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O CAMINHO DA ROÇA (TRAGICOMÉDIA)

TEXTO COMPLETO

 

época, atual

cenário: a sala de um apartamento classe média alta, em Lillehammer, interior da Noruega.

JOSÉ OLAVO TEM FORTE SOTAQUE CAIPIRA

O apartamento em Lillehammer, interior da Noruega, no mês de junho dos nossos dias. Temperatura amena.

Olaf, por exemplo, estará vestindo apenas um terno. Um bom e bem traçado terno.

O apartamento é de uma pessoa que nunca passou dificuldades na vida. É o apartamento de um homem de cinqüenta e um anos, um austero industrial norueguês, ainda forte, bonito.

Acho que deve ter um tom meio ocre, um certo degradê ocre. Você sabia que ocre vem do latim "útero"?

Quando a cortina se abre, está tocando uma música clássica norueguesa muito bonita. Não há ninguém em cena.

Entra, do quarto, Olaf, já vestido, olha no relógio, segurando o paletó nas mãos. Percebe-se que ele está para sair. Seu copo de uísque está quase no fim, depositado em cima de uma mesinha. Ele toma o último gole, veste o paletó, pega um casaco "de detetive" em cima da cadeira, dá uma geral na sua sala, se olha novamente no espelho, desliga o som, pega a chave, abre a porta e vai sair. Volta e liga a secretária eletrônica. Ouvimos, em norueguês:

- Favor deixar recado depois do Bip. Ou passar seu Fax.

Desde que ele entrou em cena, leva um pequeno embrulho, para presente.

Fica branco: do lado de fora, um homem, Zé Olavo, mais ou menos com a idade dele, com um enorme revólver na mão, faz com que ele entre novamente. Com a outra mão, Zé Olavo faz sinal com os lábios para que ele não diga nenhuma palavra. E joga um grande embrulho no chão da casa.

Zé vai empurrando-o com o revólver até que ele caia sentado numa bela poltrona de couro. Zé Olavo fecha a porta, tranca e guarda a chave no bolso. Olaf está apavorado, não tem a mínima idéia do que esteja acontecendo. Seu embrulho também caiu no chão.

Zé Olavo, muito friamente, senta-se diante dele, noutra poltrona. Zé sorri, Zé ri. É como se ele estivesse (e estava) esperando por aquele momento há muitos e muitos anos.

ZÉ OLAVO - Olaf Odvar Nordli?

(Olaf concorda com a cabeça, agora mais apavorado ainda.).

ZÉ OLAVO - Ainda fala português? Ainda entende português?

(Olaf concorda com a cabeça, dizendo com as mãos que mais ou menos).

ZÉ OLAVO - Ótimo. Desculpe a maneira de entrar, assim... Você assim, saindo, muito bem vestido...

(alisa o casaco dele que caiu no chão quando entraram)

Deve estar indo para a casa de um filho ou filha, ou talvez neto... Já deve ter netos, não é?, ou neta, para passar domingo, não é mesmo?

(Olaf concorda com a cabeça. Zé Olavo aponta o revólver para ele)

Você não vai dar nenhum pio, entende? Sabe o que é pio? Lembra o que é pio?

(ele faz sim com a cabeça)

Você não vai dizer nenhum palavra, está me entendendo? Nenhuma! E quando eu digo nenhuma é nenhuma mesmo! Te estouro o miolo, está me entendendo? Aliás, você não deve estar entendendo absolutamente nada! Nada! Você jamais poderia imaginar que eu, agora, neste dia, nesta hora, neste ano, tantos anos depois... aparecesse aqui assim, de repente, com o revólver na mão, mandando você ficar aí sentadinho e quietinho!

(pega o copo de uísque quase vazio)

Quer mais um gole? Pra relaxar? (ri)

(Olaf diz não com a cabeça)

Olaf Odvar Nordli! Um belo nome. Jamais me esqueci dele. E de você, Olaf!

(uma longa pausa, Zé Olavo se serve de um uísque sem gelo)

Não se preocupe, não vou me embriagar, encher a cara... Encher a cara você não deve saber o que é. Não é gíria do seu tempo, Olaf. Ou será que há cinqüenta anos atrás já se enchia a cara no Brasil? (para ele mesmo) Já? Você se lembra desta gíria, Olaf?

(Olaf faz não com a cabeça, depois de pensar um pouco, cada vez mais apavorado. Zé Olavo dá um gole)

Não se preocupe, Olaf, antes das seis da tarde eu me mando, ou melhor, eu vou embora. Preciso tomar muito cuidado com as gírias. Não quero que você perca uma só palavra de tudo que eu tenho para te dizer, Olaf Odvar Nordli, da Noruega. Nossa, Olaf, faz frio, mesmo sendo verão aqui, hein? Sabe que tá mais ou menos a mesma temperatura lá do Brasil? Lá agora é inverno, lembra disso? (olha o rótulo da garrafa de uísque. Segura a garrafa profissionalmente, como garção)

Não gostei deste uísque. Definitivamente, o uísque norueguês não é nada bom... Eu nem sei por onde começar sabia, Olaf? Acho que depois de tantos anos eu deveria ter trazido um pequeno roteiro para ir te explicando como foi que eu cheguei até aqui. Como é que eu saí lá do Brasil e vim até aqui para passar o dia de São João, a festa junina, com você. Não deve ter festa junina aqui, não é mesmo? E por falar em festa, em sair, onde quer que você fosse, você não vai mais e é claro, que seja filho, filha, ou mesmo neto, já-já vão começar a telefonar para cá pedindo a sua presença, e coisa e tal. E o senhor não vai atender, estamos bem explicadinhos? Você tem secretária eletrônica?

(sim com a cabeça)

Então ela deve estar ligada.

(sim com a cabeça)

Pois muito bem, então não teremos muitos problemas sobre esta questão. Vão achar que você está um pouco atrasado, que aconteceu alguma coisa. Tudo, menos alguém vir até aqui te procurar. Eles iriam ver esta cena desagradável.

(Olaf faz menção de dizer alguma coisa, mas Zé, sem ser agressivo, coloca o cano do revólver junto aos dentes dele)

Eu disse, Olaf, nada de falar nada! Absolutamente nada! Pio! Lembra? Nenhum pio! Te quero quieto... A última coisa que eu quero, é ouvir aquele seu horrível sotaque que, aliás, agora deve estar muito pior. Você morou uns cinco anos lá no Brasil, mas tem mais de trinta, segundo informações precisas, que voltou para cá. Você, junto com a sua família, é claro, passou ainda uns cinco anos na Argentina. Confere?

