Aqui em Lillehammer, não teve problema.
Bastou olhar na lista. Seu nome estava lá. Foi mais fácil do que eu
esperava. Mas você podia estar morto, eu pensava. Tanto anos, tanto
trabalho, tanta Luciana Goldman pra que? Você morto. Mas eu sabia,
Olaf, eu tinha certeza que, assim como eu estava vivo, você também
estaria vivo. Peguei o seu endereço na lista, comecei a te vigiar. O
dia que eu te vi pela primeira vez, Olaf, saindo aqui da sua casa,
com o carro , pela garagem, a hora que eu bati o olho em você eu
reconheci. Chorei! Chorei muito, Olaf! Eu tinha dedicado uma parte
da minha vida nesta empreitada. E estava começando a dar certo! Tem
mais de vinte dias que eu te sigo para toda parte. Para o clube de
cartas, para o cinema ali da esquina, para a mercearia, para a casa
dos seus irmãos, ao estádio de hóquei, ao hipódromo. Ficava
pensando, assim que descobri que você morava sozinho, ficava
pensando se você seria solteiro, viúvo, divorciado, porque, pelo
movimento diário eu percebi que você morava sozinho... Percebi
visitas de filha e netos, essas coisas. Mas talvez fosse uma
sobrinha... Mas nada disso tem muita importância agora. Ou será que
tem? (diz ele, em dúvida) Tudo, para esperar hoje, dia de São João!
Tudo para esperar este dia. Porque hoje, Olaf, precisamente hoje,
está fazendo cinquenta anos! Há cinquenta anos, Olaf, há
precisamente cinquenta anos atrás, teve a festa caipira na fazendo
do Rubens Ariano. Tocava aquela música caipira que eu coloquei agora
mesmo e você... Você não se lembra? Eu vim me vingar, Olaf! (longa
pausa) Eu vim resolver o problema com você. Você se lembra agora,
Olaf, o que foi que você fez comigo, há exatamente cinquenta anos
atrás?
(Olaf começa a chorar um choro quase de
perdão, de "vamos conversar", enquanto Ze Olavo sorri. Ze Olavo
gargalha, feliz)
(de repente Zé Olavo vai ficando sério,
sério, muito sério. Encara Olaf com muito ódio)
Garção! Quer coisa mais covarde do que ser
garção? Quer fracasso maior pra quem tinha um bom curso de Direito
em Bauru?
Fui garcão a vida toda! Você já conheceu
alguém, na sua infância, ou mesmo depois de adulto, que quisesse ser
garcão na vida, assim de vocação, aquele que, desde pequeninho a mãe
dizia: nasceu pra garção! Ou o pai orgulhoso, que dissesse: este vai
ser garção! Tá no sangue! Nunca ninguém quis ser garcão na vida. O
sujeito vira! Você vira garção. Há alguns anos eu me aposentei. Para
começar a te procurar. Fui garcão em São Paulo. Não sei se já tinha
te dito que morei uma época em São Paulo, justamente trabalhando de
garção. Fui garcão muito tempo. Devo a isso a minha aposentadoria.
Um horror de aposentadoria, mas uma aposentadoria. Isso eu herdei do
meu pai. Recolher sempre! Ele sempre me perguntava: tá recolhendo,
meu filho? Tá recolhendo, meu filho? E eu recolhia. INPS, imposto de
renda, ISS, sempre recolhi tudo! Agora tenho a minha Aposentadoria.
Um horror, eu já disse. Mas, enfim... melhor do que nada. Estava
dizendo que morei uma época em São Paulo. Minha mulher foi nomeada
para lá. Foi trabalhar no almoxarifado da Secretaria de Obras. Do
Estado. E eu de garção. Sempre odiei isso. Até os vinte e cinco
anos, eu tentei, sem sucesso, é claro, entrar para o Banco do
Brasil. Prestei seis concursos para escriturário e treze para
auxiliar de escrita referência 050. Eu já era um fracasso total, com
vinte e cinco anos! Eu já era um bostinha!, como dizia o meu avô!
(Olaf engasga com a fumaça do cachimbo.
Começa a tossir. Zé Olavo vai lá e dá uns tapas nas costas dele.
Olaf fica melhor)
Isso é nervosismo. Nada sério. Relaxa...
Minha mulher também se aposentou na Secretaria de Obras. Do Estado.
