá tenho cara de mentirosa? Já fui Testemunha sim. E das mais ativas...

MARCO — Então foi você que andou mexendo na minha Bíblia? Hoje cedo ela estava em cima do bidê.

KATIA (Vai até o bidê buscar a Bíblia, desculpando-se) —Fiz umas meditaçõezinhas na hora que cheguei. (Novamente no quarto) Já leu Ezequiel? Sacana feito só ele mesmo. Mas bom mesmo são os Salmos. Os Cânticos dos Cânticos!

MARCO (Pausa) — Você lê muito, Katia?

KATIA — Não dá tempo. Lá em Teófilo Otoni eu lia muito. Coisas do Reino. O papai fazia muita questão. A gente precisava ficar atualizada, estudar muito.

MARCO — E revista? Amiga, Cruzeiro, Intervalo?

KATIA — Capricho é muito bom. Tem bastante teste, eu acho um sarro. E tem um Correio Sentimental muito sério. Quer ver umas cartas que eu recebi? Vão lá pra Pavuna na casa da minha tia. (Indo para o quarto do Didi buscar as cartas) Dou o endereço de lá. ( Voltando, tira umas cartas de dentro da "bolsinha". Mostra uma para o Marco).

MARCC) (Lendo) — "Loira Solitária", é?

KATIA — É... eles respondem... Gostam muito deste nome. Uso outros também. Tenho muitas variedades. Flor de Lótus é muito bom. Tirei de um Almanaque do Biotônico Fontoura que eu li. Eles escrevem mesmo...

MARCO (Olha a carta) — Puxa, o cara diz aqui que é advogado. Mas que solidão... Poços de Caldas, Katia; boca boa pruma lua de mel...

KATIA (Alisando a barriga) — É, e estas bocas só aparecem agora. Vá que eu continue a correspondência, troque carta, escambau legal; o cara gama, resolve me conhecer, olha aí. (Marco passa a mão carinhosamente pela barriga de Katia) Vou ver se vou levando só nas missivas mesmo. (Tira outra carta) Este aqui é chefe de almoxarifado; bancário!

MARCO — Bancário e chefe de almoxarifado? Este cara tem mau hálito, Katia.

KATIA — Nossa, você conhece o Randolfo ?

MARCO — Ainda mais com este nome. Você está azarada, minha filha.

KATIA (Com muito amor) — Você é pior que eu imaginava .

MARCO (Ambos se levantam e se entreolham. Sentimento de amor, sentimento humano de um para o outro) — Sabe, Katia, gostei de você. Mesmo. Vou até te dar a minha toalha, a azul. Pode ficar com ela. Eu não te conhecia, pode ficar com ela. Gostei de você. (Eles vão se aproximando lentamente e as luzes vão caindo em resistência até o black-out).