(ele confere com a cabeça)

Para você ficar um pouco mais relaxado, Olaf, quero te dizer que não vim aqui para te assaltar. E não fique ansioso que logo mais eu vou lhe dizer quem eu... Você vai se lembrar. Já se passaram cinqüenta anos. Mas você não mudou muito, Olaf... Um pouco mais gordo, é claro, essa papada no pescoço, o cabelo mais ralo e branco. Mas você tem a cara que eu acho que daria para você hoje, há cinqüenta anos atrás. Você não sabe, Olaf, você não pode ter idéia da alegria, da felicidade que é eu estar aqui, em Lillehammer, agora, diante de você. De você estar vivo, Olaf. Você estar vivo... É como se eu estivesse nascendo hoje. É como se fosse um prazer, um prazer muito grande. Pena este revólver, mas é necessário. Eu poderia ter entrado sem ele, mas chegaria um momento da nossa conversa que eu teria de usá-lo. Então resolvi entrar já com ele na mão. Sobre isso eu também pensei muito. Como entrar aqui. Pensei: será que eu telefono e me apresento? Será que eu marco hora? Ou apareço de sopetão? Lembra o que é sopetão?

(não com a cabeça)

Sopetão é assim como eu apareci. De repente, inesperadamente. Eu entrei aqui como se fosse um louco, de revólver na mão. Realmente esse uísque... Mas é um prazer, Olaf. Nunca o meu sangue correu com tanta velocidade, com tanto vigor, com tanta alegria dentro do meu corpo. Uma coisa elétrica, uma gasolina que sobe, não sei...Outra coisa, Olaf, não sou louco, não tenho nenhum desvio. Tá certo que eu fiz psicanálise lá no Brasil durante quase quinze anos, com a doutora Luciana Goldman. Mas tive alta! Tive alta quando descobri a Noruega, Olaf! Não é engraçado, um brasileiro, depois de quinze anos de psicanálise, ter alta depois que descobre o frio da Noruega? Quinze anos, Olaf! Tudo o que eu ganhava, ia para a Luciana Goldman, a psicanalista que cuidava de mim, a psicanalista que... Não, mais para frente eu falo dela. Eu tenho que seguir uma certa linha de pensamento, senão você não vai entender nada.  E eu quero que você entenda tudo. Absolutamente tudo! Tim-tim por tim-tim! Mais tarde, você me lembra de falar da Luciana Goldman, porque é uma pessoa que ficou uma certa relação... uma coisa que... Deixa pra lá...

(Olaf faz menção de se levantar. Zé vai na direção dele. Olaf aponta o cachimbo em cima da mesinha. Zé Olavo indica o cachimbo, liberando o seu uso. Silêncio enquanto Olaf prepara norueguesamente o seu cachimbo)

Você se lembra do Brasil, é claro. Você se lembra do estado de São Paulo, é lógico. E você deve se lembrar muito mais ainda de uma cidadezinha que ficava lá para o oeste do estado, quase perto do Mato-Grosso, chamada Albuquerque. Você se lembra de Albuquerque, Olaf?

(Olaf concorda com a cabeça, chegando até a esboçar um certo sorriso)

Você nunca conseguiu falar essa palavra: Albuquerque... Continua a mesma de cinqüenta anos atrás, Olaf. Só que agora não tem mais café. O chão se cansou, o café desceu para o norte do Paraná. Surgiram cidades novas por lá e a nossa querida Albuquerque ficou parada no ar, com aquela igreja horrorosa cravada bem na praça da fonte. Até os japoneses sumiram. Você se lembra como tinha japoneses na região, Olaf? Chegavam direto do Japão para Albuquerque. Fizeram até um filme a respeito disso, interessantíssimo. Tinha até um rapaz nordestino que explicava para a japonesada como é que colhia o café. Tinha uma cena que ele caia no chão se fazendo de morto que... (corta) Mas isso é outra história e eu não vim aqui para falar do desenvolvimento agrícola e cultural na minha cidade. Eu só queria te localizar. Eu só queria te ajudar a se lembrar de mim. Eu sou o Zé Olavo, Olaf! Você brincava comigo, com aquele seu sotaque desajeitado me chamando de Zé Olaf e eu ficava bravo e gritava: Zé Olavo! Olavo!  E você gritava do outro lado: Zé Olaf! Zé Olaf! E eu de cá: Zé Olavo, Noruga! Zé Olavo, Noruga! Lembra?

(Olaf fica olhando para ele, tentando se lembrar, mas não se lembra. Faz que não com a cabeça.)

Não se lembra? Mentiroso! Impossível! Que pena... Até as seis da tarde eu tenho certeza que você vai se lembrar de mim. Eu me lembro perfeitamente quando vocês chegaram. Os noruegueses. Me lembro do meu pai, na hora do almoço, dizendo: Albuquerque está prosperando! Até os noruegueses estão investindo aqui. Me lembro de ter ido na rodoviária velha ver o ônibus que trouxe a sua família. Você tinha uma irmãzinha mais velha, toda ruiva, que eu não me lembro mais do nome. Toda pintadinha, toda sardentinha, não tinha? E como você jogava futebol mal, Olaf. Nem no gol, você prestava. Meu pai era o doutor Antunes, lembra?

(Olaf, cada vez mais apavorado, nega com a cabeça)

Que péssima memória, Olaf! Talvez, se você tivesse feito psicanálise como eu, durante quinze anos, você se lembrasse de tudo. Mas não se incomode, que você vai se lembrar.

(Zé Olavo pega o embrulho que caiu no chão na sua entrada, coloca em cima da mesa, tira o barbante, mas não chega a abri-lo totalmente. Ainda não temos noção do que se trata)

É um presente que eu trouxe para você, Olaf. Lá do Brasil. Deu um trabalhão, é pesado, mas você merece e tenho certeza que vai gostar e gostar muito. Nada como relembrar os velhos tempos, não é mesmo?

(Zé Olavo fica esticando o barbante bem perto de Olaf)

Não se preocupe, Olaf, não vou passar isso no seu pescoço, não. Eu estava dizendo de quando vocês chegaram em Albuquerque e logo começaram a construção do barracão para a instalação da Brundtland, que ia ser uma tal de uma fábrica de papel e papelão. Até hoje eu nunca entendi, Olaf, que raio que foi isso de um grupo de noruegueses sair daqui e ir fabricar papelão lá na minha cidade que cultivava café. Viu como eu sei a história do seu pais, Olaf? A Brundtland... ficava lá na parte alta da cidade, perto da zona. Lembra da zona, Olaf?

(ele, pela primeira vez, faz sim com a cabeça)

Finalmente você se lembra de alguma coisa! Bravo! A zona de Albuquerque!..

(Zé Olavo não gosta de se lembrar da zona. Muda de assunto)

Papel e papelão...

(toca o telefone. Os dois ficam parados no ar. Zé Olavo faz sinal para Olaf não atender. A secretária eletrônica atende)

SECRETARIA ELETRÔNICA - (em norueguês, a voz de uma criança) Vovô, estamos te esperando. Venha logo, vovô. Um beijo. Size.