Mas eu me separei dela há muito tempo. Mal ficamos casados... Não
deu certo, Olaf, o meu casamento. Não durou cinco anos. Foi quando
eu descobri, através do Polé, um colega garção, que ela me traia com
todo mundo, a começar pelo nosso gerente. Não sei se devo ficar
entrando em detalhes da minha vida com você, Olaf. Mas, agora,
porque antes eu não pensava nisso, mas agora, fica me dando uma
vontade danada de ir contando tudo para você, como se eu estivesse
passando um diário a limpo..
(olha no relógio da sala. Está faltando,
para as seis horas, exatamente o que estiver faltando para o final
da peça. Calculo uns vinte minutos. Então, neste caso, seria vinte
para as seis)
Não posso ficar falando o tempo todo, olha a
hora. Tenho só até as seis horas.
(Olaf faz menção de pedir para falar alguma
coisa. Isso quase irrita Zé Olavo)
Já disse que não! Será que não me ouve?
Nunca me ouviu, essa é que é a verdade! E nesse período todo que eu
fui garção... Se bem que eu comecei como cumim, assim que a gente
chegou em São Paulo, eu mais ou menos com uma mão atrás e outra na
frente. Entende essa expressão? Uma mão na frente e outra atrás?
Ahn?
(Faz o sinal com as mãos na frente e atrás.
Olaf não entende)
Duro, sem dinheiro, sem nada, entendeu?
(Olaf entende)
Pois então. Presta atenção, Olaf. Fui ser
cumim, que é uma coisa antes de ser garção. Os que usam gravata
black-tie branca. Os que vêm antes, os das bebidas, aqueles que não
adianta você perguntar como é tal prato porque ele não sabe. Pois eu
estava dizendo que nesse período - imenso, aliás - que eu fui
garção, que eu fui desenvolvendo umas espécies de manias. A Luciana
Goldman iria explicar e solucionar tudo isso para mim. A mania de te
seguir até o fim da minha vida, por exemplo, começou como uma mania
pequena, uma coisinha de nada, uma maniazinha desse tamanho...
Imagina se eu iria levar a sério uma idéia dessas. Mas foi
crescendo, crescendo, crescendo até se tornar a coisa mais
importante da minha vida.
(Olaf não está entendendo nada)
Manias pequenas, no começo. Por exemplo. Dar
um exemplo simples: a unha! A unha do pé! Um dia eu sai do banho e
fui cortar as unhas do pé. Eu gosto de cortar a unha do pé depois do
banho, porque elas ficam mais molinhas, bem mais molinhas mesmo e
facilita tudo, não é mesmo? Pois eu fui cortar a unha do dedão e
estava muito grande, bem grande mesmo. Cortei, fiquei olhando para
ela e pensei: essa deve ser récorde! Nunca tinha cortado um pedaço
de unha tão grande assim. E guardei meio como um récorde. Dentro de
uma caixinha de cristal com veludo por dentro, que eu tinha ganho da
Verônica, uma vizinha. Ai eu fui deixando crescer novamente a unha
do dedão para cortar um pedaço maior que aquele. Ganhei!!! Joguei
aquele fora e guardei o maior ainda. Mas aí eu aumentei o
campeonatinho. Comecei a deixar crescer toda as unhas dos dois pés.
Fazia tabelinha. Mindinho direito contra mindinho esquerdo. Dedo
tal, com dedo tal. Depois comecei a fazer cruzamento. Uma vez
comecei a proteger o segundo dedo, aquele logo ao lado do dedão, o
segundo do pé direito. Comecei a proteger ele e você não vai
acreditar, mas ele chegou a ganhar do dedão numa final de campeonato
inesquecível. E assim eu fui fazendo até que tive que comprar um par
de sapatos um número maior, porque a unha já era isso. Com o tempo,
é claro, eu estava usando sapato 45, sendo que o meu número sempre
foi 41, olha aí. Entendeu? Manias assim. Coisa que contada, parece
bobageira, mas no momento em que a mania se manifesta, ela é uma
maravilha. É por isso que existem os maníacos, Olaf!.. Porque a
mania é uma maravilha. Entendeu agora o que eu eu sou, Olaf? Um
maniaco! Eu sou um maníaco, Olaf! Você nunca leu nos jornais, ou
ouviu na televisão: "maníaco ataca não sei onde?" Pois é isso. Eu
sou um maníaco e resolvi atacar em Lillehammer, interior da
Noruega!!! Antes a minha mania era unha de dedão, agora a minha
mania é Olaf Odvar Nordli!!!
