EU FALO O QUE ELAS QUEREM OUVIR

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CENAS:  um, dois, três, quatro, cinco, seis


Quando abre a cena, Camilo está com o braço recostado na parte de cima de uma lousa verde, tamanho médio. Está olhando para Mario Alberto que está sentado na poltrona, olhando para ele. Na lousa está escrito:

primeiro dia de ensaio

rumo ao manicômio

 

CAMILO (já está com roupa que o Dagoberto arrumou para ele. A roupa é extremamente apertada, incômoda e cafona. Camilo está diante de Mario Alberto que não diz nada. Os dois estão sentados. Depois de longo silêncio, Camilo vai até o espelho e se olha) - Estou ridículo. Quem foi que escolheu essas roupas? Você? Se o seu irmão me conhecesse um pouquinho, como ele diz conhecer, não tinha me arrumado essas roupas. (fica em silêncio mais uma vez, esperando que Mario Alberto diga alguma coisa) Assim não vai dar, Mario Alberto. (Mario Alberto não fala nada, só olha para ele. Camilo começa a andar pela sala, preocupado) Mario Alberto, a primeira coisa que um ator tem que fazer para interpretar um papel é querer fazer esse papel. Gostar do papel. Esse papel ser o sonho da vida dela, entende? Quando você gosta do papel, fica fácil. Fazer é fácil. Claro que requer um mínimo de talento. Não posso ainda avaliar o seu talento, porque você está há quinze minutos aí me olhando e como é que eu vou conhecer você? A gente vai trabalhar junto, a gente precisa se conhecer antes. Precisa se conhecer, entende? Um tem que confiar no outro, está bem? É quase que uma coisa religiosa essa relação entre o ator e o diretor.

MARIO ALBERTO - Isso, pra mim, é coisa de viado!

CAMILO - (faz que não foi com ele) - Eu preciso saber o mínimo de você. Senão, não vai dar. Vai ficar um horror e nós três vamos dançar. Se você quiser dançar, o problema é seu. Acerto a minha parte com a produção, quer dizer, com o seu irmão, e tudo bem. Mas eu não posso dançar. Um dia, sei lá quando, sei lá se vou estar vivo, mas alguém vai ficar sabendo que fui eu quem dirigiu esse espetáculo. Então, já que eu aceitei esse desafio, vamos dizer assim, quero fazer o melhor possível. Sou profissional! Tenho fracassos, eu sei, mas foram fracassos da maior dignidade. Mas a hora, Mario Alberto, não é para fracasso. (fica andando e pensando um pouco) Nunca é demais lembrar o que o seu irmão disse: se você for preso os presos vão, muito provavelmente, te matar.

 Novo silêncio longo entre os dois. Camilo começa a ler alguns dos jornais em cima da mesa.

 CAMILO

- São todas muito iguais. O mesmo tipo físico, eu estou querendo dizer. Dentro daquele espírito de que a gente precisa se conhecer, eu queria te perguntar umas coisas. Você matou essas mulheres?

MARIO ALBERTO -  Matei.

CAMILO -  Quais?

MARIO ALBERTO -  Todas.

CAMILO -  Quantas mulheres você matou?

MARIO ALBERTO -  Onze.

CAMILO (olhando o jornal) - Essa, você matou?

MARIO ALBERTO -  Matei. Fui eu.

CAMILO -  Como você matava as moças?

MARIO ALBERTO -  Com o cadarço do tênis ou com uma cordinha que as vezes eu levava na pochete. Eu dava um jeito. (pausa, pigarros. Continua com a voz serena). Nunca contei isso pra ninguém, nem pra minha mãe. Eu tenho um lado ruim dentro de mim. É uma coisa feia, perversa, que eu não consigo controlar. Tenho pesadelos, sonho com coisas terríveis. Acordo todo suado. Tinha noite que não saía de casa porque sabia que na rua ia querer fazer de novo, não ia me segurar. Deito e rezo pra tentar me controlar. (longa pausa, fica olhando para Camilo). E você?

CAMILO -  O que tem eu?

MARIO ALBERTO -  Você não disse que a gente tem que se conhecer?

CAMILO (meio sem jeito) - Disse.

MARIO ALBERTO -  Então. Me fala de você.

CAMILO -  Falar o que?

MARIO ALBERTO -  Falar, uai. Viagra, por exemplo. Você já usou Viagra?