(Olaf faz menção de explicar alguma coisa, Zé aponta o revólver para ele)

ZE OLAVO - Cala a boca! Não sei norueguês mas tenho certeza que deve ser uma neta ou neto dizendo que você está atrasado para alguma festinha...

(Olaf, triste, concorda com a cabeça)

Quantos netos são? Não, não diga nada.

(Zé vai mostrando com os dedos. Quando chega a três, Olaf concorda)

Três netos... Um bom número... Eu não tenho netos. Nem filhos... Aliás, nem esposa. Já tive uma. Isso não vem ao caso.

(Ze Olavo se afasta, pega o embrulho e vai desembrulhando. É vestido completo de noiva, de noiva caipira.)

Lembra disso? Não vai me dizer que você não se lembra das festas caipiras lá de Albuquerque? Tinha a noiva, tinha o noivo, tinha os padrinhos, os convidados, a música, o caminho da roça, lembra, Olaf? Lembra do caminho da roça? Que alegria...

(Olaf sorri sem graça)

Vamos, tire a roupa!

(Olaf não se mexe)

Será que você ficou surdo? Não ouviu? Eu mandei você tirar a roupa, Olaf! Fica de cueca e põe isso. Vamos! Ou você quer que eu dê uns tiros aqui para cima? Quer que eu faça tiro ao alvo nesse lustre?

(Olaf, todo trêmulo e sem entender nada, se levanta e tenta correr para o quarto, mas Ze Olavo estica a perna, faz com que ele tropece. Coloca o revólver na nuca dele)

Olha aqui, Noruga, eu vim lá do Brasil até aqui para conversar com você! E vou conversar! Custe o que custar... Acho melhor você fazer muito do direitinho tudo que eu mandar, porque assim a coisa vai ser mais tranquila e podemos até ter um final feliz. Calma, Noruga! Muita calma!

(Olaf se apruma, está quase chorando, começa a tirar a roupa. Ze Olavo vai até a vitrola)

O toca-fica funciona?

(Olaf vai lá e liga o toca-fita. Zé tira uma fita do bolso e coloca. Começa a tocar uma música típica de quadrilha caipira, enquanto Olaf vai tirando a sua roupa e colocando a roupa de noiva. Ze Olavo fica olhando de cócoras, enquanto faz um cigarrinho caipira, mas, com os olhos, segue o ritual de se vestir do Olaf. Quando Olaf termina de se vestir, Zé tira o som da música. Vai até Olaf e coloca o véu na cabeça dele. Coloca a grinalda na mão dele. Passa baton nos lábios dele. Olaf, sempre tentando não deixar nada, mas o cano do revólver de Zé Olavo fala mais alto. Olaf está ridículo. A saia, inclusive, é muito curta para suas finas e brancas pernas.)

Você lembra, Olaf, sempre que a gente, eu, você, o Gutão, O Oto, irmão do Ziza, o Serginho, o Cesar, o Julio Caio, sempre que a gente ia para os ensaios da quadrilha, a gente ficava paquerando as menininhas, lembra? Todo mundo queria ser o noivo, para beijar a noiva depois de casados, lembra disso? Sabe o que é paquerar?

(Olaf não sabe)

Lembra dos ensaios das festas caipiras, Olaf?

(Olaf se lembra)

Eu acho, Olaf, agora, que você está começando a se lembrar de mim, não está? Ou você quer que eu também me vista de noivo e fique tão ridículo como você está, para que você confesse que se lembra de mim? Eu não era o seu melhor amigo... Você se dava mais com o Caio e o Cesar, aquele que levantava peso, lembra? Mas eu estava sempre na casa do Caio. O Caio, da dona Lila e do seu Julio. Tão vivos até hoje, sabia? Aqueles dois são imortais. Agora está lembrado me mim, não está?  A gente jogava botão... José Olavo Garcia Antunes. Lembrou?!!

(Olaf concorda)

Ótimo! Tudo será mais fácil! Foi difícil, Olaf, te encontrar. Muito difícil. Algumas vezes eu pensei em desistir.  Você podia estar  morto há anos, e eu perdendo o meu tempo. Mas, cada vez mais, eu sentia que você deveria estar vivo. Deus não iria fazer isso comigo. Depois de quinze anos de psicanálise com a Luciana Goldman... Mas isso é outra história. O que importa é que depois de quinze anos, cavucando a minha vida, fui voltando, voltando... Você deve saber como é esse negócio de psicanálise, não sabe? Claro que deve saber. Afinal, a Noruega tem um dos mais altos índices de suicídios do mundo! Você sabia disso, Olaf?

(ele concorda)

E que os noruegueses se matam mais que as norueguesas? Quase setenta por cento dos suicídios aqui são de homens. Estou te dizendo isso para você ver a que ponto eu cheguei sobre as minhas informações sobre a Noruega. Afinal, há anos que eu durmo e vivo Noruega, atrás de você, Olaf. A grande maioria dos suicidas noruegueses se matam por enforcamento (tá com o barbante na mão), sabia? Em segundo lugar vem as armas de fogo (mostra a arma) e explosivos e, em terceiro lugar, envenenamento (mostra o uisque). Estou certo? (tira do bolso um Almanaque Abril) Tá tudo aqui, Noruga! Tudo aqui!Acho que você nunca pensou em se matar. A sua casa não tem cara de casa de suicida. Tudo muito organizado. Suicida não é assim. Casa de suicida coisa não combina com coisa. Eu tentei... Ou melhor, eu tentei pensar. Não cheguei a tentar explicitamente. Mas pensei em como faria se eu fosse me matar. Sabe o que eu faria? Pularia lá do último andar do Edifício Itália. Você não conhece... É novo... É o edificio mais alto de São Paulo. Um dia eu ia passando por lá e vi um sujeito, ou melhor, o que sobrou de um sujeito que pulou lá de cima. O pedaço maior era o pé. E isso porque tinha ficado dentro do tênis. Me disse um guarda que estava ali varrendo os miolos do cara, que o cara morre no meio do caminho. O ar entra por todos os furos do corpo e o cara explode, arrebenta o pulmão. Deve ser rápido e muito eficiente. Mas que conversa desagradável. Vamos voltar. Eu estava dizendo da psicanálise, que a pessoa vai voltando para trás, vai voltando prá trás, é uma loucura, tem gente que volta a usar fralda. Acho a psicanálise uma maravilha! Primeiro ela te ensina a gritar com uma pessoa que te ofende. Aí você põe tudo para fora. Sai gritando, dá uma de liberado pela psicanálise! Dá uma de macho! Depois, você faz mais psicanálise para não se arrepender de ter gritado tanto com a pessoa. Depois, você faz mais uns meses para não achar que fez tanta psicanálise, achando que não devia ter gritado com a pessoa. Seis meses depois, mais ou menos, você tem certeza que devia mesmo ter gritado com a pessoa, mas começa a pensar se ela, a pessoa, não estaria certa, lá naquela questão do começo. Aí, passa alguns meses com amor e ódio daquela pessoa, louco para encontrar com ela outra vez e se explicar. E quando, finalmente, se encontra, um ano depois, dá um esporro maior ainda, pensando que ela vai responder aquele grito lá de um ano atrás. Ela, a pessoa, não vai entender nada, mas para a gente, foi uma maravilha!!! Entendeu, Olaf, o que é a psicanálise? Acho que você não sabe o que é esporro... Você, Olaf, agora, com essa roupinha horrorosa, tá fazendo uma psicanálise. Foi você vestir essa roupinha e começou a se lembrar de mim. Eu repartia o cabelo aqui do lado e tinha um topete, você se lembra? Tinha gente que me chamava de James Dean. (se olha um pouco no espelho, penteando o cabelo com pente Flamengo) Você deve estar me achando um homem legal, saudável, falante, firme, não é mesmo? Eu também estou me sentindo assim, agora. Mas eu não era assim, Olaf! Eu estava dizendo que foi a psicanálise. Bom, o que importa, é que eu tive alta há cinco anos atrás e estou ótimo. Melhor impossível! E nestes últimos cinco anos, eu dediquei toda a minha vida - toda, hein, Olaf? - para te procurar. Está me entendendo?

