O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CENA 4 (Quando as luzes se acendem Didi está andando pela sala com um enorme livro de medicina nas mãos, estudando).

DIDI — "Um indivíduo, por exemplo, de fenótipo MS transmite um gene MS que, no decurso das gerações não se segrega em M e S. Para os três grupos genes Ms, e Ns também não foi observada a permuta. Crossingover. Os filhos de um casal MSMS e NsNs, terão genótipos MSNs e nunca MsNS. Estes indivíduos MSNs, casados com indivíduos Ns, terão filhos Ns, mas nunca NS. Entre os negros, existem indivíduos destituídos de S e de s, representando o fenótipo menos-menos". (Toca a campainha) Já vai. Mas será que nem às sete da manhã se pode ficar sossegado em Ipanema? Preciso estudar... (Vai caminhando para a porta) Afinal os negros são menos-menos. (Abre a porta, é Katia) Quer falar com quem?

KATIA — Não se lembra de mim, não?

DIDI—Riseth!

KATIA — Que Rizeth, pô. Sou a Katia, lembra?

DIDI (Lembra-se) — Mas é lógico. Que que você quer?

KATIA — Quero entrar, uai. Vê se se manca, né?

DIDI — Vamos entrando; quem é vivo sempre aparece! Tava na boate?

KATIA (Irônica) — Não, num piquenique.

DIDI — Entra. Vem cá para o meu quarto. Sumiu, hein?

KATIA (Ambos entram no quarto do Didi) — Também, não era pra menos. Venho aqui com você e você na minha cara, né?

DIDI — Aquele dia eu não agüentava mais. Deixa eu guardar este livro. (Pausa) Outro dia fui te procurar na boate mas você já tinha saído. Acabei ficando com a Norma, conhece?

KATIA — A Norma Túnel-Velho? (Dando uma olhada no quarto do Marco).

DIDI — Deve ser..

KATIA — Aquele cara que mora com você, ainda mora?

DIDI — Mora. Tá meio famoso agora. Outro dia apareceu na televisão. No "Almoço com as Estrelas", do lado do Jerry Adriani e da Nalva Aguiar...

KATIA — Ele escreve, né?

DIDI — Só palavrão. Um sujo. Minha mãe nem leu. E ainda ficou uma arara. Acha que ele pode me influenciar.

KATIA — Você também escreve?

DIDI — Que isso?

KATIA — Como se você não falasse palavrão.

DIDI — Falar é uma coisa. Escrever é outra.

KATIA — Mesma coisa. Palavrão é palavrão. Dedé...

DIDI — É Didi!

KATIA — Desculpe, Didi. Olha, eu precisava de um favorzão seu.

DIDI (Alisando o lençol da cama) — Estamos aqui para o que der e vier, e muito especialmente para quem vier e der!...

KATIA — Não é nada disso. Sabe, Dadá...

DIDI — Didi! Didi! Vê se guarda. D-I-D-I! Didi.

KATIA — Sabe, Didi, um dia tinha que acontecer. O Freitas, lembra dele? (Didi faz que não com a cabeça) O meu coronel, pombas! Me mandou embora.

DIDI — Arrumou coisa melhor?

KATIA — Me mandou embora devido que descobriu que estou grávida.

DIDI — E tá mesmo?

KATIA — Tou.

DIDI — Puxa, que fria. Vá tirar?

KATIA — Nunca. Never. Isto lá é coisa que se faça? Matar o pobre do bichinho?

DIDI — É... pensando bem.

KATIA — É, ademais, foi culpa minha. A minha religião não permite. Qualquer dia te conto tudo. Então, o Freitas, sem mais nem menos, tirou a minha chave com a mesma cara de filho da mãe que me entregou quando eu fui pra lá. Pegou minhas coisas, me deu, e depois me deu uma bruta porrada aqui no olho esquerdo.

DIDI (Dá uma observada bem de médico na vista de Katia; aproveita e olha o resto do corpo) É, o olho tá meio vermelho mesmo. Foi agora?

KATIA — Agorinha. Bancário filho duma égua. Deu uma porrada na minha cara e disse que eu não passava de uma mulherzinha vulgar, suja e beata!

DIDI — Mulherzinha, não. Você é uma senhora mulher. Tem uma perna muito bonita.

KATIA — Agradecida.

DIDI — Ainda vamos descontar aquela noite. (Katia fica olhando para Didi como se esperasse uma reação dele). Pô, né Katia, você não tá querendo que eu vá lá na casa do cara e dê uma porrada nele. Eu nem conheço O cara. ..

KATIA — Não é nada disso, seu. O que eu queria é pedir para você e para este cara que mora aí, Marco, né?, para morar uns dias aqui.

DIDI (Longa pausa, observa 0 corpo dela) — Quanto tempo?

KATIA — Quanto tempo, o que? Ah... eu vou ficar aqui? (Pausa) Uma semana, no máximo quinze dias.

DIDI — Só uns dias?

KATIA — Olha, Didi: chego cedinho, durmo o dia inteiro e à noite vou trabalhar. Pode ficar sossegado. Se quiser posso dar referências.

DIDI (Pensando) — Preciso consultar o Marco. (Pausa) Acho que não vai ter problema, não. (Pausa) Acho que pode. (Pausa) Pode sim. Lógico que pode! (Katia vai vara a porta de entrada) E as suas coisas, traz quando?

KATIA (Abre a porta de entrada e pega uma valise da Varig que estava do lado de fora) — Estão aqui, ó. Tudo aqui. Escova de dentes, chinelo, duas calcinhas — toda noite eu lavo uma para o dia seguinte, sou muito higiênica — uma calça comprida e uma blusa pra frio. Além desta aqui (Vestida) que é de linho e é paraguaia.

DIDI — Bonita. Mas, e o resto? Não tem mais nada, não?

KATIA — Não... Tudo que o Freitas tinha me dado tirou de volta.

DIDI — Que cara mais lazarento, hein? Olha, se você quiser dormir agora, pode, viu? Vou precisar sair um pouco.

KATIA — Mas hoje é domingo.

DIDI — E daí?

KATIA — Não vai me dizer que tem aula?

DIDI — Não, é um outro compromisso.

KATIA — O que é? Posso saber?

DIDI — Olha aqui, Katia: você vai morar aqui, mas não tem nada a ver com a minha vida. Nada de ficar perguntando isto ou aquilo, onde fui ontem, onde vou amanhã...

KATIA — Desculpe, né? Mas sair às oito da manhã, domingo, pra rua, é meio crime. Isto é hora de deitar pra dormir.

DIDI (Saindo para a rua) — Vou na missa. Sou Católico Apostólico Romano!

KATIA (Já com Didi fora de cena, monologando) — Eu, era Testemunha de Jeová. ( Termina por atirar a roupa, quando está para deitar, entra Marco. Ela vai até a porta do quarto dele, dá uma olhadinha e vê Marco tirando a roupa e se deitando. Marco não a vê. Ela volta e se deita. Os dois começam a dormir, a luz vai caindo em resistência).