MARIO ALBERTO- Quando eu acordava mal, quando eu tinha
o pressentimento que o meu lado maléfico ia aflorar naquele dia, era
foda. Quando eu acordava transpirando bastante, todo ofegante, eu já
sabia que alguma coisa ia tomar o meu ser e coisa ruim ia acontecer.
Eu saia patinando - eu patino muito bem - por aquelas avenidas da
Cantareira - o melhor lugar do mundo para patinar é a Cantareira -,
pra ver se o ar, o vento frio na cara tirava aquelas coisas da minha
cabeça. Quando eu via o tipo de mulher que eu queria, eu não
conseguia me segurar. Era forte, era muito forte. E eu olhava para
elas e sabia qual delas tinha que ouvir o quê. Eram as que tinham
cara de que estavam precisando de uma conversa diferente, que
fizesse com que ela saísse da rotina dela. Era mais ou menos como eu
oferecer um outro mundo para elas. E o meu papo é bom. Eu falo o que
elas querem ouvir. Mulher quer ouvir duas coisas. Só duas coisas. E
eu falava. Você é bonita e inteligente. Tudo mais que você falar se
enquadra nisso aí: bonita e inteligente. Se ela for meia gordinha,
pode acrescentar um teu corpo é lindo. Aí é covardia. Toda mulher
entra nesse papo. E, ao mesmo tempo, eu ficava pensando não entra na
minha, menina, a sua vida nunca mais será a mesma, sai dessa, sai
correndo. Você vai se dar mal. Burra. Ficava pensando coisas assim.
Mas o lado ruim era muito forte. Não vem comigo, não aceita o meu
convite. Se você vier, você vai se dar mal. Mas não adiantava. O que
saía da minha boca era outra coisa. Porque eu sentia que tudo aquilo
que eu estava falando é o que elas queriam ouvir. Quando eu entrava
no mato com elas - algumas já de mãos dadas - eu sabia o que ia
acontecer. Se fosse teatro - e agora eu estou descobrindo que era -
a cena era sempre a mesma. Eu fazia coisas com elas - coisas de
carinho, coisas de sexo mesmo - que elas nunca podiam imaginar que
existia. Nada muito extravagante, não. Elas piravam. Quando eu dizia
você é toda bonita, definia tudo. Ela ali, se ajoelhando, de livre e
espontânea vontade, diante de mim e eu pensando burra, idiota, você
não imagina o que te espera. Enquanto elas estavam chupando, de
joelhos diante de mim, não me restava mais nada a fazer, a não ser
matar, acabar logo com aquilo de uma vez. O que eu queria não era
gozar com o pau, mas com a loucura. Era a rolinha na frigideira, era
a tia Daví, gostoso. Acho que é isso. O que eu queria é ver que elas
se apaixonavam por mim. E eu não posso aceitar que ninguém se
apaixone por mim. Porque eu sou um puta dum bosta e quem se apaixona
por um puta dum bosta também tem merda na cabeça. Mas a merda é que
são as inteligentes que entram na minha. Só as mulheres burras não
me entendem. Essas mulheres que entraram assim na minha vida, sabe o
que elas queriam? Mudar de vida, mudar de emprego, mudar de homem.
Eram todas meninas que se aventuravam a entrar numa mata com um
desconhecido pru que desse e viesse. Eram meninas que queriam sair
da matinha delas. Ninguém entrou na minha cantada na marra. Isso
você pode crer.
CAMILO - Mario Alberto, me diga uma coisa. Há quanto
tempo você não vê a tia DAVÍ?
MARIO ALBERTO- Nunca mais vi. Uns dez anos.
CAMILO - E se você encontrasse com ela, agora? Assim,
de repente? Como é que ia ser?
MARIO ALBERTO- Eu matava ela!
CAMILO (que já havia se levantado e ficava sempre
estimulando Mario Alberto a prosseguir) - Mario Alberto, vou te
dizer uma coisa e você não vai acreditar. Eu sou igualzinho a você.
Impressionante. Só que eu não mato. Mas não mato fisicamente. Eu
atraio as mulheres com os mesmos métodos seus. Dizendo o que elas
querem ouvir, sabendo que elas estão num momento de querer se
deslumbrar com alguma coisa nova. Quando a mulher fica completamente
apaixonada eu começo a não gostar mais dela. Porra, se apaixonar
logo por mim? Pegar no meu pé? Ao mesmo tempo, eu quero que uma
pegue no meu pé, mas é que elas vem de repente, com pressa, se
penduram no pescoço da gente, vão pegando e chupando o nosso pau.
