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Mário Prata faz jogo de espelhos com corrupção
KIL ABREU,  Folha de S. Paulo, 15/09/2001


A HISTÓRIA de Mário Prata é uma espécie de jogo entre iguais. Parte de uma narrativa de fundo jornalístico e vai ganhando em teatralidade à medida em que tenta apanhar a platéia em uma arapuca, estratégia para "caçar rolinhas", como diz o texto.

Camilo (Paulo Gorgulho) é um diretor de teatro, financeiramente falido, sequestrado por Dagoberto (Javert Monteiro), deputado e candidato a governador em Tocantins.

Sua tarefa vai ser a de fazer parecer louco de pedra um louco aparentemente manso, Mário Alberto (Ângelo Paes Leme), irmão de Dagoberto e maníaco que, motivado por vivências da infância _que não cabe aqui revelar_, assassinou 11 mulheres.

Sob os planos do deputado, que quer mostrar à Justiça e à opinião pública a loucura do irmão para garantir sua imagem de candidato, Camilo é "comprado" com uma grande quantia em dinheiro e vai dirigir a criação de uma nova imagem.

O método é risível, e faz da psicanálise de botequim o ponto de partida para a investigação da memória emotiva de Mário Alberto. No fundo, com menos arte e mais astúcia do que imaginara Dagoberto, os "ensaios" levarão a descobertas surpreendentes entre diretor e dirigido.

Marcado pelo espírito do cronista, o texto de Mário Prata não se prende a filigranas intelectuais ou filosóficas e vai direto aos fatos, em diálogos enxutos, espontâneos e de apreensão imediata. Mas o valor da peça não está exatamente no registro seco das circunstâncias.

Está em fazer o caminho que vai da "verdade" afirmativa dos acontecimentos à verdade emotiva, em tudo ambígua, de personagens que se reconhecem em seus opostos.

Depois de gastar um tempo (que se arrasta um pouco além da medida) para exaurir o mote da história, Prata faz a curva para tomar o caminho de volta. Não sem antes comprometer o personagem de Paulo Gorgulho.

Se Camilo era até então o ponto de vista seguro e confortável da platéia, que tende a se alinhar com aquele que representa a razão e o bom senso, agora se aproxima perigosamente do outro, Mário Alberto, deixando o público sem pai nem mãe.

O diretor Roberto Lage, embora não proponha nenhuma leitura mais inventiva ao texto, constitui bem, a partir das pistas deixadas pela dramaturgia, a virada de tom da história.

Diferentemente da objetividade do início, em um segundo momento há mais espaço para que os personagens respirem mais e revelem a sua própria ambiguidade, sublinhada pela direção.

Os atores, todos suficientemente comprometidos com seus personagens, passam a valorizar as entrelinhas, e o espetáculo ganha um sentido metafórico mais evidente.

Mas a subversão dos valores não está apenas no plano psicológico. Está também na discussão que coloca todos mais ou menos como farinha do mesmo saco: produtos de um tempo pautado na imagem, maquiam-se inescrupulosamente uns aos outros, com as tintas da vileza, do machismo, da covardia, para que estejam prontos para a venda.

Até o teatro encontra, por fim, a sua função negativa: a de servir como instrumento para a criação das máscaras sociais, não mais no plano do jogo artístico, mas da vida ordinária.

E parece ser essa inversão o que garante a teatralidade do espetáculo: o cômico também é uma máscara, porque, no fundo, trata-se de algo essencialmente dramático. Se, em princípio, a história mostra sempre o fracasso do outro (e a realidade está fora de nós, por isso rimos), aos poucos a trama se afunila em incômodo parentesco.

Se não porque somos todos potencialmente assassinos, ao menos porque, identificados com Camilo, parecemos todos passíveis de todas essas coisas detestáveis, a corrupção, o servilismo, o assassinato (do outro, da arte, enfim).