CAMILO - Mario Alberto, me
diga uma coisa. Há quanto tempo você não vê
a tia
DAVÍ?
MARIO ALBERTO - Nunca mais
vi. Uns dez anos.
CAMILO - E se você
encontrasse com ela, agora? Assim,
de repente? Como é que
ia ser?
MARIO ALBERTO - Eu matava ela!
CAMILO (que já
havia se levantado e ficava sempre estimulando Mario Alberto a prosseguir) - Mario
Alberto, vou te dizer
uma coisa
e você não
vai acreditar. Eu
sou igualzinho a você. Impressionante. Só que eu não mato. Mas não mato
fisicamente. Eu atraio as mulheres com
os mesmos métodos seus.
Dizendo o que elas
querem ouvir,
sabendo que elas
estão num momento de querer
se deslumbrar com
alguma coisa nova. Quando
a mulher fica completamente
apaixonada eu começo
a não gostar mais
dela. Porra, se apaixonar logo por mim? Pegar
no meu pé? Ao mesmo tempo, eu
quero que uma pegue no meu pé, mas
é que elas vem de repente, com pressa,
se penduram no pescoço da gente, vão
pegando e chupando o nosso pau. Você
está me ensinando muito coisa,
Mario Alberto. Compreendo perfeitamente
os seus crimes. Não que eu concorde, pelo amor
de Deus, não me
vá entender mal. Isso, inclusive,
essa relação que pintou agora entre
a gente, essa cumplicidade,
vai fazer com que eu
mude radicalmente a nossa forma
de ensaiar.
MARIO ALBERTO - Se as mulheres
fossem mais mulheres, não
se fudiam tanto. Eu
olhava para elas, antes
e pensava: eu não
acredito, essa mulher quer
se fuder. Será que não
tá na cara que eu
vou fuder com a vida
dela? Por que ela não
ficou quieta no canto dela? Tinha que atravessar
o meu caminho? Tinha?
O meu? Logo o meu? Justo quando eu
estava daquele jeito?
CAMILO - A gente está sempre pronto,
Mario Alberto. Pra caçar. Mesmo quando
a gente está desprevenido, quando pinta
a caça, a gente se excita. Você
tem razão, a culpa é delas. (cai em si) Meu Deus,
o que é que eu
estou falando? Eu tenho três
filhas, como é que o posso falar
uma coisa
dessas? Até o meu apelido
é Bebé. De Camilo Roberto, sabe?
MARIO ALBERTO - É isso aí, cara. Você
é igualzinho a mim. Você
é doido também! Eu
entendo de mulher: afinal, já
matei onze. E você? (Camilo não quer responder)
Uma puta, você
matava?
CAMILO (não quer responder, mas
ponderou bastante)
- Acho que a gente é muito
é convencido,
sabe?
MARIO ALBERTO - Quanto eu
chego num bar, por exemplo, já
na entrada, bato o olho e já
sei quem é a vítima, a caça.
De cara,
de cara! Bater
o olho
e pimba!
CAMILO - Igualzinho. Impressionante. Eu
achava que só a minha geração era assim.
MARIO ALBERTO - Só de bater
o olho. Seleciono logo de cara
duas ou três. Depois
vou à luta.
CAMILO - Impressionante.
Faço igualzinho. Tenho uma amiga que me chama
de periscópio. Sabe como é?
MARIO ALBERTO - É isso aí. Periscópio
é um bom nome pra gente.
CAMILO - E você
pode ter certeza que, quando
a gente entrou no bar, ela também
viu a gente e é como se elas
pedissem: olha eu aqui, olha eu aqui. Elas
pedem. Elas
querem se fuder!
MARIO ALBERTO - Elas pedem pra morrer.
É impressionante. Mulher gosta
de ser
assassinada pelos homens. Elas
querem ser
mortas, comidas. Mulher gosta
de dentada, de porrada.
CAMILO - Nelson
Rodrigues já dizia isso.
MARIO ALBERTO - Quem é? Um amigo seu?
Caçador, também?
Camilo - Vamos ensaiar.
Faltam só dois dias para
a estréia. (longa e pensativa pausa)
Sabe qual a única diferença entre eu
e você?
A única? Além da idade?
É que você aperta
o pescocinho delas com mais força.
Toca
a campainha.
Mario Alberto e Camilo olham-se, ficam preocupados. Dagoberto, não.
Aparece, vindo dos quartos, e vai abrir
a porta. Entra uma mulher, 40 anos, tudo em cima,
de minissaia e um corpete com
uma alça só, em tecido
imitando tigre. Pode-se dizer que ela
é bonita e já foi muito mais. Ela cumprimenta
os três com meneio
de cabeça e um pouco
de sensualidade.
DAGOBERTO - Achei que estava
faltando mulher
nesse espetáculo.
MULHER (para
Mario Alberto) - Você, aqui?
MARIO ALBERTO - Tia Daví? Como
vai a senhora?
CAMILO - Prazer!
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