EU FALO O QUE ELAS QUEREM OUVIR

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CENAS:  um, dois, três, quatro, cinco, seis


eu falo o que elas querem

Agora Camilo está com uma roupa excessivamente larga. Mais cafona ainda. Estão em silêncio. Camilo se olhando no espelho, admirando seu jeitão. Mario Alberto, de repente, como milagre, diz:

MARIO ALBERTO (olhando para o teto, distante) - Eu falo o que elas querem ouvir.

CAMILO (Fica quase boquiaberto) -  Repete isso.

MARIO ALBERTO - Isso, o quê?

CAMILO - Isso, que você acabou de falar.

MARIO ALBERTO -  Eu falo o que elas querem ouvir. Isso? É tão importante assim?

CAMILO - Foi a coisa mais importante que você disse nesses cinco dias de ensaio. Eu falo o que elas querem ouvir.

MARIO ALBERTO - Você é doido, cara. Falei nada demais. Quando eu quero que elas entrem na minha, falo o que elas querem ouvir. Só isso!

CAMILO - Fala mais sobre isso. O que é que elas querem ouvir? (senta-se no chão com a prancheta) Parla!

MARIO ALBERTO - Quando eu acordava mal, quando eu tinha o pressentimento que o meu lado maléfico ia aflorar naquele dia, era foda. Quando eu acordava transpirando bastante, todo ofegante, eu já sabia que alguma coisa ia tomar o meu ser e coisa ruim ia acontecer. Eu saia patinando - eu patino muito bem - por aquelas avenidas da Cantareira - o melhor lugar do mundo para patinar é a Cantareira -, pra ver se o ar, o vento frio na cara tirava aquelas coisas da minha cabeça. Quando eu via o tipo de mulher que eu queria, eu não conseguia me segurar. Era forte, era muito forte. E eu olhava para elas e sabia qual delas tinha que ouvir o quê. Eram as que tinham cara de que estavam precisando de uma conversa diferente, que fizesse com que ela saísse da rotina dela. Era mais ou menos como eu oferecer um outro mundo para elas. E o meu papo é bom. Eu falo o que elas querem ouvir. Mulher quer ouvir duas coisas. Só duas coisas. E eu falava. Você é bonita e inteligente. Tudo mais que você falar se enquadra nisso aí: bonita e inteligente. Se ela for meia gordinha, pode acrescentar um teu corpo é lindo. Aí é covardia. Toda mulher entra nesse papo. E, ao mesmo tempo, eu ficava pensando não entra na minha, menina, a sua vida nunca mais será a mesma, sai dessa, sai correndo. Você vai se dar mal. Burra. Ficava pensando coisas assim. Mas o lado ruim era muito forte. Não vem comigo, não aceita o meu convite. Se você vier, você vai se dar mal. Mas não adiantava. O que saía da minha boca era outra coisa. Porque eu sentia que tudo aquilo que eu estava falando é o que elas queriam ouvir. Quando eu entrava no mato com elas - algumas já de mãos dadas - eu sabia o que ia acontecer. Se fosse teatro - e agora eu estou descobrindo que era - a cena era sempre a mesma. Eu fazia coisas com elas - coisas de carinho, coisas de sexo mesmo - que elas nunca podiam imaginar que existia. Nada muito extravagante, não. Elas piravam. Quando eu dizia você é toda bonita, definia tudo. Ela ali, se ajoelhando, de livre e espontânea vontade, diante de mim e eu pensando burra, idiota, você não imagina o que te espera. Enquanto elas estavam chupando, de joelhos diante de mim, não me restava mais nada a fazer, a não ser matar, acabar logo com aquilo de uma vez. O que eu queria não era gozar com o pau, mas com a loucura. Era a rolinha na frigideira, era a tia Daví, gostoso. Acho que é isso. O que eu queria é ver que elas se apaixonavam por mim. E eu não posso aceitar que ninguém se apaixone por mim. Porque eu sou um puta dum bosta e quem se apaixona por um puta dum bosta também tem merda na cabeça. Mas a merda é que são as inteligentes que entram na minha. Só as mulheres burras não me entendem. Essas mulheres que entraram assim na minha vida, sabe o que elas queriam? Mudar de vida, mudar de emprego, mudar de homem. Eram todas meninas que se aventuravam a entrar numa mata com um desconhecido pru que desse e viesse. Eram meninas que queriam sair da matinha delas. Ninguém entrou na minha cantada na marra. Isso você pode crer.

CAMILO -  Mario Alberto, me diga uma coisa. Há quanto tempo você não vê a tia DAVÍ?

