DIDI Falar é uma coisa. Escrever é outra.
KATIA Mesma coisa. Palavrão é palavrão.
Dedé...
DIDI É Didi!
KATIA Desculpe, Didi. Olha, eu precisava de
um favorzão seu.
DIDI (Alisando o lençol da cama) Estamos
aqui para o que der e vier, e muito especialmente para quem vier e der!...
KATIA Não é nada disso. Sabe, Dadá...
DIDI Didi! Didi! Vê se guarda. D-I-D-I! Didi.
KATIA Sabe, Didi, um dia tinha que
acontecer. O Freitas, lembra dele? (Didi faz que não com a cabeça) O meu coronel,
pombas! Me mandou embora.
DIDI Arrumou coisa melhor?
KATIA Me mandou embora devido que descobriu
que estou grávida.
DIDI E tá mesmo?
KATIA Tou.
DIDI Puxa, que fria. Vá tirar?
KATIA Nunca. Never. Isto lá é coisa que
se faça? Matar o pobre do bichinho?
DIDI É... pensando bem.
KATIA É, ademais, foi culpa minha. A minha
religião não permite. Qualquer dia te conto tudo. Então, o Freitas, sem mais nem menos,
tirou a minha chave com a mesma cara de filho da mãe que me entregou quando eu fui pra
lá. Pegou minhas coisas, me deu, e depois me deu uma bruta porrada aqui no olho esquerdo.
DIDI (Dá uma observada bem de médico na vista
de Katia; aproveita e olha o resto do corpo) É, o olho tá meio vermelho
mesmo. Foi agora?
KATIA Agorinha. Bancário filho duma égua.
Deu uma porrada na minha cara e disse que eu não passava de uma mulherzinha
vulgar, suja e beata!
DIDI Mulherzinha, não. Você é uma
senhora mulher. Tem uma perna muito bonita.
KATIA Agradecida.
DIDI Ainda vamos descontar aquela noite. (Katia
fica olhando para Didi como se esperasse uma reação dele). Pô, né Katia,
você não tá querendo que eu vá lá na casa do cara e dê uma porrada nele. Eu nem
conheço O cara. ..
KATIA Não é nada disso, seu. O que eu queria é
pedir para você e para este cara que mora aí, Marco, né?, para morar uns dias aqui.
DIDI (Longa pausa, observa 0 corpo dela)
Quanto tempo?
KATIA Quanto tempo, o que? Ah... eu vou
ficar aqui? (Pausa) Uma semana, no máximo quinze dias.
DIDI Só uns dias?
KATIA Olha, Didi: chego cedinho, durmo o
dia inteiro e à noite vou trabalhar. Pode ficar sossegado. Se quiser posso dar
referências.
DIDI (Pensando) Preciso consultar o
Marco. (Pausa) Acho que não vai ter problema, não. (Pausa) Acho que pode. (Pausa) Pode sim. Lógico que pode! (Katia vai vara a porta de entrada) E as suas
coisas, traz quando?
KATIA (Abre a porta de entrada e pega uma
valise da Varig que estava do lado de fora) Estão aqui, ó. Tudo aqui. Escova
de dentes, chinelo, duas calcinhas toda noite eu lavo uma para o dia seguinte, sou
muito higiênica uma calça comprida e uma blusa pra frio. Além desta aqui (Vestida) que é de linho e é paraguaia.
DIDI Bonita. Mas, e o resto? Não tem mais
nada, não?
KATIA Não... Tudo que o Freitas tinha me
dado tirou de volta.
DIDI Que cara mais lazarento, hein? Olha,
se você quiser dormir agora, pode, viu? Vou precisar sair um pouco.
KATIA Mas hoje é domingo.
DIDI E daí?
KATIA Não vai me dizer que tem aula?
DIDI Não, é um outro compromisso.
KATIA O que é? Posso saber?
DIDI Olha aqui, Katia: você vai morar
aqui, mas não tem nada a ver com a minha vida. Nada de ficar perguntando isto ou aquilo,
onde fui ontem, onde vou amanhã...
KATIA Desculpe, né? Mas sair às oito da
manhã, domingo, pra rua, é meio crime. Isto é hora de deitar pra dormir.
DIDI (Saindo para a rua) Vou na
missa. Sou Católico Apostólico Romano!
KATIA (Já com
Didi fora de cena, monologando) Eu, era Testemunha de Jeová. ( Termina por
atirar a roupa, quando está para deitar, entra Marco. Ela vai até a porta do quarto
dele, dá uma olhadinha e vê Marco tirando a roupa e se deitando. Marco não a vê. Ela
volta e se deita. Os dois começam a dormir, a luz vai caindo em resistência).