O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CENA 11 (Toca a campainha. É Katia voltando do serviço. katia está de seis/sete meses de gravidez. Gladys está dormindo no quarto de Marco. Não há mais ninguém em cena. Katia vai entrar com dois sanduíches de mortadela).

KATIA (Off) — Abre esta porta, pô.

GLADYS (Acordando) — Calma, Katia. (Vai até a porta e abre) Cadê a chave?

KATIA — Não adianta. A fresca da chave tá aqui, mas este jeitinho de dar uma viradinha é que não vai. Eh, porta de jacú. Tava dormindo, hein?

GLADYS — Que que você acha, meu amor? Seis horas da manhã. E vê se não faz tanto barulho na hora que chega, porque a velha aí da frente já não entende mais nada. Aquela história que os meninos andaram contando, não sei não. É muito estranho a mulher te ver chegar com esta barriga, dois sanduíches de mortadela, às seis da manhã pra ter aula particular de ciências. (Gladys vai para a sua cama e Katia para o quarto do Didi. Ambas vão dormir. Katia tira a calça comprida e dá uma chegada no quarto de Gladys) .

KATIA — Cadê o intelectual?

GLADYS — Faz dois dias que dorme fora. Ou o DOPS prendeu ele ou está com a tal da mulher casada. Coitado do marido... Também, bem feito. Uma besta, pelo que o Marco me conta. Sabe que ele só dorme com a mulher quando bebe?

KATIA — Até que não é dos piores.

GLADYS — Acontece que só bebe no Natal... E só faz amor com a luz acesa, não é esquisito? E debaixo do lençol. Eu, hein? O Marco tá dando uma assistenciazinha. ..

KATIA — Extra-curricular, como diz o Didi. . .

GLADYS — O Katia, você já arrumou médico?

KATIA — Menina, neste ponto o Didi foi fabuloso. Me levou lá na faculdade dele e conversou com uns caras do sexto ano que dão plantão e eles vão me quebrar o galho. Menina, precisa ver que bacana. Me levaram para uma sala enorme, cheia de vidrinhos faquinhas, o maior babado do mundo. Uns vinte caras. Tudo de branco, tudo limpinho, com luva, estas coisas todas. Todo mundo me examinando. Eu lá, deitada naqueles negócios de ver mulher... O professor explicando tudo. E os moços olhando, aprendendo tudo. Fiquei tão orgulhosa. Fiquei lá mais de uma hora. Colaborando... É por isso que o Pedro Leopoldo vai ser médico. O Didi é muito humano.

GLADYS — É nada. Pra mim ele não passa de um tarado. É como diz o Marco: vai ser um senhor corno quando casar. Está acostumado a só dormir com...

KATIA (Cortando) —Olha o respeito!

GLADYS ... e vai dormir com a tal de Dirce que nunca viu um homem pela frente igual ele dorme com todas, por aí... No máximo vai dar uma mordidinha atrás da orelha dela. Você acha que ele vai ficar assim deitado com ela no chão, gostoso, um fazendo cafuné no outro, tranqüilos, sem pensar em. nada, se amando? Você acha, que ele vai esperar ela gozar? Cá entre nós, vagabunda não goza.

KATIA — Tem umas que envergonham a profissão (Pausa). Ficam tirando casquinha da parede... Tem umas que chegam à cara de pau de ler Intervalo

GLADYS — O dia que a Dirce conhecer um homem mesmo, larga dele. É igual esta mulher que o Marco arrumou...

KATIA (Indo para o seu quarto) — E tem mais: mulher que passa do um, no dois não fica. (Estão cada uma em um quarto, falam um pouco alto, preparam se para dormir).

GLADYS — Você arrumou dinheiro?

KATIA.— Que nada, minha filha. Grávida é fogo. E por menos de cem eu não dou. Quer dizer, considerando a barriga, faço até por trinta, mas menos que isto, never. Aliás, do jeito que a vida está subindo, depois do parto vou aumentar o meu preço. Se for para ir para o apartamento do cara, cento e cinqüenta. Não está caro não, né? Hotel, dependendo do nível e da segurança, de cento e cinqüenta a duzentos.

GLADYS — Dependendo do que?

KATIA — Do nível, da segurança, estes negócios de hotel. Barra da Tijuca por aí. Carro minha filha, de jeito nenhum. Outro dia um cara me pegou na Vieira Souto, aqui pertinho, e me levou lá pra Joá. Sabe o que ele fez comigo? Pegou os meus dois pés e enfiou naqueles negócios de segurar e enfiar paletó e eu fiquei lá, feito frango de vitrine.

GLADYS — Acho que você tá muito certa. Quanto mais a gente cobra, mais valor dão pra gente.

KATIA (Cobrindo-se) — Então você tá estrumbicada: você não cobra nada! . . . (Apagam-se as luzes).