(Olaf faz que não com a cabeça. Realmente ele não está entendendo nada)

A Brundtland, fechou naquela época mesmo. Imagina, fabricar papel e palelão numa região de café. Só norueguês mesmo. Em Albuquerque ninguém sabia do paradeiro dos Nordli. Um velhinho, amigo do meu pai, foi quem me disse que a fábrica, que ele achava, que ele tinha ouvido falar, que a fábrica tinha mudado para a Argentina. Passei vários dias em Brasilia, na Embaixada da Noruega, lá na Avenida das Nações, enchendo o saco do seu embaixador,  um jovem muito simpático, sabia? Levou meses para me receber. Porque eu e um zero a esquerda somos - éramos - a mesma coisa. Foi uma dificuldade. Meses e meses de cartas, protocolos, um inferno! E não adiantou nada! Realmente os Nordli haviam se mudado para a Argentina. Fui de ônibus para a Argentina, Olaf. E quando a gente fala em Argentina, a gente pensa logo em Buenos Aires. Mas não. Eu ainda não estava convenvido de que a sua família gostava tanto de cidades pequenas, gostava tanto de cidades do interior, como esta aqui, para instalar a Brundtland da Argentina. Rio Galegos, interior de Santa Cruz, é uma titica! Depois de Santa Cruz só a Terra do Fogo, o polo sul e o inferno! Mania que vocês têm de cidade pequena, nossa! Pouca coisa maior que Albuquerque. Outro ônibus de Buenos Aires até lá. Lá, vocês ficaram cinco anos, fazendo mais papelão. Mas, parece que lá também não se deram muito bem. Mas você saiu de lá já mocinho com quinze, dezesseis anos. Não foi por aí?

(Olaf concorda com a cabeça)

Foi lá que eu descobri que o seu pai era um mulherengo. Isso mesmo. Garanhão. Um senhor mulherengo! Sabia? Te assusta esse assunto? Falar do seu pai? Que eu nem sei se está vivo? Você sabia que você tem, pelo menos, três irmãos argentinos? Dois homens e uma senhora. A sua família é muito lembrada por lá, meu caro Olaf Odvar. E foi um seu irmão, que se chama Armendarez - não é engraçado, você ter um irmão que se chama Armendarez, Olaf? - pois foi esse Armendarez que trabalha duro em Rio Gallegos com um pequeno negócio de papelaria - olha aí o sangue na veia do argentino bastardo - quem me deu a pista para chegar até aqui. Comentado assim, parece uma coisa simples. Uma semana, no máximo duas semanas e estava tudo resolvido. Não, Olaf, eu demorei cinco anos para te achar. Porque eu não tinha nem tempo nem dinheiro para fazer isso. Cada pista, eu precisava trabalhar pra burro, levantar um dinheiro e viajar, subornar autoridades, pagar hoteis, comer fora... Tudo isso custa muito dinheiro. E eu nem sabia se você estava vivo ou morto...Agora, hoje, aqui, eu já disse, eu posso parecer um homem realizado. E realmente eu agora sou uma pessoa realizada. Afinal, quinze anos de análise, mais cinco te procurando... Posso te garantir que a data de hoje não foi sem querer. Foi proposital. Por que, né? Você deve estar perguntando. Por que você? Por que eu? Por que nós?

(Olaf começa a chorar)

O que é isso? Vai chorar logo agora? Mas você não ouviu ainda nem metade, Olaf!

(enfia o revólver na boca de Olaf)

Está proibido de chorar, Noruga!

(Olaf, na medida do possível, pára de chorar)

Aqui em Lillehammer, não teve problema. Bastou olhar na lista. Seu nome estava lá. Foi mais fácil do que eu esperava. Mas você podia estar morto, eu pensava. Tanto anos, tanto trabalho, tanta Luciana Goldman pra que? Você morto. Mas eu sabia, Olaf, eu tinha certeza que, assim como eu estava vivo, você também estaria vivo. Peguei o seu endereço na lista, comecei a te vigiar. O dia que eu te vi pela primeira vez, Olaf, saindo aqui da sua casa, com o carro , pela garagem, a hora que eu bati o olho em você eu reconheci. Chorei! Chorei muito, Olaf! Eu tinha dedicado uma parte da minha vida nesta empreitada. E estava começando a dar certo! Tem mais de vinte dias que eu te sigo para toda parte. Para o clube de cartas, para o cinema ali da esquina, para a mercearia, para a casa dos seus irmãos, ao estádio de hóquei, ao hipódromo. Ficava pensando, assim que descobri que você morava sozinho, ficava pensando se você seria solteiro, viúvo, divorciado, porque, pelo movimento diário eu percebi que você morava sozinho... Percebi visitas de filha e netos, essas coisas. Mas talvez fosse uma sobrinha... Mas nada disso tem muita importância agora. Ou será que tem? (diz ele, em dúvida) Tudo, para esperar hoje, dia de São João! Tudo para esperar este dia. Porque hoje, Olaf, precisamente hoje, está fazendo cinquenta anos! Há cinquenta anos, Olaf, há precisamente cinquenta anos atrás, teve a festa caipira na fazendo do Rubens Ariano. Tocava aquela música caipira que eu coloquei agora mesmo e você... Você não se lembra? Eu vim me vingar, Olaf! (longa pausa)  Eu vim resolver o problema com você. Você se lembra agora, Olaf, o que foi que você fez comigo, há exatamente cinquenta anos atrás?