(longa pausa. Zé Olavo investiga a sala do
apartamento)
Sabia que aqui a perspectiva de vida é de 77
anos? Sabia? Sabia que no Brasil a perspectiva de vida é de 65 anos?
(sacode o Almanaque Abril no ar) Dediquei quase metade da minha vida
a esta pequena mania. Te achar.
(Zé Olavo coloca outra vez a música caipira
no som. Não havíamos percebido, mas naquele pacote que Zé Olavo
trouxe, tinha mais coisa embrulhada. Agora ele, calmamente, começa a
tirar a sua roupa, ficando só de cuecas. O silêncio - fora a música
- é total. Olaf dá baforadas no seu cachimbo, cada vez mais
apavorado. Zé Olavo se veste de noivo caipira, fazendo bigode falso
- com rolha queimada - , dente preto, etc.. Acaba, tira o som e vai
até o espelho para se olhar)
"Os espelhos deveriam refletir melhor, antes
de refletirem certas imagens..." Sabe a imagem que o seu espelho
está refletindo, Olaf? A de um corno! Foi isso que eu me tornei na
vida: um corno! Mas tão manso que a minha mulher não aguentou. Era
muito manso demais. Acabou me dando um ponta-pé nos cornos... No
fundo, no fundo, eu até gostava. Me tirava aquela necessidade de
homem de ter que dar uma carimbadinha - carimbadinha, entende? -
toda noite. Mas no começo doeu. Mas, como tudo na vida, a gente vai
se ajeitando, vai se acostumando... acostumando. Dói, no começo, eu
dizia. Mas com o tempo, você vai percebendo as vantagens de ser
corno. Nada como ter uma mulher bem comida dentro de casa... É
importante, para o corno, ter um bom comborço. Você não deve nem ter
idéia do que seja um comborço, não é mesmo? Pesquisas... Comborço é
o amante da mulher em relação ao corno. Ou seja, o cara que come a
sua mulher é o seu comborço. É o grau de parentesco, entendeu? A
todo corno, corresponde um comborço e vice-versa. Um não existe sem
o outro... Todo corno sabe disso, da importância de um bom comborço.
Essa é a principal qualidade do covarde que eu me tornei. Você vai
se acostumando. (longa pausa, ele pensa, relembra o passado) Uma vez
levei um tapa na cara e não reagi. Fiquei mal, achando que eu devia
procurar o sujeito. Mas depois que levei mais uns dois ou três, fui
me acostumando. O tapa você até esquece. O que humilha mesmo é o
barulho! Splash!, bem na sua cara! Vi isso numa peça de teatro... O
barulho do tapa na cara...Fica difícil esquecer aquele som...
Splash! Não é tão ruim ser covarde: ser covarde dá menos trabalho!
Aí eu entrei num acordo com ela. Na frente dos meus amigos, não. Nem
com eles. Mas não adiantava. Hoje, Olaf, eu conto isso com a maior
naturalidade. Porque eu te encontrei. Antes de eu te encontrar, quer
dizer, antes da Luciana Goldman me ajudar a entender definitivamente
porque é que eu virei um babaca, um corno, um covarde, um cara que
não deu certo, antes disso... Veja, os nossos amigos daquela época.
O Caio, por exemplo: foi para Miami. Hoje tem cinco condomínios só
dele. Começou com um posto de gasolina. O Cesar é dono de três
faculdades de Educação Física no interior de São Paulo. Nada em
dinheiro. O Sergio, por exemplo, se meteu em política, foi deputado,
quase ganhou eleição para senador, vive hoje numa boa entre Munique,
Nova Iorque e Olinda, onde passa o inverno. Você... Deve ter se dado
bem. Filho de industrial, deve ter fabricado toneladas e toneladas
de papelão, não é? Você não se deu bem? Deve ter herdado isso
tudo...
(Olaf concorda com a cabeça)
Garção...Tem gente que vai a restaurante só
porque lá ele é servido como no tempo da escravidão. Garção é o que
sobrou da escravidão no Brasil. É o último serviço escravo do
Brasil. Aliás, deixa eu fazer justiça ao meu país. Aqui é a mesma
coisa. Acabo de sair de um restaurante aqui perto. A diferença é que
aqui eles devem ganhar um salário decente. Porque nem isso eu tinha.
