MARIO ALBERTO-
Me
dá as
rolinhas! Eu
quero comer
as
rolinhas!
Fui eu que
matei! As
rolinhas são
minhas!
Se não deixar eu fritar
as
rolinhas eu
vou comer
as
rolinhas
cruas! Vou comer
as
rolinhas
cruas! Cruas! Cruas!
CAMILO(vó)
-
Assassino!
Monstro!
(pega todos
os
jornais que
estão espalhados pela sala,
falando do caso
do
tarado,
e vai jogando em cima
dele)
Mario Alberto deita-se
novamente,
resmungando e volta
a dormir. Luz
normal.
DAGOBERTO-
Precisa fazer
essa zona toda para dirigir um louco?
CAMILO-
Foi bom você usar
essa
expressão: louco. Não
sou
nenhum
psiquiatra, mas
acho que
o seu irmão não
precisa
de
nenhum
diretor para
se
transformar em louco. Com todo
o
respeito,
deputado,
o rapazinho é louco.
E não
é de hoje, não.
Talvez
seja o fato
de ser muito mais novo que
os
irmãos,
acho que
abusaram um pouco
dele. Pirou.
DAGOBERTO-
Abusaram como? Quem
abusaram?
CAMILO-
O que você acha
da tia
DAVÍ?
DAGOBERTO-Tia
DAVÍ? Com todo
o
respeito
à senhora minha mãe, mas
a tia
Davítá
gostosa até hoje.
É tia, mas
é mais nova
do que eu. Mais velha que
o Bebé, é claro.
Devo reconhecer que
é meio
assanhadinha, a
danada. Ela
é bem mais velha
do que ele.
Maxima debetur puero reverentia.
CAMILO
- Como?
DAGOBERTO
- Deve-se à
criança
o
máximo
respeito.
CAMILO- Ela
é só dez anos mais velha.
Quando
o Mario Alberto tinha
9, ela tinha
19. O Mario Alberto me
descreveu ela, em
detalhes.
Sabe o mais
incrível
de tudo? Ela,
a tia
Daví, tinha
a mesma idade
e o mesmo tipo
físico
das meninas que ele
matou.
DAGOBERTO- Não
estou entendendo onde você quer chegar.
CAMILO-
Essa sua tia,
deputado, com todo
o
respeito
e
decoro
parlamentar, mas
essa sua tia não passa
de uma
grande
puta! Um
putinha! Não
tem nada
de meia
puta, a danadinha, não.
DAGOBERTO- Minha tia? Você acha mesmo necessário descobrir que
a minha tia era ou
é uma putinha, para
o Mario Alberto
representar um louco?
CAMILO-
Fundamental.
E você, ela nunca?/
DAGOBERTO-
O que
é isso?
CAMILO-
É
importante para
o
tratamento, quer dizer, para
o trabalho.
DAGOBERTO(pensa muito,
senta-se) - Uma vez ou outra.
CAMILO-
E você
gozou?
DAGOBERTO- Onde
é que você quer chegar, rapaz?
CAMILO-
O Mario Alberto tem
fimose,
sabia? Dói, dói muito, me
disse ele
no
laboratório. Não
consegue ter
penetração.
É como
se ele
se defendesse da dor,
gozando
rápido,
entende? Dói e ele goza!
E acho que ele
também
tem
problema
de
ereção. Ficar
de pau duro,
entende?
DAGOBERTO- Me conta
uma coisa: toda direção sua
é assim,
é?
Precisa saber
se o cara
tem
ejaculação
precoce,
se tem
fimose,
se dói, o escambau?
CAMILO-
O ator, não, mas
o
personagem, sim!
O que eu
quero te dizer
é que nós já
chegamos, nessa
primeira fase
do trabalho,
às
causas
da
loucura
dele.
Loucura que ele
está acostumado a interpretar
maravilhosamente bem,
quando
convence as
vítimas
a irem para
a Cantareira com ele.
Quando
o lado ruim
dele - usando
palavras
dele - vem à tona
e ele
interpreta, matando, tentando comer
a carne
das
vítimas.
DAGOBERTO- Ele te
contou tudo isso?