(Olaf começa a chorar um choro quase de perdão, de "vamos conversar", enquanto Ze Olavo sorri. Ze Olavo gargalha, feliz)

(de repente Zé Olavo vai ficando sério, sério, muito sério. Encara Olaf com muito ódio)

Garção! Quer coisa mais covarde do que ser garção? Quer fracasso maior pra quem tinha um bom curso de Direito em Bauru?

Fui garcão a vida toda! Você já conheceu alguém, na sua infância, ou mesmo depois de adulto, que quisesse ser garcão na vida, assim de vocação, aquele que, desde pequeninho a mãe dizia: nasceu pra garção! Ou o pai orgulhoso, que dissesse: este vai ser garção! Tá no sangue! Nunca ninguém quis ser garcão na vida. O sujeito vira! Você vira garção. Há alguns anos eu me aposentei. Para começar a te procurar. Fui garcão em São Paulo. Não sei se já tinha te dito que morei uma época em São Paulo, justamente trabalhando de garção. Fui garcão muito tempo. Devo a isso a minha aposentadoria. Um horror de aposentadoria, mas uma aposentadoria. Isso eu herdei do meu pai. Recolher sempre! Ele sempre me perguntava: tá recolhendo, meu filho? Tá recolhendo, meu filho? E eu recolhia. INPS, imposto de renda, ISS, sempre recolhi tudo! Agora tenho a minha Aposentadoria. Um horror, eu já disse. Mas, enfim... melhor do que nada. Estava dizendo que morei uma época em São Paulo. Minha mulher foi nomeada para lá. Foi trabalhar no almoxarifado da Secretaria de Obras. Do Estado. E eu de garção. Sempre odiei isso. Até os vinte e cinco anos, eu tentei, sem sucesso, é claro, entrar para o Banco do Brasil. Prestei seis concursos para escriturário e treze para auxiliar de escrita referência 050. Eu já era um fracasso total, com vinte e cinco anos! Eu já era um bostinha!, como dizia o meu avô!

(Olaf engasga com a fumaça do cachimbo. Começa a tossir. Zé Olavo vai lá e dá uns tapas nas costas dele. Olaf fica melhor)

Isso é nervosismo. Nada sério. Relaxa... Minha mulher também se aposentou na Secretaria de Obras. Do Estado. Mas eu me separei dela há muito tempo. Mal ficamos casados... Não deu certo, Olaf, o meu casamento. Não durou cinco anos. Foi quando eu descobri, através do Polé, um colega garção, que ela me traia com todo mundo, a começar pelo nosso gerente. Não sei se devo ficar entrando em detalhes da minha vida com você, Olaf. Mas, agora, porque antes eu não pensava nisso, mas agora, fica me dando uma vontade danada de ir contando tudo para você, como se eu estivesse passando um diário a limpo..

(olha no relógio da sala. Está faltando, para as seis horas, exatamente o que estiver faltando para o final da peça. Calculo uns vinte minutos. Então, neste caso, seria vinte para as seis)

Não posso ficar falando o tempo todo, olha a hora. Tenho só até as seis horas.

(Olaf faz menção de pedir para falar alguma coisa. Isso quase irrita Zé Olavo)

Já disse que não! Será que não me ouve? Nunca me ouviu, essa é que é a verdade! E nesse período todo que eu fui garção... Se bem que eu comecei como cumim, assim que a gente chegou em São Paulo, eu mais ou menos com uma mão atrás e outra na frente. Entende essa expressão? Uma mão na frente e outra atrás? Ahn?

(Faz o sinal com as mãos na frente e atrás. Olaf não entende)

Duro, sem dinheiro, sem nada, entendeu?

(Olaf entende)

Pois então. Presta atenção, Olaf. Fui ser cumim, que é uma coisa antes de ser garção. Os que usam gravata black-tie branca. Os que vêm antes, os das bebidas, aqueles que não adianta você perguntar como é tal prato porque ele não sabe. Pois eu estava dizendo que nesse período - imenso, aliás - que eu fui garção, que eu fui desenvolvendo umas espécies de manias. A Luciana Goldman iria explicar e solucionar tudo isso para mim. A mania de te seguir até o fim da minha vida, por exemplo, começou como uma mania pequena, uma coisinha de nada, uma maniazinha desse tamanho... Imagina se eu iria levar a sério uma idéia dessas. Mas foi crescendo, crescendo, crescendo até se tornar a coisa mais importante da minha vida.

(Olaf não está entendendo nada)

Manias pequenas, no começo. Por exemplo. Dar um exemplo simples: a unha! A unha do pé! Um dia eu sai do banho e fui cortar as unhas do pé. Eu gosto de cortar a unha do pé depois do banho, porque elas ficam mais molinhas, bem mais molinhas mesmo e facilita tudo, não é mesmo? Pois eu fui cortar a unha do dedão e estava muito grande, bem grande mesmo. Cortei, fiquei olhando para ela e pensei: essa deve ser récorde! Nunca tinha cortado um pedaço de unha tão grande assim. E guardei meio como um récorde. Dentro de uma caixinha de cristal com veludo por dentro, que eu tinha ganho da Verônica, uma vizinha. Ai eu fui deixando crescer novamente a unha do dedão para cortar um pedaço maior que aquele. Ganhei!!! Joguei aquele fora e guardei o maior ainda. Mas aí eu aumentei o campeonatinho. Comecei a deixar crescer toda as unhas dos dois pés. Fazia tabelinha. Mindinho direito contra mindinho esquerdo. Dedo tal, com dedo tal. Depois comecei a fazer cruzamento. Uma vez comecei a proteger o segundo dedo, aquele logo ao lado do dedão, o segundo do pé direito. Comecei a proteger ele e você não vai acreditar, mas ele chegou a ganhar do dedão numa final de campeonato inesquecível. E assim eu fui fazendo até que tive que comprar um par de sapatos um número maior, porque a unha já era isso. Com o tempo, é claro, eu estava usando sapato 45, sendo que o meu número sempre foi 41, olha aí. Entendeu? Manias assim. Coisa que contada, parece bobageira, mas no momento em que a mania se manifesta, ela é uma maravilha. É por isso que existem os maníacos, Olaf!.. Porque a mania é uma maravilha. Entendeu agora o que eu eu sou, Olaf? Um maniaco! Eu sou um maníaco, Olaf! Você nunca leu nos jornais, ou ouviu na televisão: "maníaco ataca não sei onde?" Pois é isso. Eu sou um maníaco e resolvi atacar em Lillehammer, interior da Noruega!!! Antes a minha mania era unha de dedão, agora a minha mania é Olaf Odvar Nordli!!!

(longa pausa. Zé Olavo investiga a sala do apartamento)

Sabia que aqui a perspectiva de vida é de 77 anos? Sabia? Sabia que no Brasil a perspectiva de vida é de 65 anos? (sacode o Almanaque Abril no ar) Dediquei quase metade da minha vida a esta pequena mania. Te achar.