Esse negócio de dez por cento do garção, meu filho... Mas isso não
interessa nem um pouco.
(enquanto Zé Olavo falou este parágrafo
acima, tirou e colocou todas as balas no seu revólver, para
sofrimento de Olaf)
Todo garção finge que é surdo. Pode
observar. É difícil você chamar e ele ouvir. Ele ouve, mas faz que
não ouve. É horrível você estar indo para uma mesa e o sujeito grita
lá da outra. Garção! Ô Rapazinho! Ptisiu! Tá surdo, cara? É
impossível você ficar parado num canto pensando num probleminha seu.
Qualquer que seja o probleminha. Sempre tem um cara
que...
(toca o telefone de novo. Eles se olham. A
secretária eletrônica atende)
SECRETÁRIA ELETRÔNICA - (em norueguês, voz de mulher de vinte e seis
anos) Meu amor, o quê que houve, meu amor? Estou te esperando no
clube... Até já!..
(Zé Olavo engatilha a arma. Ajeita a gravata do seu terno.)
Engraçado, Olaf, esta voz não parecia de filha, mãe de neto, etc. Me
parecia mais a voz de uma jovem amante. Você tem uma amante jovem,
Olaf?
(Olaf concorda com a cabeça, esboçando um sorriso)
Claro, eu devia ter imaginado que você teria se tornado um bom dum
comborço. Com o pai que tinha... Conhece o corno? Muito melhor que
ficar só na mão, não é mesmo? A masturbação... Ah, quantos pecados
se cometem em seu nome. Quantos crimes se justificam por uma bela
punheta. Além do mais, este nome! Punheta! Existe nome mais bonito e
sacana na língua portuguesa do que PUNHETA??? Que felicidade
maravilhosa descobrir que não era pecado a gente bater umazinha. Eu
fui educado no Salesiano. Você deve se lembrar dos salesianos lá de
Albuquerque, não se lembra? (fica olhando livros na estante,
pensamento distante, lá em Albuquerque) Quando eu tinha uns doze
anos, a gente combinou de peidar no confessionário. Era obrigado a
confessar todo sábado. Então ficava aquela fila. E o Jipão - Jipão
era o apelido do Padre André - lá dentro da cabine, do
confessionário. Ia um, peidava no final do Ato de Contrição, saia e
logo em seguida tinha que ir ajoelhar outro que era para conferir,
para sentir o cheiro. Um dia, logo depois do Estevão, eu me ajoelhei
e estava aquele cheiro horroroso, porque o Estevão era mais velho
que a gente, e peidava mais fedido... Sei lá, sempre tive essa
impressão... Que, quanto mais velho o cara, mais fedido é o peido! E
eu, não sei porque - mais tarde a Luciana Goldman iria me explicar -
eu não sei porque eu falei: Padre André, eu vim confessar os meus
pecados e o primeiro deles é contar para o senhor que tá todo mundo
peidando aqui. Claro que eu não usei a palavra "peidando", é claro.
O último foi o Estevão. Já pensou, Olaf, um sujeito, com doze/treze
anos e já dedo-duro? Isso também eu devo a você... me diria anos
depois a Luciana Goldman. Os salesianos. Um dia o Bosteiro, que era
o apelido do Padre Mario, me levantou pelo colarinho, na frente de
todo mundo e gritava: vejam, vejam, o Zé Olavo Garcia Antunes está
com o demônio no corpo! Está com o demônio no corpo! E sabe porque,
Olaf? Porque eu tinha feito promessa de não comer alface dois meses
- era a coisa que eu mais gostava - e cinco dias antes de encerrar o
prazo, eu comi. Mas, voltando à punheta... Entao, eu sempre me
masturbava escondido, no banheiro, com todas as portas e janelas
fechadas, com todas as culpas do mundo. Nem ruídos eu fazia. Só
muitos anos depois, graças à Luciana Goldman, eu fui liberando a
punheta. Imagina você, Olaf, que agora - agora é modo de dizer -
agora eu me masturbo na sala, com todas as janelas abertas. Me
masturbo andando pela casa, gozo nas paredes, cuspo pra cima, faço o
diabo. Mas isso, só depois de quinze anos de Luciana Goldman. Um
grande punhetista! Imagine você que eu tinha tanto tempo para me
dedicar à coisa que eu fui me aperfeiçoando cada vez mais, cada vez
mais. Quando eu estava no meu auge, no auge da punheta, você nem
imagina o que eu fazia, Olaf.