MARIO ALBERTO - Nunca mais vi. Uns dez anos.

CAMILO -  E se você encontrasse com ela, agora? Assim, de repente? Como é que ia ser?

MARIO ALBERTO -  Eu matava ela!

CAMILO (que já havia se levantado e ficava sempre estimulando Mario Alberto a prosseguir) - Mario Alberto, vou te dizer uma coisa e você não vai acreditar. Eu sou igualzinho a você. Impressionante. Só que eu não mato. Mas não mato fisicamente. Eu atraio as mulheres com os mesmos métodos seus. Dizendo o que elas querem ouvir, sabendo que elas estão num momento de querer se deslumbrar com alguma coisa nova. Quando a mulher fica completamente apaixonada eu começo a não gostar mais dela. Porra, se apaixonar logo por mim? Pegar no meu pé? Ao mesmo tempo, eu quero que uma pegue no meu pé, mas é que elas vem de repente, com pressa, se penduram no pescoço da gente, vão pegando e chupando o nosso pau. Você está me ensinando muito coisa, Mario Alberto. Compreendo perfeitamente os seus crimes. Não que eu concorde, pelo amor de Deus, não me vá entender mal. Isso, inclusive, essa relação que pintou agora entre a gente, essa cumplicidade, vai fazer com que eu mude radicalmente a nossa forma de ensaiar.

MARIO ALBERTO - Se as mulheres fossem mais mulheres, não se fudiam tanto. Eu olhava para elas, antes e pensava: eu não acredito, essa mulher quer se fuder. Será que não tá na cara que eu vou fuder com a vida dela? Por que ela não ficou quieta no canto dela? Tinha que atravessar o meu caminho? Tinha? O meu? Logo o meu? Justo quando eu estava daquele jeito?

CAMILO - A gente está sempre pronto, Mario Alberto. Pra caçar. Mesmo quando a gente está desprevenido, quando pinta a caça, a gente se excita. Você tem razão, a culpa é delas. (cai em si) Meu Deus, o que é que eu estou falando? Eu tenho três filhas, como é que o posso falar uma coisa dessas? Até o meu apelido é Bebé. De Camilo Roberto, sabe?

MARIO ALBERTO - É isso aí, cara. Você é igualzinho a mim. Você é doido também! Eu entendo de mulher: afinal, já matei onze. E você? (Camilo não quer responder) Uma puta, você matava?

CAMILO (não quer responder, mas ponderou bastante) - Acho que a gente é muito é convencido, sabe?

MARIO ALBERTO - Quanto eu chego num bar, por exemplo, já na entrada, bato o olho e já sei quem é a vítima, a caça. De cara, de cara! Bater o olho e pimba!

CAMILO - Igualzinho. Impressionante. Eu achava que só a minha geração era assim.

MARIO ALBERTO - Só de bater o olho. Seleciono logo de cara duas ou três. Depois vou à luta.

CAMILO - Impressionante. Faço igualzinho. Tenho uma amiga que me chama de periscópio. Sabe como é?

MARIO ALBERTO - É isso aí. Periscópio é um bom nome pra gente.

CAMILO - E você pode ter certeza que, quando a gente entrou no bar, ela também viu a gente e é como se elas pedissem: olha eu aqui, olha eu aqui. Elas pedem. Elas querem se fuder!

MARIO ALBERTO - Elas pedem pra morrer. É impressionante. Mulher gosta de ser assassinada pelos homens. Elas querem ser mortas, comidas. Mulher gosta de dentada, de porrada.

CAMILO - Nelson Rodrigues já dizia isso.

MARIO ALBERTO - Quem é? Um amigo seu? Caçador, também?

Camilo -  Vamos ensaiar. Faltam só dois dias para a estréia. (longa e pensativa pausa) Sabe qual a única diferença entre eu e você? A única? Além da idade? É que você aperta o pescocinho delas com mais força.

Toca a campainha. Mario Alberto e Camilo olham-se, ficam preocupados. Dagoberto, não. Aparece, vindo dos quartos, e vai abrir a porta. Entra uma mulher, 40 anos, tudo em cima, de minissaia e um corpete com uma alça só, em tecido imitando tigre. Pode-se dizer que ela é bonita e já foi muito mais. Ela cumprimenta os três com meneio de cabeça e um pouco de sensualidade.

DAGOBERTO - Achei que estava faltando mulher nesse espetáculo.

MULHER (para Mario Alberto) - Você, aqui?

MARIO ALBERTO - Tia Daví? Como vai a senhora?

CAMILO - Prazer!

 

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