Você está me ensinando muito coisa, Mario Alberto. Compreendo
perfeitamente os seus crimes. Não que eu concorde, pelo amor de
Deus, não me vá entender mal. Isso, inclusive, essa relação que
pintou agora entre a gente, essa cumplicidade, vai fazer com que eu
mude radicalmente a nossa forma de ensaiar.
MARIO ALBERTO- Se as mulheres fossem mais mulheres,
não se fudiam tanto. Eu olhava para elas, antes e pensava: eu não
acredito, essa mulher quer se fuder. Será que não tá na cara que eu
vou fuder com a vida dela? Por que ela não ficou quieta no canto
dela? Tinha que atravessar o meu caminho? Tinha? O meu? Logo o meu?
Justo quando eu estava daquele jeito?
CAMILO - A gente está sempre pronto, Mario Alberto.
Pra caçar. Mesmo quando a gente está desprevenido, quando pinta a
caça, a gente se excita. Você tem razão, a culpa é delas. (cai em
si) Meu Deus, o que é que eu estou falando? Eu tenho três filhas,
como é que o posso falar uma coisa dessas? Até o meu apelido é Bebé.
De Camilo Roberto, sabe?
MARIO ALBERTO- É isso aí, cara. Você é igualzinho a
mim. Você é doido também! Eu entendo de mulher: afinal, já matei
onze. E você? (Camilo não quer responder) Uma puta, você matava?
CAMILO (não quer responder, mas ponderou bastante) -
Acho que a gente é muito é convencido, sabe?
MARIO ALBERTO- Quanto eu chego num bar, por exemplo,
já na entrada, bato o olho e já sei quem é a vítima, a caça. De
cara, de cara! Bater o olho e pimba!
CAMILO - Igualzinho. Impressionante. Eu achava que só
a minha geração era assim.
MARIO ALBERTO- Só de bater o olho. Seleciono logo de
cara duas ou três. Depois vou à luta.
CAMILO - Impressionante. Faço igualzinho. Tenho uma
amiga que me chama de periscópio. Sabe como é?
MARIO ALBERTO- É isso aí. Periscópio é um bom nome pra
gente.
CAMILO - E você pode ter certeza que, quando a gente
entrou no bar, ela também viu a gente e é como se elas pedissem:
olha eu aqui, olha eu aqui. Elas pedem. Elas querem se fuder!
MARIO ALBERTO- Elas pedem pra morrer. É
impressionante. Mulher gosta de ser assassinada pelos homens. Elas
querem ser mortas, comidas. Mulher gosta de dentada, de porrada.
CAMILO - Nelson Rodrigues já dizia isso.
MARIO ALBERTO- Quem é? Um amigo seu? Caçador, também?
CAMILO - Vamos ensaiar. Faltam só dois dias para a
estréia. (longa e pensativa pausa) Sabe qual a única diferença entre
eu e você? A única? Além da idade? É que você aperta o pescocinho
delas com mais força.
Toca a campainha. Mario Alberto e Camilo olham-se,
ficam preocupados. Dagoberto, não. Aparece, vindo dos quartos, e vai
abrir a porta. Entra uma mulher, 40 anos, tudo em cima, de minissaia
e um corpete com uma alça só, em tecido imitando tigre. Pode-se
dizer que ela é bonita e já foi muito mais. Ela cumprimenta os três
com meneio de cabeça e um pouco de sensualidade.
DAGOBERTO
- Achei que estava faltando mulher nesse espetáculo.
Mulher (para Mario Alberto) - Você, aqui?
MARIO ALBERTO- Tia Daví? Como vai a senhora?
CAMILO - Prazer!
Black-out
estréia: amanhã
A sala está numa quase penumbra. Percebe-se, pela
arrumação ou pela não-arrumação, que já se passaram três dias, desde
a última cena.
Entra, vindo dos quartos, Camilo. Acende as luzes. Vai
até a cozinha e volta logo, com um pedaço de pizza triangular numa
das mãos e uma latinha de coca na outra. Vai até o som, liga. Entra
Vivaldi. As Quatro Estações.
