O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CENA 10 (Gladys está arrumando o sofá cama para dormir. Marco entra da rua. Não falam nada, talvez apenas um sinal. Marco começa a tirar a roupa e fica de cuequinha. Gladys continua a arrumar a sua cama. Marco começa a mexer na bolsa de Gladys, enorme, de couro).

MARCO — Você, mulher carrega coisa hein? (Acha a carteira profissional de Gladys) Mas o que é isso?

GLADYS (Pula em cima dele) —Me dá isso aí. Quem mandou mexer? Olha o respeito. Qualquer dia começo a mexer em suas coisas...

MARCO — Olha, minha filha, você pode mexer em todo o meu apartamento, em toda a minha vida, vasculhar toda a zona sul, que você nunca vai descobrir um. nome como este.

GLADYS — Me dá isso aí.

MARCO — Quer dizer que Gladys Regina é nome de guerra, é?

GLADYS — Artístico. Ou você queria que eu fosse ser artista de cinema com este nome cafajeste.

MARCO — É ruinzinho mesmo. Maria Ernesta. Maria Ernesta de Souza Sobrinha. E da onde surgiu o Gladys Regina?

GLADYS — Foi o Jece Valadão que escolheu.

MARCO — Te levou pra Cabo Frio para mudar de nome, não foi?

GLADYS — Ué, como é que você sabe?

MARCO — O Jece gosta muito de mudar o nome das pessoas em Cabo Frio. Mudou teu nome dentro d'água, não foi ? Só espero que não tenha entrado areia.

GLADYS — Não foi nada disso, não. Me dá isso aí.

MARCO (Lendo) — "Comerciária, setenta e oito contos. Funcionária Pública, duzentos e dezesseis cruzeiros novos". Melhorou, hein? Amiguinha do chefe da repartição? Trabalhadeira. . .

GLADYS — Larguei esta fossa, meu filho. Chega: burocracia não é comigo, não. O pessoal picha as meninas que fazem teatro, mas eu vou te contar uma coisa. Pode estar certo que todas estas secretariaszinhas bilíngüe que tem por aí, na realidade são mesmo é trilíngüe. Haja língua!

MARCO (Olhando o corpo de Gladys) — Olha, vou te dar um conselho. Abre o olho com o Didi. Outro dia ele veio me perguntar assim: "ela é virgem"?

GLADYS — Diz que sou, só de sarro.

MARCO — O Didi não deixa por menos, não.

GLADYS — Ele que não se faça de besta comigo. . .

MARCO — Coitado do Asdrúbal.

GLADYS — Coitado de quem?

MARCO — Do Asdrúbal. Conhece não? É o nome do sexo dele.

GLADYS — Isto lá agora tem nome?

MARCO — Lógico. O meu chama Rui Barbosa. Por razões óbvias... E a sua, não tem nome, não?

GLADYS — Lógico que não.

MARCO — Pois então vai ter. Vem cá. (Ajoelha-se aos pés de Gladys) Eu te batizo, Catarina, a Grande!

GLADYS (Ri) — Vai gozar, é? (Pausa) O Didi que me cante que ele vai ver. Que fique lá com a Katia. Escuta, Marco, será que ela não tem doença, não? Sabe que eu morro de medo destas coisas, né? Não posso nem pensar numa eventualidade desta. Sabe que nem sento na privada, né?

MARCO — Ah, então foi você? O Didi veio me encher o saco porque a tampa da privada estava amanhecendo suja todo dia e ele achava que era eu que engraxava o sapato com os pés em cima... Quer dizer que a senhora vai lá e fica que nem uma sapa velha, de cócoras?

GLADYS — Pelo amor de Deus, não vai dizer pra ele não.

MARCO — Pelo menos, vê se não erra.

GLADYS — O Didi é um sarro. Sabe que ele faz uma força danada pra dizer palavrão pra mim? Acho que ele nunca ouviu uma mulher falar palavrão.

MARCO — Ele deve achar você a maior rampeira do mundo...

GLADYS — Pois é.

MARCO (Pausa) — Já faz um tempinho,

GLADYS — Um tempinho o que?

MARCO — Que a gente não dorme junto . . .

GLADYS — Sei...

MARCO — Então? Não sou de ferro, né? Olha, Gladys, vamos deixar de onda? Você não quer?

GLADYS (Sem se abalar) — Não...

MARCO — Um dia a gente vai mesmo... Pra que ficar esperando?

GLADYS — Eu já achava que tava demorando... Vamos fazer uma coisa?

MARCO (Animado) — Vamos.

GLADYS — Vamos ver até quando a gente agüenta, tá?

MARCO — Tá. (Pausa) Eu não agüento mais. (Pula em cima dela enquanto as luzes se apagam).