EU FALO O QUE ELAS QUEREM OUVIR

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CENAS:  um, dois, três, quatro, cinco, seis


tia DAVÍ

rumo ao manicômio

Camilo está sozinho na mesa, fazendo umas anotações. Veste um roupão vermelho. Descalço. Entra, da rua, Dagoberto. Sempre que ele vem da rua, está disfarçado.

DAGOBERTO- Cadê o Irmão Beltrão?

CAMILO- Dormindo. O ensaio hoje foi meio exaustivo. Mas valeu. Houve um pequeno progresso.

DAGOBERTO- Ótimo. Amanhã o doutor Melão, o advogado, vai avisar a imprensa que o Mario Alberto se apresenta dia 3. Daqui a quatro dias, portanto.

CAMILO(cheio de dedos) - Eu queria te pedir uma coisa. Vamos ter que adiar a estréia.

DAGOBERTO-  Vou fazer que não ouvi.

CAMILO-  Uns dois ou três dias. No mínimo!

DAGOBERTO- Não tem lido os jornais, não? O cerco está se fechando. E se pegam ele aqui, com você aqui dentro, tá todo mundo perdido. Fudido! Você então, nem se fale.

CAMILO- Como diretor eu queria explicar que/

DAGOBERTO-  Diretor, o caceta! Você é cúmplice! Cúmplice! Coloca isso nessa sua cabecinha! Você tá tão metido nisso quanto eu e ele! Vai acordar o cara! Quero ver resultados. Tu tem mais quatro dias. E não se fala mais nisso. Como é que está o Bebé?

CAMILO(depois de longo e reflexivo silêncio) - Você sabe o que, da história da sua avó com as rolinhas?

DAGOBERTO- Minha avó? Minha vó já morreu, cara. As duas. Sei lá há quanto tempo. Rolinha? Você disse rolinha? Rolinha, passarinho?

CAMILO- Ele contou hoje num laboratório.

DAGOBERTO- Laboratório?

 

Jogo de luz transforma um pedaço do palco em Espaço do Irmão Beltrão. Mario Alberto está deitado, sonhando, levanta-se de repente, suando, arfando.

 

MARIO ALBERTO- De novo, de novo a vovó! Eu só estava brincando, vovó! Era só uma brincadeirinha. Olha aí, nem tirei as penas.

CAMILO(se aproxima, fazendo a vó) - Assassino! Você é um assassino! Você matou as rolinhas e ia fritar as rolinhas! Monstro! Você é um monstro!

MARIO ALBERTO-  Me dá as rolinhas! Eu quero comer as rolinhas! Fui eu que matei! As rolinhas são minhas! Se não deixar eu fritar as rolinhas eu vou comer as rolinhas cruas! Vou comer as rolinhas cruas! Cruas! Cruas!

CAMILO(vó) - Assassino! Monstro! (pega todos os jornais que estão espalhados pela sala, falando do caso do tarado, e vai jogando em cima dele)

Mario Alberto deita-se novamente, resmungando e volta a dormir. Luz normal.

DAGOBERTO- Precisa fazer essa zona toda para dirigir um louco?

CAMILO- Foi bom você usar essa expressão: louco. Não sou nenhum psiquiatra, mas acho que o seu irmão não precisa de nenhum diretor para se transformar em louco. Com todo o respeito, deputado, o rapazinho é louco. E não é de hoje, não. Talvez seja o fato de ser muito mais novo que os irmãos, acho que abusaram um pouco dele. Pirou.

DAGOBERTO- Abusaram como? Quem abusaram?

CAMILO- O que você acha da tia DAVÍ?

DAGOBERTO-Tia DAVÍ? Com todo o respeito à senhora minha mãe, mas a tia Davítá gostosa até hoje. É tia, mas é mais nova do que eu. Mais velha que o Bebé, é claro. Devo reconhecer que é meio assanhadinha, a danada. Ela é bem mais velha do que ele. Maxima debetur puero reverentia.

CAMILO - Como?

DAGOBERTO - Deve-se à criança o máximo respeito.

CAMILO- Ela é só dez anos mais velha. Quando o Mario Alberto tinha 9, ela tinha 19. O Mario Alberto me descreveu ela, em detalhes. Sabe o mais incrível de tudo? Ela, a tia Daví, tinha a mesma idade e o mesmo tipo físico das meninas que ele matou.

DAGOBERTO- Não estou entendendo onde você quer chegar.