CAMILO -  O que é isso, cara? Também a gente não precisa entrar nessas intimidades.

MARIO ALBERTO -  Ah, não? Você quer saber detalhes de como eu matava as meninas e vem me dizer que falar de Viagra é intimidade? (firme, quase autoritário) Você toma Viagra, não toma?

CAMILO -  De onde é que você tirou isso, hein? Nunca tomei Viagra, cara.

MARIO ALBERTO -  Assim não vai ser possível. Você está mentindo pra mim. Se é pra jogar honesto, você não pode mentir pra mim. Você não disse que a gente tem que confiar um no outro?

CAMILO -  Nunca tomei Viagra!

MARIO ALBERTO (mostra um envelope de Viagra) - Caiu do seu bolso, ó. Olha aqui, ó. Viagra. Você é impotente?

CAMILO -  Imagina.

MARIO ALBERTO -  Então tá tomando pra quê? É bom mesmo? Verdade que o negócio fica tinindo? Dá quantas? Três, quatro? Quero saber, cara, vai que daqui a uns anos, né?

CAMILO -  Só tomei uma vez.

MARIO ALBERTO -  Aqui tá faltando duas.

CAMILO -  Duas vezes. E não se fala mais nisso.

MARIO ALBERTO -  Então me conta como é. Fica duro mesmo? Verdade que pode colocar toalha molhada que o bicho segura, não arreia?

CAMILO -  Mario Alberto, com essa conversa a gente não vai chegar a nenhum resultado.

MARIO ALBERTO (sério, ameaçador) - Eu quero saber, cara! Eu preciso saber se esse negócio funciona. Vai, conta. Como é que é? Preciso saber. Depois a gente volta para o ensaio. Vamos, diz aí, o Estanislau fica duro mesmo? Estanislau é o nome do meu.

CAMILO -  Fica. Fica duro.

MARIO ALBERTO -  Quanto tempo?

CAMILO -  Umas quatro horas.

MARIO ALBERTO - Fica duro quatro horas? Seguida?

CAMILO -  Não, durante essas quatro horas, se você tiver desejo, ele fica duro. Bem duro.

MARIO ALBERTO -  Paupacú?

CAMILO -  Paupacú?

MARIO ALBERTO -  Pau para cu!

CAMILO -  Paupacú. (tentando descontrair o ambiente) Paupacú é bom. Gostei.

MARIO ALBERTO - E a sua mulher, como é com ela?

CAMILO - Olha aqui, cara... (percebe que pode levar uma porrada) Não transo com a minha mulher há alguns anos.

MARIO ALBERTO -  E porque não larga ela?

CAMILO - Gosto de variar. Gosto de conquistar, entende? Gosto de novidades.

MARIO ALBERTO -  Nesse ponto a gente é igualzinho. Só que quando eu fui casado eu não comia o - entende? - da minha mulher, não. Fui casado na igreja. Pra mim, bumbum de esposa é sagrado..

DAGOBERTO (vindo dos quartos) - Desculpa interromper, mas acho que tem que ser mais ação e menas conversa.

CAMILO - Duas coisas, deputado. Em primeiro lugar, é menos e não menas. Nem o Lula fala menas mais. Em segundo lugar, vamos dividir as coisas direitinho. Você é o produtor. Eu sou o diretor. Se você quiser dirigir, é outra coisa. Assim não vai dar certo.

DAGOBERTO (faz que nem ouviu) - Quer ver? Bebé, faz cara de louco, faz.

MARIO ALBERTO -  O que?

DAGOBERTO -  Faz cara de louco!

MARIO ALBERTO - Tá louco, Bebé? (Camilo senta-se, desanimado, e fica observando)

DAGOBERTO -  Cara de louco! Vai, vai, faz cara de louco.

MARIO ALBERTO -  Assim, ao natural, eu não tenho cara de louco?

CAMILO -   Infelizmente, não. Infelizmente.

O Mario Alberto faz uma cara tão esquisita, que Camilo nem entende. Mario Alberto está segurando a cara de louco.

DAGOBERTO -    EU SEI QUE NÃO ESTÁ BOM. O QUE VOCÊ TEM QUE FAZER, CAMILO, É CHEGAR NELE (CHEGA E VAI FAZENDO O QUE FALA) PEGAR NO BOCHECHA, OLHA, E IR MOLDANDO, LEVANTA MAIS UM POUCO AQUI, ABRE MAIS O OLHOS ASSIM, DESPENTEIA UM POUCO O CABELO. É ISSO QUE EU QUERO.

