O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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Cenas:  1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11   12   13   14


CENA 2
(Esta cena é externa ao apartamento. É o começo da peça, com Didi convidando Marco para morar com ele. Pode ser um mero encontro na rua, como uma conversa dentro de um ônibus).

MARCO—É fogo, viu Didi? A gente mora num quarto dois por um. De repente a gente acorda e tem um cara que a gente nunca viu mais gordo e nem mais magro ali, do seu lado, respirando o seu ar. O ar que você tá pagando... Dormindo com aquela cara vermelha e a mão calejada da malinha 007. E a gente ali, agüentando um chulé alheio, um ronco estranho. Geralmente são caras do interior ou do subúrbio. Vêm para trabalhar aqui no Rio nas Casas da Banha ou na Light. São estes caras que no fim de semana não saem da Praça Mauá. Isto quando não vão para a "terra natal": aí, metem um terno preto desbotado, suado, uma gravatinha vermelha daquelas fininhas com cinto idem-ibidem e descem do ônibus dando aquele ar de prósperos e bem sucedidos na Capital...

DIDI—A pensão fica na Prado Júnior, não é?

MARCO—É.

DIDI—Boca quente, hein?

MARCO—Quente? Põe fogo nisto.

DIDI—Mas também tem uma vantagem, né Marco? Tem umas gatinhas por ali. Tu manja aquelas sessões da meia-noite no Cinema Um?

MARCO — Ontem passou Um Dia Um Gato. Além das gatinhas tinha um gato muito louco.

DIDI—Lembra de Ribeirão Campestre? Você era o Rei da Zona! Lembra daquela japonesa?

MARCO—A que tinha uma dentada?

DIDI—Então? Virou bicha?

MARCO—Não é nada disso. Deixa pra lá. E a história do apartamento?

DIDI—Ia dizer agora.

MARCO—Ouvi dizer que é uma travessa da Montenegro, né?

DIDI—Barra quentíssima. Dois quartos enormes. Meu pai que disse pra eu convidar você. Sabe como é o meu pai. Você, a gente conhece, amigo velho da família, mamãe é amiga da sua mãe, coisa e tal. Eles se preocupam muito comigo: às vezes enche o saco, mas eu vivo de mesada, tenho que fazer a minha média...

MARCO—E é só nós dois?

DIDI—LógIco que é só nós dois. É evidente. Assim a gente pode levar mulher num mesmo dia sem qualquer embaraço. Eu tenho o meu quarto e você tem o seu. Você tem móveis?

MARCO—Uma escrivaninha e uma estante de livros.

DIDI—Você não perdeu a mania de ler, hein?

MARCO—Pois é... E quanto é que o cidadão aqui vai ter que pagar para, como diz você, fornicar sem embaraços?

DIDI—Olha, se for muito pode dizer. Eu andei conversando com o meu pai e a gente ficou pensando... É evidente que... Sabe, né? A gente, é evidente...

MARCO—Fala de uma vez, Didi!

DIDI—Meio salário mínimo, dá?

MARCO (Acha o preço ótimo) — Dá. O preço, tá razoável. Só de sair lá da Prado Júnior.

DIDI—E eu, não agüentava mais morar com a minha tia. Está certo que ela tem televisão que quebra um galho danado. Mas não dá pé. Este negócio de tia, só sendo muito novinha e muito boa! Só que televisão desvia a gente um pouco dos estudos. Mas está dando para levar o curso. Gosto muito da profissão que vou abraçar. (Pausa) Vamos pegar um cineminha ali no Cineac?

MARCO—Que que tá passando?

DIDI — "Viagem ao Seio de Todas as Mulheres do Mundo". (Apagam-se as luzes).