CAMILO- Essa sua tia, deputado, com todo o respeito e decoro parlamentar, mas essa sua tia não passa de uma grande puta! Um putinha! Não tem nada de meia puta, a danadinha, não.

DAGOBERTO- Minha tia? Você acha mesmo necessário descobrir que a minha tia era ou é uma putinha, para o Mario Alberto representar um louco?

CAMILO- Fundamental. E você, ela nunca?/

DAGOBERTO- O que é isso?

CAMILO- É importante para o tratamento, quer dizer, para o trabalho.

DAGOBERTO(pensa muito, senta-se) - Uma vez ou outra.

CAMILO- E você gozou?

DAGOBERTO- Onde é que você quer chegar, rapaz?

CAMILO- O Mario Alberto tem fimose, sabia? Dói, dói muito, me disse ele no laboratório. Não consegue ter penetração. É como se ele se defendesse da dor, gozando rápido, entende? Dói e ele goza! E acho que ele também tem problema de ereção. Ficar de pau duro, entende?

DAGOBERTO- Me conta uma coisa: toda direção sua é assim, é? Precisa saber se o cara tem ejaculação precoce, se tem fimose, se dói, o escambau?

CAMILO- O ator, não, mas o personagem, sim! O que eu quero te dizer é que nós já chegamos, nessa primeira fase do trabalho, às causas da loucura dele. Loucura que ele está acostumado a interpretar maravilhosamente bem, quando convence as vítimas a irem para a Cantareira com ele. Quando o lado ruim dele - usando palavras dele - vem à tona e ele interpreta, matando, tentando comer a carne das vítimas.

DAGOBERTO- Ele te contou tudo isso?

CAMILO- Você vê que o trabalho está indo bem.

DAGOBERTO- Então, quer adiar a estréia por quê?

CAMILO- Porque eu já consigo fazer com que ele interprete o Irmão Beltrão quando a cena se refere aos crimes. Mas nós temos que conseguir que ele seja Irmão Beltrão sempre. Na vida normal, aqui, comendo pizza com a gente. Fazer com que ele saia definitivamente do lado bom e assuma para sempre - pelo menos por um bom tempo - o lado ruim. Aí sim, posso lhe garantir, assino embaixo.

DAGOBERTO- Irmão Beltrão? Mas se ele ficar louco o tempo todo, não pode ser perigoso? Pra ele e pra todo mundo? Para nós, por exemplo?

CAMILO- A gente tem que correr esse risco. O trabalho está nesse ponto. Foi por isso que eu marquei essa reunião. Se os políticos quisessem, nobre deputado, o Brasil teria, de graça, tratamento psiquiátrico. Posso te garantir que nada disso estaria acontecendo. Mas como a política/

DAGOBERTO- Não vem com papo de PT pra cima de mim, não. Vamos voltar para a reunião. E se, depois, ele nunca mais sair desse lado louco total, digamos assim?

CAMILO- Sai. Ele sai. Outra coisa: você sabia que ele morou um ano e meio com um travesti?

DAGOBERTO- Peraí. Aí você está indo longe demais. Isso já é invenção da mídia.E você acreditou. Intelectual acredita em qualquer coisa!

CAMILO- Você é o produtor. Não posso esconder nada de você.

DAGOBERTO- Você acreditou nisso?

CAMILO- Talita. Talita é o nome do travesti. Tá no jornal de hoje.

DAGOBERTO(pega o jornal) - Porra, meu, quando você falou em travesti, eu logo pensei numa gostosona. Mas olha isso. Isso não é travesti nem aqui, nem na China. Isso é um autêntico viado. (volta a si) Não acredito! Um irmão viado? Você está doido. O doido aqui é você. (pensa um pouco) Mas ele só comia, né?

CAMILO- É o que ele diz fora dos ensaios. Nos ensaios, é bem diferente. Desculpa, mais uma vez, mas ele dava, deputado. O seu irmão dava o fiofó para o Talita. Só assim ele gozava total. Com alguém massageando a próstata dele.

DAGOBERTO- Não acredito! Não acredito! Nenhum Pereira Barreto deu a bunda, jamais! Jamais, entendeu? Esse cara sempre foi um tarado. Não leu os jornais todos, não? Quem deve dar a bunda é o tal do Irmão Beltrão, que você inventou. O inverso dele. O Mario Alberto, não. Ponho a minha mão no fogo.