Senta-se, fica ouvindo. Dos quartos, entra,
repentinamente, a Daví.Nua. Assim que percebe Camilo na sala, cobre
o que dá para cobrir com as mãos e volta para dentro.
CAMILO não só percebeu, como fez o que ninguém poderia
esperar. Passou um pente rápido nos cabelos.
CAMILO, o caçador de rolinhas, está a postos.
Ele senta-se e tira o cadarço do tênis, estica, testa
a resistência dele.
Ela volta, com o roupão vermelho, aquele,
provavelmente do Dagoberto.
No caminho da cozinha, Daví pára no meio da sala. Eles
se olham. Apenas um sorriso de cada lado. Ela entra e volta com um
pedaço de pizza numa das mãos e, na outra, a embalagem de pizza
aberta com um ou dois pedaços dentro. Coloca na mesinha. Senta-se na
frente dele. Silêncio entre os dois. Comem (-se).
Atenção: durante toda a cena entre os dois, Camilo
está usando o seu charme de conquistador, mesmo que isso não esteja
nos diálogos. Ele está mesmo a fim de comer a tia Daví.O caçador de
rolinhas, agora é ele. Aliás, sempre foi. As pausas são longas e
significativas.
CAMILO age como se estivesse voltado ao seu tempo,
quando transava com putas. Ao mesmo tempo, me parece, ele imita um
pouco o Mario Alberto.
Repito: todo o clima da cena é um clima de cantada.
Das mais deslavadas. Quase barata.
DAVI - Você acha que esse negócio vai dar certo?
CAMILO - Acho.
DAVI - Certeza?
CAMILO - Absoluta.
Novo silêncio entre os dois.
CAMILO - Sem sono?
DAVI - O Dagoberto ronca feito um animal. Nunca vi.
Sabia que eu gosto de pizza fria? E o Mario Alberto?
CAMILO - Ronca feito um animal. Nunca vi. Também
gosto.
DAVI - Do que?
CAMILO - Pizza. Fria. Eu tinha uma amiga, a Ana que/
(lembra) Anagrama! Claro, anagrama!
DAVI - O que que tem ela?
CAMILO - Ela quem?
DAVI - A Ana Grama.
CAMILO - Não, não, esquece. Anagrama é outra coisa.
Anagrama é quando a gente pega uma palavra e mexe nas letras,
inverte, entende?, e dá outra palavra. Entendeu?
DAVI - Picas.
CAMILO - Seu nome, por exemplo. Daví.Aliás, isso
é nome ou apelido?
DAVI - É Davineusa. Meu pai Daviberto e minha mãe
Edineusa.
CAMILO - Igualzinho. Tinha um avô Camilo e um avô
Roberto. Mas o seu nome, por exemplo Daví, o anagrama de Daví é
vida.
DAVI - E morte, o que que dá? Bonito, vida.
CAMILO - Metrô. Temor!
DAVI - Temor?
CAMILO - Temor. Mas voltemos à vida, tia Daví.
DAVI - Mas e daí, o que é que eu ganho com isso? Do
meu nome virar vida?
CAMILO - Nada. Ganha a vida, ué.
DAVI - E o seu nome, dá o que nesse negócio aí?
CAMILO - Camilo, dá málico.
DAVI - Málico o que é? Um cara mau?
CAMILO - Um cara astuto, esperto, com a intenção de
prejudicar alguém.
DAVI - Eu, hein? Te acho muito metidinho, sabia? Tava
te vendo ensaiar o Bebé. Você se acha o máximo, né? Dono do pedaço,
né? Você acha que esse negócio de enlouquecer o Bebé vai dar certo
mesmo?
CAMILO - Tem que dar. Tem que dar. Pru bem de todo
mundo.
DAVI - E você acha mesmo que a culpada disso tudo fui
eu?
CAMILO - Não é bem isso. Tem uma série de componentes
psíquicos.
DAVI - Pára de falar difícil. Mania.
CAMILO - Quer um uísque?
Daví fica olhando para ele. Sabe que vai levar uma
cantada. Mas, no fundo, gosta.
DAVI - Vou pegar o gelo.
Daví vai para a cozinha, Camilo vai pegar o uísque.
Davívolta com um balde de gelo. Joga dentro dos copos já com uísque.
Brindam, em silêncio.
CAMILO - O que você faz na vida? Assim, para ganhar
dinheiro?