CAMILO (para si mesmo) -  Vai ser uma luta! O que é isso?

DAGOBERTO - Cara de louco, ué. Tá ficando ou não tá? Bom serviço. E você, Bebé, vê se colabora.

Dagoberto sai. Camilo anda pela sala, em círculo, com as mãos para trás, segurando a prancheta.

CAMILO (para Mario Alberto) Vou te dizer um palavrão.

MARIO ALBERTO -  Não enche.

CAMILO -  Stanislavski.

Mario Alberto faz cara de quem não entendeu.

MARIO ALBERTO -  O que? Estanislau? Tá a fim de me sacanear?

CAMILO - Stanislavski. É russo, um nome russo.

MARIO ALBERTO -  Quer dizer o que?

CAMILO - É o nome de um cara. Constantino Stanislavski. Se você vai ser ator precisa conhecer esse cara.

MARIO ALBERTO -  Olha aqui, cara,primeiro eu não vou ser ator coisa nenhuma. Esse negócio que o Bebé tá inventando, sei não. Ator. Depois, não estou a fim de conhecer mais ninguém, estou te conhecendo porque é o jeito. E mais ninguém. Ainda mais russo, vou falar o que com o cara?

CAMILO -Já morreu.

MARIO ALBERTO -Quem?

CAMILO -Esse cara, o Stanislavski. Morreu há mais de 50 anos. Esse cara foi um ator e diretor de teatro russo que inventou um sistema, um método pra fazer um ator criar um personagem. Eu quis dizer que você precisa conhecer o que ele disse, o que ele pensou. Pra representar um louco, Stanislavski pode te ser muito útil.

MARIO ALBERTO - Olha aí, manda eu fazer cara de louco, andar de louco, voz de louco e fim de papo.

CAMILO - Faz.

MARIO ALBERTO -O que?

CAMILO -O que você disse pra eu mandar você fazer. Cara de louco, voz de louco, andar de louco.

MARIO ALBERTO (Tentando. O resultado é um horror, pior do que ator de novela imitando nordestino.) - “Eu não sei do que vocês estão falando, eu gosto de sorvete... eu... que luz forte é aquela?”

CAMILO (Morre de rir) - Cadeira elétrica. (Ri mais) Cadeira elétrica. Vão te mandar pra cadeira elétrica. Vão aprovar a pena de morte só pra matar esse teu louco. (Ri ainda mais)

MARIO ALBERTO - Foi a primeira vez. Você não é diretor de teatro? Então diz como é cara de louco que eu faço.

CAMILO -Por isso eu te falei em Stanislavski. O jeito mais seguro, mais, mais eficiente de alguém fazer bem um personagem é usando o sistema do Stanislavski. Na Rússia eles passam quatro anos aprendendo. Mesmo nas escolas de teatro do Brasil, isso leva tempo. E, por outro lado, tem professor que mistura Stanislavski com, sei lá, com banana, tem outros que fazem qualquer coisa e dizem que é Stanislavski, enfim, já existe uma confusão danada. Imagine, o cara morreu há cinqüenta anos, muita gente já escreveu sobre o que ele disse. Só podia mesmo dar muita confusão. Mas assim mesmo ainda é a melhor maneira. De que ator você gosta?

MARIO ALBERTO Aquele do Poderoso Chefão.

CAMILO - Pois o Marlon Brando aprendeu a representar com o método do Stanislavski. Uma adaptação americana do método do Stanislavski. Numa escola dos Estados Unidos chamada Actor’s Studio, onde alguns dos melhores atores do cinema estudaram.

MARIO ALBERTO - Você não quer dizer que eu posso virar um Marlon Brando. Vou?

CAMILO -  Também não é assim.

MARIO ALBERTO -  Se não dá pra aprender a fazer cara de louco, se por esse tal método aí do russo, depois de estudar quatro anos, eu posso só saber representar soldado, então vamos chamar o Bebé e acabar logo com essa bobagera.

CAMILO -   Só que essa bobagera vale a tua vida. Posso até te desanimar mais. Na principal escola russa de teatro, eles passam o primeiro semestre só olhando para objetos, servindo água, segurando um copo, mudando uma cadeira de lugar, depois mais um semestre inventando umas historinhas bem simples para representar com um companheiro, e o professor só olhando, comentando, sem mandar nada. Só lá pelo quarto semestre os alunos começam a trabalhar com personagens de verdade. E a gente aqui só tem uma semana. O próprio Stanislavski ia desistir.