(o texto que se segue é com Zé Olavo passando o cano do seu revólver
pelo corpo de Olaf)
Sabe o que eu fazia? Eu me dava ao luxo - veja você, Olaf, que
loucuca! - eu me dava ao luxo de deixar as unhas da minha mão
esquerda crescerem até ficarem grandes, como as unhas de uma mulher.
Ficava meses sem cortar. Eu preparava as unhas, polia, admirava,
lixava... Acho que eu levava o maior jeito para manicure. Depois,
quando elas já estavam grandes, eu pintava uma a uma de vermelho, de
um vermelho bem forte, bem marcante. Depois, ficava nu em casa - eu
com mais de trinta, cinquenta, cinquenta anos, imagine, Olaf - e
deitava em cima do meu braço e da minha mão esquerda até que ela
adormecesse, mas adormecesse de uma maneira que eu não conseguia
sentir mais nem o braço e nem a mão, entende? Ficava tudo
adormecido. Aí então, como eu não estava mais sentindo a minha mão,
eu me masturbava com ela e ficava olhando de soslaio, assim, de cima
pra baixo, como quem não quer nada, aquela mão estranha, de unhas
grandes e vermelhas, parecendo mão de mulher - eu raspava até os
pelinhos do punho para parecer mais com mulher - me masturbando! Que
maravilha que era, Olaf, que maravilha!
(Zé Olavo vai se servir de mais um uisque. Serve-se como um bom
garção profissional. Fica se servindo olhando fixamente para Olaf. O
revólver apontado para ele e engatilhado. Serve-se até o uisque
transbordar. Leva para Olaf e faz com que ele tome na marra.
Praticamente vira o uisque goela abaixo nele. Toma o restinho que
ficou no copo)
Quando eu era garção, eu sabia "vem cá!!!" em treze linguas. Você
não acredita, não é? Peguei hotel de turista, também... Em tcheco.
Sabe como é vem cá!!! em tcheco? Pod sem! Pod sem!!!
(fica observando ele longo tempo)
Você está muito tenso, Olaf Odvar Nordli! Eu estou começando a ter a
impressão que você já sabe o que foi que aconteceu entre nós dois há
tantos anos atrás, não é mesmo?
(Olaf nega com a cabeça)
Pois então, Olaf, eu vou ser obrigado a te lembrar tudo. Mas eu
duvido. Você já sabe, Olaf! Lembra da casca de limão, Olaf!?!?!? A
casca de limão, SEU FILHO DE UMA PUTA? LEMBRA DA CASQUINHA DE LIMÃO,
SEU FILHO DE UMA PUTA!?!?!?
(Olaf se lembra, é claro. Começa a chorar pra valer.)
Pára de chorar, filho da puta! Pára de chorar, eu já disse!
(Olaf tira um lenço da calça que está no chão e começa a se enxugar)
Festa de São João. Mais ou menos esta hora. Todos os meninos e
meninas de Albuquerque, muito bem vestidinhos, com suas roupinhas
muito bem caipirinhas, bigodes de rolha queimada, dentes faltando,
as meninas com sardas iguais as da sua irmã que eram as únicas
sardas naturais, baton nos lábios. Deixa eu retocar o seu baton,
Olaf, que tá muito feio... Quietinho que já estamos acabando...
todos empertigadinhos, na festa de São João. Quentão, pipoca,
bandeirinhas coloridas... As nossas mães passavam dias e dias
recortando papel crepon para pendurar no dia da festa... Quem
comandava a quadrilha era o Benê Bassit, lembra? Balancê!!! Tour.
Caminho da roça! Balancê. Tunel... Benê Bassit... Lembra do Benê
Bassit, Olaf?
(Olaf concorda com a cabeça)
Benê Bassit... Na fazenda do Rubens Ariano. Tudo isto está claro na
minha cabeça agora, Olaf. Mas eu não me lembrava de nada disso. Foi
a Luciana Goldman, etecétera. Eu posso te descrever agora, até
quantas luzes estavam acesas naquele galpão dos fundos da fazenda
quando a gente entrou. Estava um pouco mais escuro que agora.
