EU FALO O QUE ELAS QUEREM OUVIR

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CENAS:  um, dois, três, quatro, cinco, seis


o nascimento de Irmão Beltrão

rumo ao manicômio

Camilo está vestido como uma beata de trinta anos, dos anos 50. Caricatural, teatral, mesmo. Sentado, lendo o jornal. O Mario Alberto está tomando sua coca e comendo um pedaço de pizza.

CAMILO - Tenho certeza que você não leu o jornal, né?

MARIO ALBERTO - Sobre mim? Conta aí.

CAMILO - Estão dizendo aqui que você foi visto na Bolívia, em Cochabamba.

MARIO ALBERTO - Ja-já vão dizer que eu sou traficante.

CAMILO - Ja-já, não. Tá aqui. Tem uma declaração aqui do promotor, muito interessante: “estamos no rastro dele. É questão de horas. Estamos estudando e analisando as possíveis relações dele com o tráfico da cocaína, via São José do Rio Preto”.

MARIO ALBERTO - Porra!

CAMILO - E tem duas sobreviventes que disseram que você tem ejaculação precoce. Isso é verdade?

MARIO ALBERTO - Tá vendo, a gente não mata, dá uma de legal com as minas e elas saem dizendo uma barbaridade dessas por aí. Ninguém é sério nesse país.

CAMILO - Tem ou não tem?

MARIO ALBERTO - O que?

CAMILO - Ejaculação precoce.

MARIO ALBERTO -  Depende do que você entende por ejaculação precoce. Pra você, quantas bombadas são?

CAMILO (vai até a janela com sua roupa ridícula) - Taí uma boa pergunta. Digamos umas cinqüenta.

MARIO ALBERTO - Cinqüenta, meu? Assim arrebenta. Tenho fimose. Não passo da décima. Mas sabe o que é isso? É que elas ficam apavoradas, não gozam e depois vem por a culpa em cima da gente.

CAMILO - E com esse travesti aqui, como é que era?

MARIO ALBERTO - Não acredito! Até isso? (vai pegar o jornal da mão de Camilo) Com foto e tudo? Mas que filho da puta.

CAMILO - Tá dizendo aí que você viveu um ano e meio com a, Talita, né?

MARIO ALBERTO - Olha só o que a filha da puta tá dizendo aqui. Que eu era o passivo. Passivo é o que dá, não é? Eu, o passivo, Talita? Eu? Olha aqui, cara, eu vou te dizer uma coisa. Lá na Bahia, onde eu nasci e depois no interior do Tocantins, esse negócio de dar a bunda é sério. Nem a esposa chega perto da bunda da gente. Não é quenem aqui no sul, onde parece que soltaram o fiofó de vez. Isso, pra mim, é uma coisa muito séria. Ainda mais um homem. Nunca dei! Nunca! E nunca beijei na boca! Nunca.

CAMILO (pega o jornal novamente)-  Realmente, tem coisa melhor na praça.

MARIO ALBERTO - Eu sei o que foi! Quando eu larguei a bicha, tem mais de ano isso, ela me disse, toda molhada de lágrimas: “se você levar o vibrador italiano, eu azaro com você, um dia. Eu azaro com a sua vida! Você não me conhece, bofe”! Vingativa filha de uma puta!

CAMILO - Você levou o vibrador?

MARIO ALBERTO - Claro. Caríssimo. Italiano, importado, de primeira. Lavei muito bem lavadinho e levei comigo.

CAMILO - Vamos trabalhar, vamos.

MARIO ALBERTO -  Passiva, essa é muito boa!

CAMILO - Vamos lá, faz de conta que eu sou a tia Daví.

MARIO ALBERTO - Já disse, cara, se você ficar aí vestido de mulher eu não ensaio. Você não vive falando em concentração? Como é que eu vou me concentrar com você vestido desse jeito? Cê tá ridículo, cara! E depois, o passivo sou eu?! A Roberta Close, por exemplo. Porque tudo depende do ponto de vista. A Roberta Close, por exemplo: não era um homem com peito. Era uma mulher com pau. Uma senhora mulher com pau! Mulher com pau é tudo que todo homem sempre pediu a Deus, não é? Não é? Aquilo que é bunda de homem! Burra, foi cortar o pau, ficou normal. Comer bunda de mulher é fácil. Quero ver é comer de homem! Tem que ser macho pra caralho.

CAMILO - É, uma bela bunda.A da Roberta Close (cai em si). Eu parto do princípio que tudo começou com a sua tia. Quantos anos você tinha?

MARIO ALBERTO - Nove, dez. Pára com isso, já estava entrando na sua.

CAMILO - Ela mandava você tirar a roupa?

MARIO ALBERTO - Não adianta, cara!

CAMILO - Eu acho que você não estima tanto essa sua vida, não. Vamos fazer a cena. Tira a roupa.

MARIO ALBERTO -  O que? Quer que eu fique pelado na sua frente? Pensa um pouco no que você está querendo.

 

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