DAVI - Programa. Só não faço bum-bum.
CAMILO (ri) - Você é o máximo, sabia?
DAVI - E você é tão bobo, sabia?
CAMILO - Comecei com puta. Na minha época as meninas
não davam, não. A gente tinha que ir pra zona. Lá em Porto Alegre.
Peguei muita gonorréia na vida. (longa pausa) Saudades da gonorréia.
A gente tomava três Tetrex e pronto. Faz tempo que não pego uma
puta. Com todo o respeito.
DAVI - Ligo, não.
CAMILO - Durante muito tempo eu odiei todas as
putas do mundo. É que eu comecei a transar com puta, entende?, e
como puta não goza/
DAVI - Não goza, o caralho! Quando quer, goza,
porra!
CAMILO - Puta não gozava. Na minha época, pelo menos,
puta não gozava. As putas fuderam com a minha geração. Nunca ninguém
disse pra mim que mulher gozava, porra! Como é que eu podia
imaginar? De repente, chega a mulherada toda querendo gozar! Eu não
estava preparado, entende? O que eu queria mesmo era gozar logo. Foi
de repente, na minha cabeça. Elas queriam gozar, porra! Assim, de
uma hora pra outra.
DAVI - Você não entende porra nenhuma de mulher.
Imagina. Não goza! Já vi que você não entende nada da minha
profissão. Tudo bem, porque eu também não entendo porra nenhuma da
sua. Como diz o Mario Alberto, coisa de viado.
CAMILO - O que eu quis dizer é que quando eu transava
com puta eu não tinha nenhum preocupação de esperar ela gozar. E
você há de concordar comigo, toda puta tem pressa. Quer partir pra
outra. Então eu tinha ejaculação precoce. Como o Mario Alberto.
Foram anos e anos de análise. E eu, que sempre fui contra a análise?
Sou do tempo que fazer análise era levar cocô pru laboratório.
DAVI - Sabe que, com esse negócio do Bebé,minha foto
nos jornais, eu passei a faturar muito mais? Deus, depois que eu
apareci na Globo, foi foda!
CAMILO - Literalmente.
DAVI - Que?
CAMILO - Nada, não. Pensando alto.
DAVI - Pensando até em comprar um Gol Mille. Você é
muito doido, sabia? Pensa muito. Fico te observando. Pensando, o dia
inteiro.
CAMILO - Um bom carro. (serve mais uísque para ela que
bebe mais rápido do que ele) Você e o Dagoberto. Qual é a transa?
DAVI - Pra ele eu não cobro, né cara? Meu
sobrinho. Ele que me fez.
CAMILO - É mesmo? Bela família.
DAVI - Olha o respeito. A gente é pobre, humilde, mas
temos a nossa dignidade, como dizia um irmão meu, que Deus o tenha.
(gole longo, pensando, lembrando) Não tinha nem catorze. O Mario
Alberto era pequenininho. Dormia na cama do lado. De repente ele
acordou, chorando. É que o Dagoberto é meio escandaloso.
CAMILO - Já percebi. Ouvi.
DAVI (confidencial) - Sabe o que ele gosta? Que enfia
o dedo. Lá, tá entendendo? Tá vendo, a minha unha desse dedo? Tá
vendo? São todas grandes. Mas a desse aqui, ele me fez cortar.
Gosta, fazer o que? Fica doidão. E você gosta?
CAMILO (fica sem jeito, muda de assunto) - Se fosse um
baile, eu te tirava pra dançar.
DAVI (não entende) - Que?
CAMILO - Nada, não. Acho bom você fechar melhor esse
roupão. Daqui dá pra ver.
DAVI - O que?
CAMILO - O peito. O esquerdo.
DAVI - Tenho os seios lindos. Sabia que o esquerdo é
maior que o direito? (abre o roupão) Não acha?
CAMILO - Acho, mas é melhor fechar (ela fecha). Se o
Dagoberto acorda é capaz de ficar muito do puto. Eu, por exemplo,
não gostaria que um amigo meu comesse a minha tia. Se bem que,
pensando bem, dando uma geral nas minhas tias, acho que não tem
nenhuma comível, não. O máximo que eu cheguei foi numa prima. Prima
é interessante.
DAVI (sobre Camilo) - É doido. (sobre Dagoberto) Ele
não vai acordar, não. Conheço ele.
