KATIA (Fica de calcinha e soutien ao mesmo
tempo que Didi de cuecas, destas antigas, largas) Apaga a luz. Tenho vergonha... (Didi apaga a luz do abajur que deve permanecer apagada durante toda essa cena. Total
escuridão).
DIDIVocê manda. Vem quente que eu
estou fervendo.
KATIA E não começa com frescura, não.
Ih, que mão fria!
DIDIMão fria, coração quente.
KATIA Não é o coração que tem de estar
quente. (Pausa) O nego, vai devagar, né?
DIDI Que pernil...
KATIA Põe este pé pra lá.
DIDI _ Este?
KATIA O outro, amor.
KATIA Vai mais pra lá. Olha o meu braço
aí. (Didi começa a tossir) Que que foi?
DIDIPera aí. Entrou cabelo na minha boca.
KATIAVocê é muito pesado. Está me
machucando
DIDI Se concentra! Se concentra!
KATIA (Pausa) Dedé.
DIDI È Didi, pô!
KATIADidi. quero fazer pipi!
DIDILogo agora? Vai depois.
KATIA Num güento, amor.
DIDI Então vai de uma vez. Mas não
demora. (Ainda com as luzes apagadas Katia vai cantarolando para o banheiro depois de
jogar Didi pra fora da cama. Breve pausa). E não precisa voltar, não ( Se o
público não entender, complete com: sou auto suficiente! ) (As luzes se
acendem e estão os dois se vestindo).
KATIA Tem nada não, amor. Qualquer
dia eu volto. Hoje tenho que ir. O Freitas, o meu coronel, é fogo. Tá quase na hora.
Afinal, nas horas de aperto quem alivia mesmo é ele. Gente bem: funcionário do Banco do
Brasil ganha bem, casado, cursilhista, tudo o mais. Te falei das minhas filhas?
DIDI Falou, não .
KATIA Margot e Neide. Falei, não? (Pausa) Tem um quebra gelo aí, não?
DIDI Acabou. Outro dia o Marco deu uma
festa que eu não pude nem estudar.
KATIA Que que você estuda?
DIDI Medicina.
KATIA CDF... (Vai para o banheiro lavar
as mãos) Que toalha posso usar?
DIDI (Do seu quarto) Usa a azul. (Para
ele mesmo, como que falando sozinho, sentado no chão, encostado na cama) É do Marco
. . . Mas eu sou um apressado mesmo! Se o Marco visse esta gata... O Marco só come
intelectual: tudo magrinha, despenteada, cabelo todo encaracolado misturado com sal, perna
fina, unha do pé suja. Eu, não. Mulher, pra mim, tem que ter carne. Tem que ter aquela
perna. Tem que ter carne. Carne, carne, carne! (Katia volta para o guarto).
KATIA Tá com fome, bem?
DIDI (Levanta se) Quando é que te
vejo?
KATIA (Vão caminhando para a porta de entrada)
Passa lá na boate qualquer dia. (Didi dá um.aperto de mão em Katia).
DIDI
Muito prazer! (As luzes se apagam).