CAMILO- Você vê que
o trabalho
está indo bem.
DAGOBERTO- Então, quer adiar
a
estréia por quê?
CAMILO-
Porque eu já
consigo fazer com que ele
interprete o Irmão
Beltrão
quando
a cena
se refere aos
crimes. Mas nós
temos que conseguir que ele
seja Irmão
Beltrão
sempre.
Na vida
normal, aqui,
comendo pizza com
a gente. Fazer com que ele saia
definitivamente
do lado bom
e assuma para
sempre
- pelo menos por um bom tempo
- o lado ruim. Aí sim,
posso lhe garantir,
assino
embaixo.
DAGOBERTO- Irmão
Beltrão? Mas
se ele ficar louco
o tempo todo, não
pode ser
perigoso? Pra ele
e pra todo mundo? Para nós, por
exemplo?
CAMILO-
A gente
tem que correr esse risco.
O trabalho
está nesse ponto.
Foi por isso que eu
marquei essa
reunião.
Se os
políticos
quisessem, nobre
deputado,
o Brasil teria, de graça,
tratamento
psiquiátrico.
Posso te garantir que nada
disso estaria acontecendo. Mas como
a
política/
DAGOBERTO- Não
vem com papo
de PT pra cima
de mim, não.
Vamos voltar para
a
reunião.
E se,
depois, ele nunca mais sair
desse lado louco total,
digamos assim?
CAMILO-
Sai. Ele
sai. Outra coisa: você
sabia que ele
morou um ano
e meio com um
travesti?
DAGOBERTO-
Peraí. Aí você
está indo longe
demais. Isso já
é
invenção
da mídia.E você
acreditou.
Intelectual
acredita em
qualquer coisa!
CAMILO- Você
é o
produtor. Não
posso esconder nada
de você.
DAGOBERTO- Você
acreditou nisso?
CAMILO-
Talita. Talita é o nome
do
travesti.
Tá no
jornal
de hoje.
DAGOBERTO(pega
o
jornal)
-
Porra, meu,
quando você
falou em
travesti, eu logo
pensei numa gostosona. Mas olha isso. Isso não
é
travesti nem aqui, nem
na China. Isso
é um
autêntico
viado. (volta
a si) Não
acredito! Um irmão
viado? Você
está doido.
O doido aqui
é você.
(pensa um pouco) Mas ele só
comia, né?
CAMILO-
É o que ele
diz fora
dos
ensaios. Nos
ensaios,
é bem
diferente.
Desculpa, mais
uma vez, mas ele
dava,
deputado.
O seu irmão
dava o fiofó para
o Talita. Só assim ele
gozava total. Com
alguém
massageando a
próstata
dele.
DAGOBERTO- Não
acredito! Não
acredito!
Nenhum
Pereira
Barreto deu a bunda,
jamais!
Jamais,
entendeu? Esse cara
sempre
foi um
tarado. Não
leu os
jornais todos, não? Quem
deve dar
a bunda
é o tal
do Irmão
Beltrão, que você
inventou. O inverso dele. O Mario Alberto, não.
Ponho a minha mão
no fogo.
CAMILO-
Deputado,
o Irmão
Beltrão não
existe mais. Eu não
quero mais
transformar
o Mario Alberto em Irmão
Beltrão. Esqueci o Irmão
Beltrão. Quero
transformar
o Mario Alberto no Mario Alberto mesmo.
DAGOBERTO- Você
é doido.
Imagina o meu irmão
dando o rabo
Pegando num pau.
Tá louco, cara!
Tá querendo ser
substituído?
CAMILO- Você quer ver?
Camilo bate uma palma, forte, voltamos a contar com o Espaço do Irmão Beltrão. Camilo vai se aproximando, deixa
o
roupão cair
e vira
Talita. Acaricia Mario Alberto que
dorme
debaixo
dos
jornais.
MARIO ALBERTO-
Talita?
TALITA - Meu gato,
vem cá,
vem. Pega aqui. Olha como ele
está gostosinho, olha. Pega, pega.
Mario Alberto vai aproximando
lentamente
e esticando as mãos.