CAMILO - Tudo bem, tudo bem. Mas vamos falar sobre o
meu trabalho. Amanhã - amanhã, não, já é amanhã. Hoje, hoje cedo,
o Mario Alberto tem que se apresentar. (súbito, raciocina como
diretor) É a estréia.
DAVI - Pra mim ele já tá ótimo.
CAMILO - Mas tem que melhorar mais ainda. A sua
presença aqui tem sido muito bom. Tem motivado o trabalho.
DAVI - Até agora eu ainda não entendi porque o
Dagoberto me trouxe para cá. De quem foi a idéia?
CAMILO - Minha. (para ele mesmo) Minha...
DAVI - Acho que tá todo mundo doido, sabia? E se esse
negócio não der certo?
CAMILO - Vai dar. Em todo espetáculo teatral, o último
ensaio é o que vale.
Tia Daví vai até o som, muda o CD para uma dupla
sertaneja conhecida. Para colocar o CD ela debruçou-se toda ficando
de bunda virada para o Camilo. De propósito?
CAMILO - Foi bom te encontrar aqui agora, sem
querer. Queria mesmo falar com você.
DAVI - Não sei se foi sem querer. Gosta
(referindo-se à música)? Faz três dias que você não tira os olhos de
mim. Tô sabendo, tou na minha, só sacando. É como se você estivesse
bolando um plano para mim. Alguma coisa diabólica. Coisa de...
málico, né?
CAMILO - E você de mim. Também não tira os
olhos. Estou enganado?
DAVI - Mas não é o que você está pensando, não. Claro
que eu tenho que ficar olhando para você. Você fala o dia inteiro,
ensaia o dia inteiro, faz laboratório. É laboratório, que chama
aquilo, não é?
CAMILO - É. E eu queria que você fizesse um
laboratório com o Mario Alberto. Uma espécie de ensaio geral. Só
vocês dois.
DAVI - Meu, tá achando que eu sou besta,
é? Ele vai é me matar. É isso que você tá querendo? Que ele me mate?
CAMILO - Mata, não. Vou estar junto.
DAVI - Sabe o que eu acho? Que você é um tarado. Não
passa de um tarado. Tá mais é afim de ver eu transar com o Mario
Alberto. Cê tem cara disso. Que gosta de olhar. Fica ali, do lado,
na bronha. Tem um nome isso, não tem? Em francês, eu acho. Eu, hein?
CAMILO - Voyeur.
DAVI - É isso aí.
CAMILO - Você faz parte do processo. Você é o começo e
o fim. Você é a rolinha.
DAVI - Tá vendo? Tem hora que você fala de um jeito
que eu não entendo nada. Abre o jogo. Rolinha? Sabe que rolinha vem
de rola, né? E sabe muito bem o que é rola, não sabe? Pelo menos lá
em Palmas. Qual é o plano? Fazer um boquete no Bebé?
CAMILO - Mais ou menos. Como se fosse a primeira vez.
Você se lembra como foi a primeira vez que você transou com ele?
DAVI - Transei, porra nenhuma. Ele inventou esse
negócio e todo mundo entrou na história dele. Você acha que eu ia
transar com um menino de nove anos?
CAMILO - Acho.
DAVI - Ainda por cima meu sobrinho? Filho da minha
própria irmã? Sangue do meu sangue?
CAMILO - Acho. Tenta se lembrar de como foi a primeira
vez. Onde foi? No quarto dele?
DAVI - Tou fora, cara. Tou fora.
Ela se serve de outra dose. Vai servir para ele, ele
recusa. Vai até a cozinha pegar gelo. Ele pega o cadarço e olha,
preocupado. Estica no ar novamente. Guarda. Ela volta. Insiste com o
uísque para ele.
CAMILO - Úlcera duodenal.
DAVI - O que?
CAMILO - Nada. Hein? Ele pegava nos seus peitos?
(enfia a mão no roupão dela) Assim?
DAVI - Cem o boquete, xota duzentos e pernoite
quinhentos! E tira a mão do meu peito. Se quiser transar, vamos
acertar a grana antes. Mais respeito, menas mão boba!
CAMILO - Não é menas, deputada.
DAVI - Que?
CAMILO - Você vai transar é com o Bebé. Vou acordar
ele.
DAVI - Vai acordar, porra nenhuma!
