O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CENA 14
(Katia na cama do Didi fazendo tricô com a roupa da abertura da peça e ouvindo o radinho de pilha na Mundial. Comendo um sanduíche. Marco, no seu quarto escreve à máquina. Também com a mesma roupa da abertura. Esta cena é a cena final da peça. Marco pára de escrever e vai até Katia)

MARCO — Escuta, Katia, não há nenhum amparo pra mãe solteira, não?

KATIA — Tem um aí; estes negócios que as mulheres granfinas arrumam...

MARCO — Filantropia.

KATIA — Isto. Fi... como é mesmo?

MARCO ...lantropia. Filantropia. Escuta, dá para desligar o rádio? Estou escrevendo um pouco e com uma dor de cabeça incrível... Você gosta de sanduíche, hein?

KATIA (Levantando, vai atrás de Marco que volta para a sua máquina) — Olha, para que você quer saber isto, hein?

MARCO — O que?

KATIA — Negócio de mãe solteira.

MARCO — Olha aqui, ó: estou escrevendo uma peça de teatro. Chama-se O CORDÃO UMBILICAL.

KATIA — E de que que trata?

MARCO — São quatro pessoas que se encontram: uma atriz, um estudante de medicina, uma prostituta e um escritor. Cinco personagens. . .

KATIA — Um, dois, três... Cinco?

MARCO — Tem um feto também. O feto chama Pedro Leopoldo. É da prostituta que está grávida.

KATIA — Sei, sei. Quero ler isso depois, hein? Mas você vai levar no teatro, estas coisas?

MARCO — Vou.

KATIA — E quando eu for assistir você conta que sou eu?

MARCO — Conto. E eu estava exatamente num pedaço sobre este negócio. Apoio na velhice, sabe? Na gravidez... Então eu fui perguntar. Não tem nada mais sério, não?

KATIA — Que nada, meu filho. Pra este pessoal, entrou na vida, acabou.

MARCO — Devia ter uma associação qualquer... Um sindicato. (Ambos vão para a sala) É, um sindicato. Sindicato das Prostitutas do Estado da Guanabara. SINPEG Sinpeg é bom.

KATIA — Sinpeg?

MARCO — É. Sindicato das Prostitutas do Estado da Guanabara. É a sigla.

KATIA — Mas este troço existe?

MARCO — Justamente; não existe mas devia existir. Na minha peça vai existir.

KATIA — Você está ficando louco.

MARCO — Mas é sério. Você já imaginou? O SINPEG poderia, por exemplo, amparar na velhice e na gravidez. Fazer reinvidicações junto aos órgãos do governo. (Pausa, imaginando) Construção de Casa da Prostituta. Igual tem Casa do Estudante, Casa do Médico, Casa do Ator...

KATIA — Mas a gente ia ter que pagar, pra isso?

MARCO — Uma parcela mensal. Igual INPS.

KATIA — Sabe que outro dia um delegado me disse que a gente agora vai ter que pagar Imposto de Renda? Eu, hein? Será que a gente vai ter que dar, nota fiscal?

MARCO — Ai é que entraria o Sindicato. Para estas questões. Paridade de preços é uma boa pedida. Porque, vamos e venhamos, é uma vergonha: numa mesma rua, num mesmo bairro, ou numa mesma boate, há uma variedade de preços desconcertante. ..

KATIA — Sabe que é mesmo ? Tem umas meninas lá na boate que envergonham a profissão. A gente fica batendo pé firme por um preço fixo e elas entram no meio e vão por qualquer Santos Dumont...

MARCO — O SINPEG seria o ideal. Exame médico gratuito para as sindicalizadas e tudo o mais.

KATIA — Greve! Pô, quero fazer uma greve!

MARCO — Greve, não. Tá mais que proibido. O SINPEG não pode, logo de cara, ir contra o governo.

KATIA — E passeata, vai poder?

MARCO—Você quer ser de esquerda logo de saída, hein? Tem que ser do centro. Tem que começar com organização. Sem corrupção e com as devidas eleições. Como deve ser num país organizado. Com todas votando.

KATIA — Já sei: eu vou me candidatar para oradora deste sindicato. Tenho uma larga experiência de falar em público — lá do tempo de Testemunha -- e empolgo qualquer platéia.