Dagoberto fica
nervoso, pega
o revólver.
DAGOBERTO-
Se ele pegar eu te mato. Mato você
e ele!
Camilo sai da cena e vem falar com Dagoberto. Mario Alberto fica dançando com
os
jornais,
uma coisa meio
de
Odalisca.
CAMILO-
Presta
atenção
no que eu
vou te dizer,
deputado. Mas muita
atenção mesmo
porque
estão acontecendo
coisas
fundamentais
dentro
do trabalho,
do processo.
O
simples fato
de pegar
no pau, por
exemplo.
DAGOBERTO-
Simples fato
de pegar
no pau?
Simples fato? Você fala como
se todo mundo por aí
andasse pegando no pau
dos
outros. Só
se for assim
na classe
teatral. Lá em
Brasília a gente não
faz essa senvergonhice, não. Não
conheço
nenhum
deputado que pega
no pau em
Brasília. Teve o..., mas
aquilo era boato. Aliás,
acho que nem
as deputadas de Brasília nunca
pegaram num pau. Pegar
num pau
é uma coisa muito séria, rapaz!
CAMILO-
Digamos que, como
Mario Alberto - personagem!
- ele pega
no pau. Não como ator, como seu irmão. Como
personagem. Pela minha
experiência,
deputado, com mais
de trinta peças
dirigidas,
depois
de trabalhar com mais
de quinhentos
atores,
posso te garantir que ator que nunca
pegou num pau
na vida real não
sabe interpretar
personagem que pega
no pau
no palco. Para
o ator, pegar
no pau
é uma das
coisas mais
difíceis que
tem.
DAGOBERTO-
O que você quer dizer
é que
se o
personagem pega bem
no pau
é
porque
o ator pega bem
no pau?
CAMILO-
É isso aí,
deputado.
DAGOBERTO- Agora
sou eu que
quero que você me
escute com toda
a
atenção: não
está nem um pouco fora
de cogitação eu mandar matar vocês dois. Você
e o Bebé. E mando fazer
de um jeito, que todo
o Brasil vai acreditar que
a tal
da Talita era você mesmo,
o
diretor
Camilo Roberto
Campos
de
Morais Filho.
Tenho toda
a
cobertura em
Brasília para armar isso. Não
está fora
de cogitação, não. Te
cuida,
malandro. Você não
tem idéia
de onde
se meteu. E só
tem uma
maneira
de você sair vivo,
consagrado e feliz
disso tudo.
(toca
o telefone, ele
atende) Pois não.
É ele mesmo.
Aguardo, sim.
(para
Diretor)
O
doutor
Paulo. Alô? Como
vai
doutor
Paulo? Vi a
pesquisa, sim. Não
vai dar outra.
(...) Está indo muito bem.
Acho que
vai dar tudo
conforme
o combinado,
doutor
Paulo. (...) Acho, não.
Tenho
certeza!
O nosso
diretor
é mesmo muito
criativo,
digamos assim. Lá
no Palácio
tá tudo em cima,
né? Puxa,
custou caro, hein
doutor
Paulo? (...) Já
disse,
doutor
Paulo. Pode ficar tranqüilo.
O Tocantins é nosso!
Aquilo lá
tem mais ouro que mil
serraspeladas. Tranqüilo.
Pode dormir tranqüilo. Outro.
(desliga) Ouro, meu querido
Camilo, que
poderá ser seu.
Uma parte,
é claro. São
hectares
e
hectares
de ouro. Tudo
de ouro.
É cavar
e sair
pru
abraço!
(coloca a mão
no ombro
do Camilo,
paternal,
produtor) Só que, para isso acontecer, meu querido
diretor,
a partir
de agora,
está
proibido, aqui
dentro desde
apartamento,
de
alguém pegar
no pau
de quem quer que
seja, seja ele
personagem ou civil!!! Mais
loucura,
menas sacanagem!!!
CAMILO(quase que só para si mesmo)
- Não
é menas, nobre
deputado...
MARIO ALBERTO
- (que,
lentamente,
dançara o tempo todo)
Se for solto, sou capaz
de engolir
uma
mulher.
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