CAMILO - Então me conta. Veja, Daví, estamos no mesmo
barco, como diz o Dagoberto. A gente tem que fazer tudo para salvar
a pele do Mario Alberto, do Dagoberto, a sua e a minha.
DAVI - A minha barra tá limpa. Tou na Globo, meu.
Você, por exemplo, todo metido a sabidinho, a sabedor de tudo, já
deu entrevista na Globo? Me diz: já deu? Jornal Nacional? Quando o
Dagoberto me trouxe pra cá, não teve nenhum papo de ter que transar
com o menino, não.
CAMILO - Pois agora tá tendo. É o último ensaio. E eu
ainda sou o diretor desse espetáculo todo. E você vai ter que
colaborar.
DAVI - No cu, jaburu! (pausa) Sabe que eu não te
entendo? Vocês, intelectuais são muito complicados. Tá afim de um
boquete, joga cem paus na minha mão que eu jogo o seu pau na minha
boca. É simples, não complica, cara. Eu, hein? Pega no meu peito,
fica todo excitadinho e quer que eu transe com o menino? Vê se se
resolve, cara! Viver não é tão complicado assim, não.
CAMILO - Será que não dá para você entender a encrenca
que a gente tá metido?
DAVI - Vocês, vocês. Eu tou fora. Eu não sou mais
aquela Daví.Agora eu sou, foi você que deu a idéia, agora eu sou a
Ana Grama. É um bom nome para garota de programa. Ana Grama.O
pessoal das docas ia adorar. Ana Grama. Lembra pó.
CAMILO - Tá bem, Ana Grama. Mas tá quase amanhecendo,
os dois têm que ir para o Forum. Você não quer ir junto? (pensando
mais nele) A Globo vai estar lá, esperando. A Globo, o SBT, a
Record, a Bandeirantes, tevê a cabo, tevês do mundo todo. Todas as
rádios, todos os jornais. Até o Fernando Henrique vai estar ligado.
Dez da manhã. Ibope máximo. Cem por cento de audiência. O Brasil
inteiro vendo. E você lá, desfilando. A tia Daví, anagrama Vida!
DAVI - A Vida e o... como é mesmo o seu?
CAMILO - Málico, málico!
DAVI - Málico da Silva.
CAMILO - E de rosto colado, ainda por cima.
DAVI - O que? Tou dizendo que você é doido.
CAMILO - Se fosse baile, dançar, de rosto
colado.
DAVI - Eu, hein?
CAMILO - Sabe que você é muito bonita?
DAVI - Agradecida.
CAMILO - Bonita e gostosa.
DAVI - Ih...
CAMILO - Além de inteligente, é claro.
DAVI - Não vem, não. Inteligente também já é demais.
Bonita e gostosa, tudo bem. Inteligente. Se eu fosse inteligente eu
tava fazendo programa com senador de Brasília e não com vereador de
Palmas.
CAMILO - Sabe que eu nunca tinha conversado assim
com... uma garota de programa? É interessante. Pra criação de
personagem, entende? Você é uma personagem riquíssima, sabia?
DAVI - Rica, eu? Faz-me rir. Como você é complicado,
cara. Todo artista é assim, é? A vida é tão simples, meu.
CAMILO - Olha, Daví/
DAVI - Ana Grama. Me chama de Ana Grama, please.
Gostou do please? Sei várias palavras em inglês.
Fuck. Fuck me. What the fuck do you want? Surpreso?
Profissional, meu filho. Profissa. Pena que eu ainda não usava o Ana
Grama. Puta nome, meu! Puta nome! Ana Grama! Já me virei no cais de
Santos uns tempos atrás. Agora aquilo tá um lixo. Mas já foi bom.
Dei pra todos os diretores da Codesp. Gente de muita grana.
CAMILO - Vou dormir. Você não quer falar da primeira
vez que transou com o seu sobrinho, não quer transar pela última
vez. Não tenho mais nada a te pedir. Se ele for condenado, a culpa é
sua, sua!
DAVI - Vai dormir, não, bobinho. Fica. Fica aqui, com
a Ana Grama.
CAMILO - Você quer mesmo? Tem certeza que você quer
que eu fique aqui, Ana Grama?
DAVI - E, por falar em grama.
Tia Daví vai até a sua bolsa que estava em cima da
mesinha, acima dos jornais todos. Pega um papelote de cocaína. Abana
para ele.