(Zé Olavo coloca outra vez a música caipira no som. Não havíamos percebido, mas naquele pacote que Zé Olavo trouxe, tinha mais coisa embrulhada. Agora ele, calmamente, começa a tirar a sua roupa, ficando só de cuecas. O silêncio - fora a música - é total. Olaf dá baforadas no seu cachimbo, cada vez mais apavorado. Zé Olavo se veste de noivo caipira, fazendo bigode falso - com rolha queimada - , dente preto, etc.. Acaba, tira o som e vai até o espelho para se olhar)

"Os espelhos deveriam refletir melhor, antes de refletirem certas imagens..." Sabe a imagem que o seu espelho está refletindo, Olaf? A de um corno! Foi isso que eu me tornei na vida: um corno! Mas tão manso que a minha mulher não aguentou. Era muito manso demais. Acabou me dando um ponta-pé nos cornos... No fundo, no fundo, eu até gostava. Me tirava aquela necessidade de homem de ter que dar uma  carimbadinha - carimbadinha, entende? - toda noite. Mas no começo doeu. Mas, como tudo na vida, a gente vai se ajeitando, vai se acostumando... acostumando. Dói, no começo, eu dizia. Mas com o tempo, você vai percebendo as vantagens de ser corno. Nada como ter uma mulher bem comida dentro de casa... É importante, para o corno, ter um bom comborço. Você não deve nem ter idéia do que seja um  comborço, não é mesmo? Pesquisas... Comborço é o amante da mulher em relação ao corno. Ou seja, o cara que come a sua mulher é o seu comborço. É o grau de parentesco, entendeu? A todo corno, corresponde um comborço e vice-versa. Um não existe sem o outro... Todo corno sabe disso, da importância de um bom comborço. Essa é a principal qualidade do covarde que eu me tornei. Você vai se acostumando. (longa pausa, ele pensa, relembra o passado) Uma vez levei um tapa na cara e não reagi. Fiquei mal, achando que eu devia procurar o sujeito. Mas depois que levei mais uns dois ou três, fui me acostumando. O tapa você até esquece. O que humilha mesmo é o barulho! Splash!, bem na sua cara! Vi isso numa peça de teatro... O barulho do tapa na cara...Fica difícil esquecer aquele som... Splash! Não é tão ruim ser covarde: ser covarde dá menos trabalho! Aí eu entrei num acordo com ela. Na frente dos meus amigos, não. Nem com eles. Mas não adiantava. Hoje, Olaf, eu conto isso com a maior naturalidade. Porque eu te encontrei. Antes de eu te encontrar, quer dizer, antes da Luciana Goldman me ajudar a entender definitivamente porque é que eu virei um babaca, um corno, um covarde, um cara que não deu certo, antes disso... Veja, os nossos amigos daquela época. O Caio, por exemplo: foi para Miami. Hoje tem cinco condomínios só dele. Começou com um posto de gasolina. O Cesar é dono de três faculdades de Educação Física no interior de São Paulo. Nada em dinheiro. O Sergio, por exemplo, se meteu em política, foi deputado, quase ganhou eleição para senador, vive hoje numa boa entre Munique, Nova Iorque e Olinda, onde passa o inverno. Você... Deve ter se dado bem. Filho de industrial, deve ter fabricado toneladas e toneladas de papelão, não é? Você não se deu bem? Deve ter herdado isso tudo...

(Olaf concorda com a cabeça)

Garção...Tem gente que vai a restaurante só porque lá ele é servido como no tempo da escravidão. Garção é o que sobrou da escravidão no Brasil. É o último serviço escravo do Brasil. Aliás, deixa eu fazer justiça ao meu país. Aqui é a mesma coisa. Acabo de sair de um restaurante aqui perto. A diferença é que aqui eles devem ganhar um salário decente. Porque nem isso eu tinha. Esse negócio de dez por cento do garção, meu filho... Mas isso não interessa nem um pouco.

(enquanto Zé Olavo falou este parágrafo acima, tirou e colocou todas as balas no seu revólver, para sofrimento de Olaf)

Todo garção finge que é surdo. Pode observar. É difícil você chamar e ele ouvir. Ele ouve, mas faz que não ouve. É horrível você estar indo para uma mesa e o sujeito grita lá da outra. Garção! Ô Rapazinho! Ptisiu! Tá surdo, cara? É impossível você ficar parado num canto pensando num probleminha seu. Qualquer que seja o probleminha. Sempre tem um cara que...                                   

(toca o telefone de novo. Eles se olham. A secretária eletrônica atende)

SECRETÁRIA ELETRÔNICA - (em norueguês, voz de mulher de vinte e seis anos) Meu amor, o quê que houve, meu amor? Estou te esperando no clube... Até já!..

(Zé Olavo engatilha a arma. Ajeita a gravata do seu terno.)

Engraçado, Olaf, esta voz não parecia de filha, mãe de neto, etc. Me parecia mais a voz de uma jovem amante. Você tem uma amante jovem, Olaf?

(Olaf concorda com a cabeça, esboçando um sorriso)

Claro, eu devia ter imaginado que você teria se tornado um bom dum comborço. Com o pai que tinha... Conhece o corno? Muito melhor que ficar só na mão, não é mesmo? A masturbação... Ah, quantos pecados se cometem em seu nome. Quantos crimes se justificam por uma bela punheta. Além do mais, este nome! Punheta! Existe nome mais bonito e sacana na língua portuguesa do que PUNHETA??? Que felicidade maravilhosa descobrir que não era pecado a gente bater umazinha. Eu fui educado no Salesiano. Você deve se lembrar dos salesianos lá de Albuquerque, não se lembra? (fica olhando livros na estante, pensamento distante, lá em Albuquerque) Quando eu tinha uns doze anos, a gente combinou de peidar no confessionário. Era obrigado a confessar todo sábado. Então ficava aquela fila. E o Jipão - Jipão era o apelido do Padre André - lá dentro da cabine, do confessionário. Ia um, peidava no final do Ato de Contrição, saia e logo em seguida tinha que ir ajoelhar outro que era para conferir, para sentir o cheiro. Um dia, logo depois do Estevão, eu me ajoelhei e estava aquele cheiro horroroso, porque o Estevão era mais velho que a gente, e peidava mais fedido... Sei lá, sempre tive essa impressão... Que, quanto mais velho o cara, mais fedido é o peido! E eu, não sei porque - mais tarde a Luciana Goldman iria me explicar - eu não sei porque eu falei: Padre André, eu vim confessar os meus pecados e o primeiro deles é contar para o senhor que tá todo mundo peidando aqui. Claro que eu não usei a palavra "peidando", é claro. O último foi o Estevão. Já pensou, Olaf, um sujeito, com doze/treze anos e já dedo-duro? Isso também eu devo a você... me diria anos depois a Luciana Goldman. Os salesianos. Um dia o Bosteiro, que era o apelido do Padre Mario, me levantou pelo colarinho, na frente de todo mundo e gritava: vejam, vejam, o Zé Olavo Garcia Antunes está com o demônio no corpo! Está com o demônio no corpo! E sabe porque, Olaf? Porque eu tinha feito promessa de não comer alface dois meses - era a coisa que eu mais gostava - e cinco dias antes de encerrar o prazo,  eu comi. Mas, voltando à punheta... Entao, eu sempre me masturbava escondido, no banheiro, com todas as portas e janelas fechadas, com todas as culpas do mundo. Nem ruídos eu fazia. Só muitos anos depois, graças à Luciana Goldman, eu fui liberando a punheta. Imagina você, Olaf, que agora - agora é modo de dizer - agora eu me masturbo na sala, com todas as janelas abertas. Me masturbo andando pela casa, gozo nas paredes, cuspo pra cima, faço o diabo. Mas isso, só depois de quinze anos de Luciana Goldman. Um grande punhetista! Imagine você que eu tinha tanto tempo para me dedicar à coisa que eu fui me aperfeiçoando cada vez mais, cada vez mais. Quando eu estava no meu auge, no auge da punheta, você nem imagina o que eu fazia, Olaf.

