O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CENA 7 (Gladys está sentada na mesa da sala recortando jornal. Katia sai do quarto do Didi e dirige-se a cozinha para jogar lixo fora. Katia está de quatro meses).

KATIA — Mania de ficar recortando jornal . . . Até parece que meu nome nunca saiu em jornal. Só no tempo da Galeria Alaska. "O Dia", minha filha. E com foto e tudo. Eu tapei a cara na hora da fotografia mas eu sabia que era eu quando comprei o jornal.

GLADYS (Rindo) — Ontem cedo veio aqui uma mulher procurando uma tal de Zulmira. É você ? Ela garantiu que era este o endereço.

KATIA — Minha tia! Aconteceu alguma coisa?

GLADYS — Sei lá.

KATIA — Como, sei lá? Não perguntou, não? Eu falei pra minha tia só vir aqui em caso de necessidade muito grande. Você é uma irresponsável. A mulher sai lá de Pavuna e você diz que não é aqui?

GLADYS — Ela falou aí num papo de leite das crianças, sei lá. Eu falei com o Didi e ele ficou de falar com você. Falou, não?

KATIA — Não, eu não estive com ele desde ontem cedo.

GLADYS — Acho bom você dar um pulo lá.

KATIA — Vou depois do almoço. Assim levo a Margot no parque.

GLADYS — Foi bom a gente se encontrar. Eu estava precisando falar muito com você. A gente precisa combinar o dia que cada uma vai arrumar o apartamento, porque se deixar por conta dos meninos, morreremos na mais absoluta poluição de pulgas, baratas, tocos de cigarros e outros tocos.

KATIA — Tô sabendo.

GLADYS — Não foi, como se diz?, trabalhar hoje, não?

KATIA — Em primeiro lugar, não tenho que dar satisfação a ninguém. Ademais, alguma vez te perguntei onde você faz a sua viração. Não fui trabalhar, não... Se até o Senhor, que é o Senhor, descansou, porque eu não ? "E Deus acabou no sétimo dia a obra que tinha feito e descansou no sétimo dia de toda a obra que tinha feito". Tá no Gênesis.

GLADYS — Posso saber onde decorou a Bíblia ?

KATIA — Aí, como é burrinha... E a Bíblia lá é para ser decorada, menina? Eu entendi. Já fui grande no Reino das Testemunhas de Jeová lá em Teófilo Otoni. Ate que apareceu o Jeremy. O Jeremy era um americano: Pregador Maior! Um belo dia veio com uma conversa diferente, com aquele sotaque todo para o meu lado: "eu falar e eu falar claramente e em voz alta que existir vantagens no adultério". E veio andando para o meu lado com uma cara de tarado, menina! Aí eu pulei para o banco de trás — a gente tava no Reino — e gritei: "não deves cometer adultério. Êxodus 20: 4". Não deu tempo. Foi ali mesmo. Ainda bem que tinha uma almofadinha.

GLADYS (Indo para o quarto do Marco e seu) — Comigo nem almofadinha tinha. Foi na escada. Na raça. Hoje em dia não subo em escada de jeito nenhum. Tenho neurose de escada. Amo um elevador. Escada na minha vida basta aquela. E depois, você se mandou?

KATIA (Entrando atrás) — Dá licença? Foi. Puxa, sem almofadinha é fogo!

GLADYS — Escada de um hotel de terceira categoria, meu amor. Me machuquei toda nas costas. Também, visualiza bem: o cara me apertando na frente, os degraus me apertando nas costas. O desgraçado do corrimão na nuca. O cabelo numa poça d'água... No fim, até que foi bom. Na hora H a gente escorregou uns cinco degraus. Nunca mais vi o cara. Um tarado...

KATIA — Coitada. ..Depois desta do Jeremy eu me mandei. Nunca mas vi, também. Até que nasceu a Margot.

GLADYS — Você só tem esta filha?

KATIA — Não !: duas! Margot e Neide. Margot é a mais velha; loirinha, olhinho bem azul, sangue de americano, sabe? Agora Neide é mais para o mulato, cabelo meio pixaim... É um problema de pai!

GLADYS — Escuta, Katia, como é que você foi parar na viração?

KATIA — Ih, minha filha; quando cheguei fui ser doméstica. Ai, que vida mais besta, meu Deus. Depois uma amiga de Teófilo Otoni — testemunha — me convidou para trabalhar numa pensão na Praça Mauá. Meu primeiro michê: um estudante que veio do interior de São Paulo e o cara não acreditava Foi tão gozado... Eh, sarro! (Pausa) E você, como é que começou?

GLADYS — Começou o que?

KATIA — Uai, você não é da vida?

GLADYS (Pausa) — Da vida?... Eu não... Olha, Katia, eu não sou o que você está pensando não.

KATIA — Uai, você não dorme com este tal de Marco?

GLADYS — Não.

KATIA — Não? Já sei, você é sapatão?

GLADYS — Não. (Ri).

KATIA — Eu sempre desconfiei que este cara era bicha.

GLADYS — Não, (Ri).

KATIA — Então sou eu que tou ficando louca. Vocês não dormem juntos aqui neste quarto?

GLADYS — Dormimos.

KATIA — Então, porra!

GLADYS — Mas é uma história diferente. Não é assim. Olha, eu sou atriz de cinema. O meu caso com o Marco é outro .Deixa, é uma história muito complicada. Ás vezes, a gente dorme junto.

KATIA — Ah, vocês são amantes?

GLADYS — Não, não somos, não.

KATIA — Então você é da vida, pô! ! ! (Apagam-se as luzes).