MARCO — E tem outra coisa: é preciso organização no que diz respeito ao local de trotoir. Vocês poderiam ir até o governador e pedir um terreno para a construção de um enorme edifício de vários andares... Seria a sede do sindicato. Teria salões de jogos, de danças, bailes, cabarés, departamento médico, pebolim, jogo de bridge para as aposentadas, sauna, cabeleireiro, costureira, e apartamentos de luxo em vários andares. Organização.

KATIA — Eu quero ficar no último andar. Não, no último não. O cara chega muito cansado. . .

MARCO — Porque está uma desorganização. Inclusive na escolha do freguês.

KATIA — Cliente, né Marco?...

MARCO — Desculpe, cliente. Cadastrar todo o pessoal, entende? Para não pegar doença de qualquer um, entende?

KATIA (Imaginando) — Uma passeata. Só uma.

MARCO — A passeata das cem mil. Com a Banda de Ipanema, na frente. Pela Vieira Souto. (A partir deste momento até o final da peça as paredes da planta baixa não serão mais respeitadas).

KATIA — Com. comício em frente daquele negócio de jogar cocô no mar. Pedindo paridade de preços. Maravilhoso: Marco, você é maravilhoso! (Marco coloca Katia em cima da mesa). Atenção senhoras e senhores, para oradora do SINPEG —Sindicato das Prostitutas do Estado da Guanabara —, Katia. Uma inteligência a serviço da classe. Uma visão de um mundo novo. Gostou desta frase?

MARCO — Genial. Perdida, branca ou preta vota em Katia Porreta.

KATIA — Prostituta, prostituta, amparo na velhice e na gravidez! Abandonem as pílulas, mulheres! Modess de graça. Exame médico de graça. Fi... Filan... como é mesmo?

MARCO — Filantropia. Mariposa que não é careta, vota em Katia Porreta.

KATIA — Filantropia! Katia, Katia, Katia, Katia! E o povão na rua, e a mulherada na rua, aplaudindo: Katia, Katia, Katia, Katia ! . .

DIDI (Entrando da rua) — Mas que barulho é este? Lá de baixo estava ouvindo tudo. Esqueceram da velha aí?

MARCO — A velha aí da frente, Katia. A velha aí da frente podia ser a presidente honorária. Pode ser que no fim da peça ela entre em cena como a pomba da paz!

KATIA — O Didi vai ser meu cabo eleitoral. Pra isso ele tem uma cara muito boa.

GLADYS (Entrando da rua) — Assinei contrato! Assinei contrato!

MARCO — Katia, Katia!

GLADYS — Mas pode-se saber que zorra é esta?

KATIA E MARCO — SINPEG — Sindicato das Prostitutas do Estado da Guanabara.

GLADYS — Que sindicato, que nada. Assinei contrato. Vou fazer uma novela. Não tem mais cachê, não. Agora é ali no duro. Contrato, gente! . .

KATIA — A Gladys! A Gladys, que tem muita cultura, podia ser do departamento cultural, estes babados...

MARCO (Pega Gladys pela mão e sai em direção ao público) — Gladys Regina, atriz da novela "Os Perigos de Gigi Pop", está com a sindicalização das prostitutas!

KATIA — Didi, me põe na mesa que vou treinar meu discurso. Didi coloca Katia em cima da mesa e começa a irradiar um jogo de futebol. Marco e Gladys com um lençol na mão, como se fosse uma faixa de campanha eleitoral, correm pelo apto).

GLADYS — Votem em Katia Porreta!

MARCO — A intelectualidade está com a prostituição organizada!

KATIA — Tal destruição está próxima. Por conseguinte, não hesite: dê ouvidos aos conselhos de Deus.

DIDI — Foi corner, meus senhores.

GLADYS — Vai entrar dinheiro! Dinheiro!

KATIA — Sai da Babilônia, a grande, povo meu, se não quiserdes compartilhar e receber parte de suas pragas. (Todos param para ouvir o discurso de Katia). Pois os pecados dela acumulam-se até o Céu e Deus se lembrou dos atos injustos dela. Vejam este discípulo de Jeová aqui ao meu lado (Aponta para alguém da platéia) Ex-pecador, fornicador inveterado e etílico, que ingeria muito álcool. Ouviu a palavra de Deus através de uma Testemunha. Converteu-se e hoje é um semeador do bem e da verdade, para gáudio de todos nós. (Aponta uma senhora) Vejam esta senhora: estava perdida na vida. Ouviu o chamado, ouviu a Bíblia, este sacrossanto prato de alimento fecundo e sadio para um mundo melhor. Hoje é uma recruta de ovelhas desgarradas, para o maravilhoso futuro justo no novo sistema de Deus. (Aponta outra pessoa) Agora é a sua vez. E nós, nós as almas boas do SINPEG .. (Katia coloca as mãos na barriga sentindo pontadas) Ai, estou sentindo umas pontadas... (Todos parados, olhando para ela) .0 Pedro Leopoldo está se mexendo. Meu filho está vivo! (Entra a voz gravada do feto quando a luz se apaga ao Katia dizer: "meu filho está vivo', Black-out até o final da fala do Pedro Leopoldo).