(o texto que se segue é com Zé Olavo passando o cano do seu revólver pelo corpo de Olaf)

Sabe o que eu fazia? Eu me dava ao luxo - veja você, Olaf, que loucuca! - eu me dava ao luxo de deixar as unhas da minha mão esquerda crescerem até ficarem grandes, como as unhas de uma mulher. Ficava meses sem cortar. Eu preparava as unhas, polia, admirava, lixava... Acho que eu levava o maior jeito para manicure. Depois, quando elas já estavam grandes, eu pintava uma a uma de vermelho, de um vermelho bem forte, bem marcante. Depois, ficava nu em casa - eu com mais de trinta, cinquenta, cinquenta anos, imagine, Olaf - e deitava em cima do meu braço e da minha mão esquerda até que ela adormecesse, mas adormecesse de uma maneira que eu não conseguia sentir mais nem o braço e nem a mão, entende? Ficava tudo adormecido. Aí então, como eu não estava mais sentindo a minha mão, eu me masturbava com ela e ficava olhando de soslaio, assim, de cima pra baixo, como quem não quer nada, aquela mão estranha, de unhas grandes e vermelhas, parecendo mão de mulher - eu raspava até os pelinhos do punho para parecer mais com mulher - me masturbando! Que maravilha que era, Olaf, que maravilha!

(Zé Olavo vai se servir de mais um uisque. Serve-se como um bom garção profissional. Fica se servindo olhando fixamente para Olaf. O revólver apontado para ele e engatilhado. Serve-se até o uisque transbordar. Leva para Olaf e faz com que ele tome na marra. Praticamente vira o uisque goela abaixo nele. Toma o restinho que ficou no copo)

Quando eu era garção, eu sabia "vem cá!!!" em treze linguas. Você não acredita, não é? Peguei hotel de turista, também... Em tcheco. Sabe como é vem cá!!! em tcheco? Pod sem! Pod sem!!!

(fica observando ele longo tempo)

Você está muito tenso, Olaf Odvar Nordli! Eu estou começando a ter a impressão que você já sabe o que foi que aconteceu entre nós dois há tantos anos atrás, não é mesmo?

(Olaf nega com a cabeça)

Pois então, Olaf, eu vou ser obrigado a te lembrar tudo. Mas eu duvido. Você já sabe, Olaf! Lembra da casca de limão, Olaf!?!?!? A casca de limão, SEU FILHO DE UMA PUTA? LEMBRA DA CASQUINHA DE LIMÃO, SEU FILHO DE UMA PUTA!?!?!?

(Olaf se lembra, é claro. Começa a chorar pra valer.)

Pára de chorar, filho da puta! Pára de chorar, eu já disse!

(Olaf tira um lenço da calça que está no chão e começa a se enxugar)

Festa de São João. Mais ou menos esta hora. Todos os meninos e meninas de Albuquerque, muito bem vestidinhos, com suas roupinhas muito bem caipirinhas, bigodes de rolha queimada, dentes faltando, as meninas com sardas iguais as da sua irmã que eram  as únicas sardas naturais, baton nos lábios. Deixa eu retocar o seu baton, Olaf, que tá muito feio... Quietinho que já estamos acabando... todos empertigadinhos, na festa de São João. Quentão, pipoca, bandeirinhas coloridas... As nossas mães passavam dias e dias recortando papel crepon para pendurar no dia da festa... Quem comandava a quadrilha era o Benê Bassit, lembra? Balancê!!! Tour. Caminho da roça! Balancê. Tunel... Benê Bassit... Lembra do Benê Bassit, Olaf?

(Olaf concorda com a cabeça)

Benê Bassit... Na fazenda do Rubens Ariano. Tudo isto está claro na minha cabeça agora, Olaf. Mas eu não me lembrava de nada disso. Foi a Luciana Goldman, etecétera. Eu posso te descrever agora, até quantas luzes estavam acesas naquele galpão dos fundos da fazenda quando a gente entrou. Estava um pouco mais escuro que agora.

(Zé Olavo apaga umas luzes. A metade. Fica quase que uma penumbra)

Assim. Estava mais ou menos assim. Tinha um móvel grande dentro deste galpão, você se lembra? Uma espécie de guarda-roupa, bem grande, que estava vazio.

(na sala tem um móvel grande, Zé Olavo se encaminha para ele)

Era mais ou menos deste tamanho. Cabia muito bem nós dois lá dentro. Lembra, filho da puta?!!!

(Olaf se lembra perfeitamente. Já está imaginando o que Zé Olavo vai fazer com ele. Zé Olavo abre o armário grande. Tem roupas de cama, uma caixas grandes, toalhas, etc, Zé Olavo joga tudo para fora. Tem que caber os dois lá dentro. Olaf, pela segunda vez, tenta fugir, mas Zé Olavo o segura pela roupa de noiva)

Fica bonitinho aqui, que tudo já está acabando, Olaf! Você sabe que estamos chegando ao fim! Olha a hora. Dentro do armário tinha um cheiro de mofo. Mais ou menos como este daqui. (longa pausa) Troca-troca! Uma troca-troca! Fala troca-troca, vamos? Quero ver se você se lembra do que é troca-troca, vamos! Fala, cara, estou mandando!

OLAF ODVAR NORDLI - (com dificuldade, muito sotaque e trêmulo) Troca-troca...

ZÉ OLAVO - Mais alto, Olaf, mais alto, Olaf!

OLAF ODVAR NORDLI - Troca-troca!