Agora não há mais fala entre eles. Ela prepara as
fileirinhas. Cheiram. Ela, de costas para a platéia, abre o roupão.
Ele se aproxima, começa a beijar os seios dela. Ambos, excitados.
Ele senta-se na poltrona, de frente para a platéia,
ela se ajoelha, de costas. O roupão irá encobrir o ato dela fazendo
sexo oral com ele.
CAMILO - Esse seu movimento de cabeça, parece de
rolinha. Já viu rolinha andando, tesão? Gostosa! Quero que você me
chupe o resto da vida.
Ele começa a alisar os cabelos dela. Tira o cadarço do
bolso.
Ele mata ela. A rolinha morre sem dar um pio. O corpo
dela cai. Ele pega o cadarço e recoloca no tênis. Dá uma mordida no
pedaço de pizza.
Sai e volta com o Mario Alberto. Mario Alberto está
com a camisa usada por Camilo na primeira cena. Leva Mario Alberto
até onde o corpo está estendido. Mario Alberto percebe o ocorrido.
Ajoelha-se, abraça a tia e começa a chorar. E a
enlouquecer de vez.
CAMILO sai em direção aos quartos.
MARIO ALBERTO - Tia Daví... Tia Daví... A rolinha da
vovó. Vou fritar a rolinha da vovó.
O que vemos agora é Mario Alberto, falando e quase
babando, enlouquecendo de vez. Mario Alberto entra num irremediável
estado de loucura-mansa. Basta olhar para ele e perceber que estamos
diante de um louco.
MARIO ALBERTO - Eu sou o Messias, eu sou o Messias, o
caçador de almas, o caçador de rolinhas!
Entra Camilo, vestido com sua roupa inicial, toda
amassada, com a camisa inicial do Mario Alberto, com sua
bolsa-mochila. Fica olhando para Mario Alberto que está distante.
Camilo sai e volta com Dagoberto que dormia de cuecas e camisa do
Flamengo.
DAGOBERTO olha para Mario Alberto e diz para Camilo.
DAGOBERTO - Perfeito! Impressionante. Eu sabia que
você ia conseguir, Camilo. Excelente trabalho, senhor Diretor!
Só agora Camilo mostra o corpo de Daví no chão, morto.
DAGOBERTO ajoelha-se. Sente o pulso.
DAGOBERTO - Foi ele?
CAMILO - Quem mais? O caçador de rolinhas.
MARIO ALBERTO- Messias, irmão! Messias!
DAGOBERTO - Data vênia, você tinha razão, Camilo.
Trazer a tia Daví para cá foi uma grande idéia. Nada como um bom
diretor formado em psicologia e um produtor advogado. O doutor Paulo
sempre disse. Depois dos 50 o que o homem precisa é de um psiquiatra
e um advogado. (vai para o telefone e disca) Doutor Paulo. Desculpa,
desculpa acordar o senhor a essa hora da madrugada. É que estamos
prontos para a estréia. O homem (Camilo) é bom mesmo. Recomendo,
doutor Paulo. Vai dormir, doutor Paulo. Vai dormir que tudo está
certo por aqui. O senhor tinha razão. Vai tudo acabar em pizza.
Isso. Tenha um bom dia, doutor Paulo. (desliga. Para Camilo) Você é
um gênio, Camilo.
CAMILO - Sou, não. O rapaz é que é um bom ator. E
você, um bom produtor.
DAGOBERTO senta-se e faz um cheque. Entrega para
Camilo.
DAGOBERTO - O mesmo valor te dou no dia que ele entrar
no Manicômio Judicial. Você é um gênio, rapaz!
CAMILO - Sou, não. Sou apenas um caçador de rolinhas.
Como tantos que existem por aí.
CAMILO vai até a porta. Dagoberto vem e abre para ele.
Um aperto de mão. Camilo volta e vai até Mario Alberto. Dá um abraço
nele. Mario Alberto, nem aí. Volta e vai embora. Dagoberto fecha a
porta. Senta-se onde Camilo matou Daví.Pega um pedaço de pizza. O
último. Dá uma dentada.
DAGOBERTO - Quer pizza?
MARIO ALBERTO- Quero carne. (pequena pausa) De
rolinha.
f i m
primavera de 98/verão de 99