(Zé Olavo apaga umas luzes. A metade. Fica quase que uma penumbra)
Assim. Estava mais ou menos assim. Tinha um móvel grande dentro
deste galpão, você se lembra? Uma espécie de guarda-roupa, bem
grande, que estava vazio.
(na sala tem um móvel grande, Zé Olavo se encaminha para ele)
Era mais ou menos deste tamanho. Cabia muito bem nós dois lá dentro.
Lembra, filho da puta?!!!
(Olaf se lembra perfeitamente. Já está imaginando o que Zé Olavo vai
fazer com ele. Zé Olavo abre o armário grande. Tem roupas de cama,
uma caixas grandes, toalhas, etc, Zé Olavo joga tudo para fora. Tem
que caber os dois lá dentro. Olaf, pela segunda vez, tenta fugir,
mas Zé Olavo o segura pela roupa de noiva)
Fica bonitinho aqui, que tudo já está acabando, Olaf! Você sabe que
estamos chegando ao fim! Olha a hora. Dentro do armário tinha um
cheiro de mofo. Mais ou menos como este daqui. (longa pausa)
Troca-troca! Uma troca-troca! Fala troca-troca, vamos? Quero ver se
você se lembra do que é troca-troca, vamos! Fala, cara, estou
mandando!
OLAF ODVAR NORDLI - (com dificuldade, muito sotaque e trêmulo)
Troca-troca...
ZÉ OLAVO - Mais alto, Olaf, mais alto, Olaf!
OLAF ODVAR NORDLI - Troca-troca!
ZÉ OLAVO - Mais alto! Quero que você grite!
OLAF ODVAR NORDLI - (com o revólver enfiado no pescoço, grita)
TROCA-TROCA!!! TROCA-TROCA!!!
ZÉ OLAVO - Foi o que você me propôs. Uma troca-troca... Você tinha
onze anos e eu tinha nove. Mas você me enganou, seu filho de uma
puta! Você fez tudo o que tinha direito e depois, quando era a minha
vez, você me segurou na marra (pega ele e faz a cena, no chão). Você
me dizia com seu sotaque horroroso: nem um pio! nem um pio! Lembra
da casquinha de limão? Pois você pegou uma casquinha de limão da
limonada que o Benê Bassit tinha feito e com os dedos da mão
esquerda abria o meu cu e com a mão direita espremia, começou a
amassar ela no meu cu, seu filho da puta! Isso que me deixou doido.
A casquinha de limão! Aquele sumo espremido, entrando, ardendo, me
queimando por dentro. Me queimando por dentro naquele dia e o resto
da minha vida, seu filho da puta! Você está me entendendo? Precisava
da casquinha, seu filho de uma puta? Da casquinha? Quer coisa mais
humilhante do que aquela casquinha?...Você está começando a me
entender, seu grandíssimo de um filho da puta? Você não pode
calcular o tamanho deste ódio!!! Quanto mais ardia, mais você ria.
Mais você se divertia! Isso, Olaf, que você mal se lembrava... Essa
sua brincadeira inocente numa festa caipira... Numa festa caipira lá
no interior do Brasil... Numa festa junina...Foi por isso que eu
dediquei quinze anos para a Luciana Goldman e mais cinco para te
encontrar
(Zé Olavo empurra ele de novo na poltrona. Vai até o armário e olha
lá dentro)
Você deve estar se perguntando, agora, o que é que eu vou fazer com
você, depois destes anos todos, não é? Hoje cedo eu fui numa feira
no centro de Lillehammer comprar... sabe o que? Limão. Minha idéia
era comprar logo uma dúzia, mas eu não poderia imaginar que o limão
aqui custasse tão caro. Fiquei impressionado. Mais caro que um quilo
de filé mignon no Brasil... Comprei só um apenas. Um já bastava para
o que eu tinha em mente. Está aqui, ó, no meu bolso. Tira o limão e
começa a andar com ele pela sala jogando e pegando, como se fosse
uma bolinha. Uma faca?
(Olaf aponta a cozinha, apavorado)
Vou buscar. Não tente nada! Nada, ouviu?
(assim que Zé Olavo sai, Olaf sai em disparada na direção da porta,
mas Zé - que estava atento - volta e o intercepta, ficando meio
abraçado com ele, ao lado da porta. Zé já está com a faca na mão.