ZÉ OLAVO - Mais alto! Quero que você grite!

OLAF ODVAR NORDLI - (com o revólver enfiado no pescoço, grita) TROCA-TROCA!!! TROCA-TROCA!!!

ZÉ OLAVO - Foi o que você me propôs. Uma troca-troca... Você tinha onze anos e eu tinha nove. Mas você me enganou, seu filho de uma puta! Você fez tudo o que tinha direito e depois, quando era a minha vez, você me segurou na marra (pega ele e faz a cena, no chão). Você me dizia com seu sotaque horroroso: nem um pio! nem um pio! Lembra da casquinha de limão? Pois você pegou uma casquinha de limão da limonada que o Benê Bassit tinha feito e com os dedos da mão esquerda abria o meu cu e com a mão direita espremia, começou a amassar ela no meu cu, seu filho da puta! Isso que me deixou doido. A casquinha de limão! Aquele sumo espremido, entrando, ardendo, me queimando por dentro. Me queimando por dentro naquele dia e o resto da minha vida, seu filho da puta! Você está me entendendo? Precisava da casquinha, seu filho de uma puta? Da casquinha? Quer coisa mais humilhante do que aquela casquinha?...Você está começando a me entender, seu grandíssimo de um filho da puta? Você não pode calcular o tamanho deste ódio!!! Quanto mais ardia, mais você ria. Mais você se divertia! Isso, Olaf, que você mal se lembrava... Essa sua brincadeira inocente numa festa caipira... Numa festa caipira lá no interior do Brasil... Numa festa junina...Foi por isso que eu dediquei quinze anos para a Luciana Goldman e mais cinco para te encontrar

(Zé Olavo empurra ele de novo na poltrona. Vai até o armário e olha lá dentro)

Você deve estar se perguntando, agora, o que é que eu vou fazer com você, depois destes anos todos, não é? Hoje cedo eu fui numa feira no centro de Lillehammer comprar... sabe o que? Limão. Minha idéia era comprar logo uma dúzia, mas eu não poderia imaginar que o limão aqui custasse tão caro. Fiquei impressionado. Mais caro que um quilo de filé mignon no Brasil... Comprei só um apenas. Um já bastava para o que eu tinha em mente. Está aqui, ó, no meu bolso. Tira o limão e começa a andar com ele pela sala jogando e pegando, como se fosse uma bolinha. Uma faca?

(Olaf aponta a cozinha, apavorado)

Vou buscar. Não tente nada! Nada, ouviu?

(assim que Zé Olavo sai, Olaf sai em disparada na direção da porta, mas Zé - que estava atento - volta e o intercepta, ficando meio abraçado com ele, ao lado da porta. Zé já está com a faca na mão. Fica aquele abraço meio saia justa ali. Zé Olavo solta Olaf normalmente. Olaf volta para a sua poltrona).

Falávamos de limão, não é mesmo? Casquinha de limão. É incrível como agora eu estou me sentindo bem, Olaf. Me dá vontade de ligar para a Luciana Goldman e dizer: Luciana Goldman, olha eu aqui, me libertando, olha eu aqui diante do Olaf, bem no interior da Noruega, olha eu aqui, Luciana Goldman, com a faca e o queijo na mão, Luciana Goldman. É que eu não sei o telefone dela, senão eu ligaria agora mesmo. Vamos voltar ao limão. Então, Olaf, eu passei esses anos todos pensando em o que fazer quando a situação surgisse. O que fazer? Acho que ainda não te contei que fiz uma operação da próstata, contei? Eu acho que não te contei que fiz uma operação na próstata. Tive câncer na próstata, precocemente. E não sei se você sabe que, em alguns casos, o sujeito pode ficar impotente, depois da operação. Aconteceu isso comigo. Semi, vamos dizer assim. Semi... É muito raro eu ter uma ereção. Tenho, mas é muito raro. Por isso, eu ia te dar uma chance, uma chance de vida, Olaf!. Nós íamos nos trancar aí dentro e você iria fazer com que eu tivesse uma ereção. Com a boca, está me ouvindo? Com a boca! Em caso positivo, tudo bem. Em caso negativo... Mas agora aqui, agora, te vendo de noiva... É claro que você não se lembra quem era a noiva naquela tarde na fazenda do Rubens Ariano, né? Era a Luluzinha da fábrica Milma. Lembra, do seu Evaristo? A Luluzinha. Eu era apaixonado por ela, naquela época. Ela estava linda de noiva. Até hoje a imagem dela nunca saiu da minha cabeça. (passa a mão na cabeça do Olaf) Era ela que eu, de noivo, ia beijar no final.

(começa a cortar as casquinhas do limão, pra desespero do Olaf)

Mas aí surgiu você com as casquinhas de limão, Olaf.

(espreme uma casquinha no espelho, sujando-o todo)

Você sabia, Olaf, que Olaf, de trás pra frente, é falo? Falo! (pausa) Não é engraçado? (pausa) Eu estava te dizendo nas coisas que eu pensei em fazer com você, Olaf, mas o que eu vou realmente fazer não havia passado na minha cabeça. (pausa) Acho que nem na da Luciana Goldman. Teve uma coisa que a Luciana Goldman não me explicou, não me disse. Acho que ela sabia que eu iria descobrir isso agora, aqui, na sua frente... (pausa) Tenho certeza que ela sabia disto. (longa pausa) Ela não iria me ajudar tanto, praticamente me conduzir pra cá, se ela não soubesse disso, se ela não soubesse com toda a certeza e a inteligência dela e conhecimento dela, se ela não sabia, se ela não tinha certeza que esses anos todos... (maior pausa da peça) Olaf, esses anos todos, Olaf pensando em você... na casquinha de limão... toda a minha vida de merda, todo o meu fracasso, tudo em mim, toda a minha vida dedicada a você, Olaf... (pausa) Pensando em você...

(joga a casquinha de limão pela janela, coloca a música caipira na vitrola)

Vem, dança comigo o caminho da roça, dança...

(Olaf, mais aliviado, se levanta, entra a música e a voz de Bene Bassit conduzindo a quadrilha. Os dois começam a dançar, vão ficando alegres, vão parecendo dois garotos do interior brincando, rindo muito, e a voz de Benê Bassit é cada vez mais animada. Uma grande festa. Uma grande brincadeira. Espoucam os foguetes. Fogos de artificio, o apê vai ficando iluminado com os fogos, eles gargalham, riem, dançam, se encontram. As luzes do apartamento de apagam, ficando apenas as luzes dos fogos de artifício, esporádicas)

FRASES DE BENÊ -

- balancê!

- tour!

- olha a ponte! a ponte caiu (eles voltam)

- olha o tunel! tá vindo trem. (eles voltam)

- olha a cobra!

- caminho da roça!

- etc, etc, etc,

F  I  M