CAMILO- Deputado, o Irmão Beltrão não existe mais. Eu não quero mais transformar o Mario Alberto em Irmão Beltrão. Esqueci o Irmão Beltrão. Quero transformar o Mario Alberto no Mario Alberto mesmo.

DAGOBERTO- Você é doido. Imagina o meu irmão dando o rabo Pegando num pau. Tá louco, cara! Tá querendo ser substituído?

CAMILO- Você quer ver?

Camilo bate uma palma, forte, voltamos a contar com o Espaço do Irmão Beltrão. Camilo vai se aproximando, deixa o roupão cair e vira Talita. Acaricia Mario Alberto que dorme debaixo dos jornais.

MARIO ALBERTO- Talita?

TALITA - Meu gato, vem cá, vem. Pega aqui. Olha como ele está gostosinho, olha. Pega, pega.

Mario Alberto vai aproximando lentamente e esticando as mãos. Dagoberto fica nervoso, pega o revólver.

DAGOBERTO- Se ele pegar eu te mato. Mato você e ele!

Camilo sai da cena e vem falar com Dagoberto. Mario Alberto fica dançando com os jornais, uma coisa meio de Odalisca.

CAMILO- Presta atenção no que eu vou te dizer, deputado. Mas muita atenção mesmo porque estão acontecendo coisas fundamentais dentro do trabalho, do processo. O simples fato de pegar no pau, por exemplo.

DAGOBERTO- Simples fato de pegar no pau? Simples fato? Você fala como se todo mundo por aí andasse pegando no pau dos outros. Só se for assim na classe teatral. Lá em Brasília a gente não faz essa senvergonhice, não. Não conheço nenhum deputado que pega no pau em Brasília. Teve o..., mas aquilo era boato. Aliás, acho que nem as deputadas de Brasília nunca pegaram num pau. Pegar num pau é uma coisa muito séria, rapaz!

CAMILO- Digamos que, como Mario Alberto -  personagem! - ele pega no pau. Não como ator, como seu irmão. Como personagem. Pela minha experiência, deputado, com mais de trinta peças dirigidas, depois de trabalhar com mais de quinhentos atores, posso te garantir que ator que nunca pegou num pau na vida real não sabe interpretar personagem que pega no pau no palco. Para o ator, pegar no pau é uma das coisas mais difíceis que tem.

DAGOBERTO- O que você quer dizer é que se o personagem pega bem no pau é porque o ator pega bem no pau?

CAMILO-  É isso aí, deputado.

DAGOBERTO- Agora sou eu que quero que você me escute com toda a atenção: não está nem um pouco fora de cogitação eu mandar matar vocês dois. Você e o Bebé. E mando fazer de um jeito, que todo o Brasil vai acreditar que a tal da Talita era você mesmo, o diretor Camilo Roberto Campos de Morais Filho. Tenho toda a cobertura em Brasília para armar isso. Não está fora de cogitação, não. Te cuida, malandro. Você não tem idéia de onde se meteu. E só tem uma maneira de você sair vivo, consagrado e feliz disso tudo. (toca o telefone, ele atende) Pois não. É ele mesmo. Aguardo, sim. (para Diretor) O doutor Paulo. Alô? Como vai doutor Paulo? Vi a pesquisa, sim. Não vai dar outra. (...) Está indo muito bem. Acho que vai dar tudo conforme o combinado, doutor Paulo. (...) Acho, não. Tenho certeza! O nosso diretor é mesmo muito criativo, digamos assim. Lá no Palácio tá tudo em cima, né? Puxa, custou caro, hein doutor Paulo? (...) Já disse, doutor Paulo. Pode ficar tranqüilo. O Tocantins é nosso! Aquilo lá tem mais ouro que mil serraspeladas. Tranqüilo. Pode dormir tranqüilo. Outro. (desliga) Ouro, meu querido Camilo, que poderá ser seu. Uma parte, é claro. São hectares e hectares de ouro. Tudo de ouro. É cavar e sair pru abraço! (coloca a mão no ombro do Camilo, paternal, produtor) Só que, para isso acontecer, meu querido diretor, a partir de agora, está proibido, aqui dentro desde apartamento, de alguém pegar no pau de quem quer que seja, seja ele personagem ou civil!!! Mais loucura, menas sacanagem!!!

CAMILO(quase que só para si mesmo) - Não é menas, nobre deputado...

MARIO ALBERTO -  (que, lentamente, dançara o tempo todo) Se for solto, sou capaz de engolir uma mulher.

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