MARIO ALBERTO -  O próprio Estanislau e o próprio animal aqui. Prefiro fugir pro Paraguai.

CAMILO -   Mas eu também posso te animar um pouquinho.

MARIO ALBERTO -  Sabe do que mais? Vão se danar, você e o Estanislau.

CAMILO - Olha só, Mario Alberto. Quando uma pessoa está começando a estudar teatro e quer representar um assassino, o professor que usa o método russo geralmente diz que esse personagem, um assassino, não serve para quem está começando. Porque o aluno não vai encontrar dentro dele nenhum sentimento que possa usar para representar um assassino, que é melhor representar um homem abandonado pela mulher, porque isso todo mundo já viveu, um homem que se apaixona pela mulher de um amigo, porque isso todo mundo já viveu, alguém que perdeu um parente querido, porque isso todo mundo já viveu - enfim, situações que possam se valer de sentimentos que a pessoa já provou. Que personagens que precisem de sentimentos que não se provou é melhor deixar para os alunos mais adiantados, do quarto ano, que podem “inventar” esses sentimentos. Pois bem. Você já pode representar um louco que mata uma pessoa. Porque você já matou, já conhece esse sentimento.

MARIO ALBERTO - Quer dizer que na escola do Estanislau assassino já entra no quarto ano?

CAMILO -   Mario Alberto, me escuta com atenção. A gente vai ter que trabalhar e muito. Aquela cara que você fez, era de tudo, menos de louco. E o meu trabalho é pegar essa cara que você fez aí e ir moldando, como se fosse de barro, até ficar com cara de louco. Mas não pelo método do seu irmão. Sou mais o Estanislau.

MARIO ALBERTO - Não vai dar certo.

CAMILO (nem ouviu) - Essa noite, por exemplo, fiquei pensando no seu personagem. Porque, pra começar, eu tinha que optar entre criar um louco manso ou um louco doido. Está entendendo? Achei que essa era a meta inicial. O começo do começo, o começo do processo. Porque são duas interpretações completamente diferentes, distintas uma da outra. Um louco manso não tem nada, absolutamente nada, a ver com um louco doido. São enfermarias completamente diferentes.

MARIO ALBERTO -  E eu, você pretende o que? Sou louco o que?

CAMILO -   Manso, é claro. Manso. Mas manso com dois lados. Um Louco-Manso-Calmo, durante a maior parte da sua vida. Mas que se transforma num Louco-Manso-Doido quando mata, quando planeja seus crimes. Então temos que trabalhar em cima do Louco-Manso-Calmo e do Louco-Manso-Doido, porque vamos usar os dois, os seus dois lados. Deixando, definitivamente de lado, o Louco-Doido-Simples.

 Entra Dagoberto, dos fundos, com sanduíches.

Dagoberto coloca o embrulho em cima da mesa, senta-se para assistir ao ensaio. Camilo interrompe o clima.

DAGOBERTO - Pode continuar.

CAMILO (se aproxima dele) - Sabe o que é, deputado, é que. Confia no meu trabalho, não confia?

DAGOBERTO -  Claro. Aliás, toma isso. (Camilo pega, lê, sério, sabe o que aquele papel significa para ele) É o recibo do pagamento. Depositei 35 paus na sua conta, preenchi aquele me você me deu e entreguei lá no escritório. Olha aí, com firma reconhecida e tudo.  Diz que te manda a escritura definitiva na semana que vem. Pode confiar, mandei investigar, a imobiliária é honesta. E, caso não fosse, ficaria sendo, percebes?

CAMILO (se afasta com o papel na mão, olhando, sabendo que já recebeu a primeira parcela do seu trabalho) - Deputado, é o seguinte.

DAGOBERTO - Nem pra agradecer? Perdi a manhã toda com isso.

CAMILO - Eu tenho uma maneira de trabalhar que é a seguinte: a produção tem que ficar de fora. Já disse isso uma vez. Produtor assistindo ensaio só dá complicação. Vai por mim. Tou há mais de trinta anos no ramo. Nunca deu certo. E não vai ser num trabalho como esse, dificílimo, que a coisa vai ser diferente.