PEDRO LEOPOLDO — Eu estou vivo. Aqui no fundo de você, minha mãe. Você resolveu que eu vou nascer, mas não sei se terei forças para chegar até o fim. Provavelmente vou precisar de ajuda. Agora me acomodei melhor. Meu sexo já está mesmo definido: Pedro Leopoldo. Vou ter os olhos claros do meu pai que não vou conhecer, mas o nariz e a boca serão iguais aos seus, minha mãe. Meu coração já bate. Mas parece que há algo errado: talvez um enfarte na velhice. Meu cordão umbilical me envolve e me liga ao seu ventre que é comprimido diariamente por trinta cruzeiros. Trinta cruzeiros é o que você recebe para me apartarem; para juntar para o parto solitário. Eu ainda não te amo, minha mãe, nem sei se vou amá-la. Minha definição é provisória. Só até nascer. Depois eu não sei. São muitas as chances e eu não sei se terei chances de escolher Vou nascer para este mundo que herdei de vocês. (Quando as luzes voltam, não há ninguém no palco. Os atores voltam para o palco e dizem os monólogos iniciais).

DIDI — Oi. Faço medicina. Tá certo que entrei no sexto vestibular... E de excedente, mas entrei. Meu nome é Valdir Melges Júnior, mas meu apelido é Didi. Todo mundo me chama de Didi. Lá na faculdade também, onde estou no 4.° ano. O sonho do meu pai é eu me formar e ir trabalhar com ele lá em Ribeirão Campestre onde ele é médico. O ano que vem fico noivo da Dirce. Ah, a Dirce é linda. Mamãe apóia a Dirce. Hoje em dia é raro uma menina como ela: prendada...

GLADYS — Meu nome é Gladys Regina. Faço cinema, teatro e televisão. Acho que vocês já ouviram falar de mim Não sou tão famosa assim, mas já fiz meus filminhos. Estou numa novela, agora. Eu morava em Caxias. Minha família ainda está lá: enterrada viva. Eu me mandei. Fazia teatro no colégio das freiras. Trabalhava só mulher. Os papéis masculinos, também eram feitos pelas meninas. Teve uma menina que se especializou tanto em papel de homem, mas tanto, que... Coitada, outro dia vi ela no Piper's. Aí eu me mandei. Deixei tudo e vim morar aqui. No começo foi duro...

MARCO — Meu nome é Marco Aurélio Cunha Campos de Morais. Ninguém vai negar que para escritor eu já tenho um grande nome. Vinte e cinco anos, três livros publicados: tudo sucesso de crítica. (Apontando uma senhora da platéia) A senhora já leu um romance dum tal de Marco Morais, chamado "Manuela, a Guerrilheira de Hemorróidas" ? Não? Ninguém leu. Mas é bom: é prêmio Walmap-68. Deu para curtir,quase dois anos com o dinheiro. Eu fiz o 4.° ano de engenharia, até que descobri que ia ser engenheiro. Só engenheiro. Daí, resolvi ser escritor. Só escritor.

KATIA — Meu nome é Katia. Katia Porreta. Moro aqui neste apartamento com mais três pessoas. Até que é bom. Sou do sul de Minas, mas meu pai era muito quadrado eu me mandei. Não sou besta... Eu, hein? Me mandei pru Rio. Resumindo: tou na viração. Eu, até que sou boa. O que estraga é esta barriga, pô. Também, quem mandou errar na conta? O médico disse que é para daqui um mês. E médico sabe o que diz. Devido que me enfiou até o dedo. Se for homem vai se chamar Pedro Leopoldo, se for mulher, Kelly Cristina. Mas vai ser homem. E vai ser doutor pra enfiar o dedo em tudo que é mulher.

PANO