Fica aquele abraço meio saia justa ali. Zé Olavo solta Olaf
normalmente. Olaf volta para a sua poltrona).
Falávamos de limão, não é mesmo? Casquinha de limão. É incrível como
agora eu estou me sentindo bem, Olaf. Me dá vontade de ligar para a
Luciana Goldman e dizer: Luciana Goldman, olha eu aqui, me
libertando, olha eu aqui diante do Olaf, bem no interior da Noruega,
olha eu aqui, Luciana Goldman, com a faca e o queijo na mão, Luciana
Goldman. É que eu não sei o telefone dela, senão eu ligaria agora
mesmo. Vamos voltar ao limão. Então, Olaf, eu passei esses anos
todos pensando em o que fazer quando a situação surgisse. O que
fazer? Acho que ainda não te contei que fiz uma operação da
próstata, contei? Eu acho que não te contei que fiz uma operação na
próstata. Tive câncer na próstata, precocemente. E não sei se você
sabe que, em alguns casos, o sujeito pode ficar impotente, depois da
operação. Aconteceu isso comigo. Semi, vamos dizer assim. Semi... É
muito raro eu ter uma ereção. Tenho, mas é muito raro. Por isso, eu
ia te dar uma chance, uma chance de vida, Olaf!. Nós íamos nos
trancar aí dentro e você iria fazer com que eu tivesse uma ereção.
Com a boca, está me ouvindo? Com a boca! Em caso positivo, tudo bem.
Em caso negativo... Mas agora aqui, agora, te vendo de noiva... É
claro que você não se lembra quem era a noiva naquela tarde na
fazenda do Rubens Ariano, né? Era a Luluzinha da fábrica Milma.
Lembra, do seu Evaristo? A Luluzinha. Eu era apaixonado por ela,
naquela época. Ela estava linda de noiva. Até hoje a imagem dela
nunca saiu da minha cabeça. (passa a mão na cabeça do Olaf) Era ela
que eu, de noivo, ia beijar no final.
(começa a cortar as casquinhas do limão, pra desespero do Olaf)
Mas aí surgiu você com as casquinhas de limão, Olaf.
(espreme uma casquinha no espelho, sujando-o todo)
Você sabia, Olaf, que Olaf, de trás pra frente, é falo? Falo!
(pausa) Não é engraçado? (pausa) Eu estava te dizendo nas coisas que
eu pensei em fazer com você, Olaf, mas o que eu vou realmente fazer
não havia passado na minha cabeça. (pausa) Acho que nem na da
Luciana Goldman. Teve uma coisa que a Luciana Goldman não me
explicou, não me disse. Acho que ela sabia que eu iria descobrir
isso agora, aqui, na sua frente... (pausa) Tenho certeza que ela
sabia disto. (longa pausa) Ela não iria me ajudar tanto,
praticamente me conduzir pra cá, se ela não soubesse disso, se ela
não soubesse com toda a certeza e a inteligência dela e conhecimento
dela, se ela não sabia, se ela não tinha certeza que esses anos
todos... (maior pausa da peça) Olaf, esses anos todos, Olaf pensando
em você... na casquinha de limão... toda a minha vida de merda, todo
o meu fracasso, tudo em mim, toda a minha vida dedicada a você, Olaf...
(pausa) Pensando em você...
(joga a casquinha de limão pela janela, coloca a música caipira na
vitrola)
Vem, dança comigo o caminho da roça, dança...
(Olaf, mais aliviado, se levanta, entra a música e a voz de Bene
Bassit conduzindo a quadrilha. Os dois começam a dançar, vão ficando
alegres, vão parecendo dois garotos do interior brincando, rindo
muito, e a voz de Benê Bassit é cada vez mais animada. Uma grande
festa. Uma grande brincadeira. Espoucam os foguetes. Fogos de
artificio, o apê vai ficando iluminado com os fogos, eles gargalham,
riem, dançam, se encontram. As luzes do apartamento de apagam,
ficando apenas as luzes dos fogos de artifício, esporádicas)
FRASES DE BENÊ -
- balancê!
- tour!
- olha a ponte! a ponte caiu (eles voltam)
- olha o tunel! tá vindo trem. (eles voltam)
- olha a cobra!
- caminho da roça!
- etc, etc, etc,
F I M