O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CENA 3 (Didi conhece Katia. Cena externa. Talvez boate de Katia).

KATIA (Para Didi)—Nunca, nunquinha! Quem é que você tá pensando que eu sou? Uma prostituta qualquer? Ora, esta é muito boa! Sou mulher de muita personalidade, meu filho. Mulher pra quinhentos talheres. Vê se pode: eu, Katia Porreta, uma das mulheres de mais categoria da boate, dormir de graça com um pimpolho de costeletas, só porque a mesada da boneca atrasou

DIDI — Vamos lá em casa que eu te mostro a boneca e o pimpolho!

KATIA—E além de tudo engraçadinho, né? Tenho lá eu culpa se você é estudante ou não? Nunca Nunquinha! Never! Tá pensando o que? Que é o Alan Delon? Pois fique sabendo que na hora de trabalhar sou mais pelo Onassis de cueca. Sou uma profissional, meu filho Serviço completo: cem mil! (As luzes se apagam. Quando acendem. Didi e Katia estão entrando no apartamento, pela porta de entrada).

DIDI—Sacanagem, né Katia?

KATIA—Olha aqui, Dodô.

DIDI—Já disse que é Didi.

KATIA—Olha aqui, Didi, sou uma mulher de muita personalidade. Fiquei com vontade e fiz mesmo. Sou muito decidida!

DIDI—Mas em frente do Zeppelin?

KATIA — Pipocas! Tava com vontade, mijei mesmo! (Didi vai acender o abajur no seu quarto mas Katia entra no quarto do Marco) Aqui que é o seu quarto?

DIDI—Não, aí é do Marco.

KATIA —Mora mais gente aqui, é? Tá pensando que eu sou do que, hein? Não sou destas, não, tá sabendo ?

DIDI—Que nada, o Marco não é de nada! Intelectual. Vem para o meu quarto, vem, amor.

KATIA (,Olhando os livros do Marco) — Putz, quanto livro...

DIDI— Vem, pô.

KATIA — Calma, cazzo. Parece que faz um mês.

DIDI—Quase dois.

KATIA (Pega um livro) — Olha a Bíblia !Já te disse que fui Testemunha de Jeová? (Vão andando para o quarto do Didi que vai beijando-a no pescoço).

DIDI — Disse, não. Depois você conta. Depois. (Didi vai tentar tirar a roupa de Katia).

KATIA—Depois? Vou embora já-já. Tenho meu coronel, tá sabendo? Não chego depois das seis, não. Deixa que eu tiro. Homem não entende dessas coisas...

DIDI —É evidente. Ou você queria que eu usasse zipper nas costas?

KATIA (Fica de calcinha e soutien ao mesmo tempo que Didi de cuecas, destas antigas, largas) —Apaga a luz. Tenho vergonha... (Didi apaga a luz do abajur que deve permanecer apagada durante toda essa cena. Total escuridão).

DIDI—Você manda. Vem quente que eu estou fervendo.

KATIA — E não começa com frescura, não. Ih, que mão fria!

DIDI—Mão fria, coração quente.

KATIA — Não é o coração que tem de estar quente. (Pausa) O nego, vai devagar, né?

DIDI — Que pernil...

KATIA — Põe este pé pra lá.

DIDI _ Este?

KATIA — O outro, amor.

KATIA — Vai mais pra lá. Olha o meu braço aí. (Didi começa a tossir) Que que foi?

DIDI—Pera aí. Entrou cabelo na minha boca.

KATIA—Você é muito pesado. Está me machucando

DIDI — Se concentra! Se concentra!

KATIA (Pausa) —Dedé.

DIDI — È Didi, pô!

KATIA—Didi. quero fazer pipi!

DIDI—Logo agora? Vai depois.

KATIA — Num güento, amor.

DIDI — Então vai de uma vez. Mas não demora. (Ainda com as luzes apagadas Katia vai cantarolando para o banheiro depois de jogar Didi pra fora da cama. Breve pausa). E não precisa voltar, não ( Se o público não entender, complete com: “sou auto suficiente!” ) (As luzes se acendem e estão os dois se vestindo).

KATIA — Tem nada não, amor. Qualquer dia eu volto. Hoje tenho que ir. O Freitas, o meu coronel, é fogo. Tá quase na hora. Afinal, nas horas de aperto quem alivia mesmo é ele. Gente bem: funcionário do Banco do Brasil ganha bem, casado, cursilhista, tudo o mais. Te falei das minhas filhas?

DIDI — Falou, não .

KATIA — Margot e Neide. Falei, não? (Pausa) Tem um quebra gelo aí, não?

DIDI — Acabou. Outro dia o Marco deu uma festa que eu não pude nem estudar.

KATIA — Que que você estuda?

DIDI — Medicina.

KATIA — CDF... (Vai para o banheiro lavar as mãos) Que toalha posso usar?

DIDI (Do seu quarto) — Usa a azul. (Para ele mesmo, como que falando sozinho, sentado no chão, encostado na cama) É do Marco . . . Mas eu sou um apressado mesmo! Se o Marco visse esta gata... O Marco só come intelectual: tudo magrinha, despenteada, cabelo todo encaracolado misturado com sal, perna fina, unha do pé suja. Eu, não. Mulher, pra mim, tem que ter carne. Tem que ter aquela perna. Tem que ter carne. Carne, carne, carne! (Katia volta para o guarto).

KATIA — Tá com fome, bem?

DIDI (Levanta se) — Quando é que te vejo?

KATIA (Vão caminhando para a porta de entrada) — Passa lá na boate qualquer dia. (Didi dá um.aperto de mão em Katia).

DIDI — Muito prazer! (As luzes se apagam).