DAGOBERTO -Tudo bem, tudo bem. (levanta-se) Mas eu, como produtor e investidor, preciso saber sempre a quantas anda o trabalho.

CAMILO - Claro, te faço um relatório todo dia.

DAGOBERTO - Senti firmeza. E o ator aí, como é que vai? Faz  cara de louco, faz.

CAMILO - Por favor, deputado. De novo, não. (...) Se ele não colaborar, não vestir a camisa do personagem, não incorporar.

MARIO ALBERTO - Bebé, eu acho mais fácil ir para o Paraguai. O presidente é teu amigo/

DAGOBERTO - Não é mais ele. Mas que Paraguai, Bebé. A gente vai tirar isso de letra. (sai)

 Mario Alberto senta-se novamente. Camilo  senta-se na frente dele)    

CAMILO  -   Me conta da tua tia.

MARIO ALBERTO -  (irritado) O que? Que tia, meu? Como é que você tá sabendo disso? Bebé! Bebé (volta Dagoberto)

DAGOBERTO -  O que é?

MARIO ALBERTO -  Tu tinha que contar da tia Daví pra ele? Tinha? O que que tem a tia Daví com o fato deu virar louco?

CAMILO - Tudo.

MARIO ALBERTO - Dagoberto, eu não sabia que era assim não, esse negócio. O cara parece médico de louco! Vai logo pegando duro, indo lá na ferida. Eu achei que representar era só fazer a cara, o jeitão e pronto. Assim é difícil demais, meu!

CAMILO - Tá vendo, deputado, assim não vai dar. Ele tem que entender que pra gente trabalhar junto, eu tenho que saber quem é ele.

MARIO ALBERTO -  Por acaso eu estou aqui perguntando se você comeu a sua tia?

CAMILO -   Não é bem isso.

MARIO ALBERTO - Claro que é bem isso.

DAGOBERTO - Você quer desistir no primeiro dia?

CAMILO - Olha, deputado, eu tenho uma amiga que, além de figurinista, é psicóloga. Na verdade ela era psicóloga, formou comigo, mas como a profissão dela. Sabe como é, né? Tem psicóloga demais no Brasil. Toda garota que tem problema com o pai, vai estudar psicologia. Já existem estatísticas sobre o assunto. Tá certo que tem muito louco no Brasil, além de nós três. Mas que tem mais psicóloga do que louco, isso tem. Mas é uma puta figurinista e eu estava pensando. A parte psicológica da personagem.

MARIO ALBERTO -  Do personagem. Qualé, meu?

DAGOBERTO -  Mas o que é isso? Pensando em trazer toda a sua equipe pra cá? Daqui a pouco vai querer chamar a imprensa para assistir ensaio aberto. Já disse, se não disse digo agora, que os figurinos são seus também. Querendo descolar uma graninha para a sua amiga, as custas de moi? O que que há?, tá de caso a menina?

CAMILO - Mas não é por isso. É que ela podia/

DAGOBERTO (cortando) - Camilo, cê tá pensando que eu nasci ontem? Você acha que eu sou assim ó, com os homens, por que?

CAMILO - Melhor parar com essa loucura. Falando de empregado pra patrão. Esses 35 paus ficam por conta do meu silêncio. Uma palavra de honra. Agradeço muito, pode confiar em mim.

DAGOBERTO - Tem nada de palavra de honra, não! Continua isso aí. E você, Bebé, vê se colabora. Senão, já disse, vão te matar. Os presos não perdoam. E, ainda por cima, te estupram antes! E eu, como é que eu fico com um irmão morto numa situação dessas?

 Sai.

Camilo vai até a mesinha, corta um sanduíche de mortadela pelo meio com as mãos e começa a comer, olhando para Mario Alberto que não está nem aí. Olha pela janela.

MARIO ALBERTO - (olhando pela janela) - Gostosa! Sobe aqui, sobe.

CAMILO (se aproxima, interessado) - Qual?

MARIO ALBERTO -  A de calça lee. Isso que me deixa doido. São daquele jeito, sabe? Morena, “meia” baixa, “meia” alta, quase abaianada, quase mulata, o cabelo quase ruim, que desce moreno, mas todo enroladinho. Se for meio aloirado, melhor ainda. Mas aí já é pedir demais. Deus não é tão grande assim. Os beiços. Os beiços são fundamentais. Mulher tem que ter beiço. Essa aí eu comia inteira. Ia arrancando pedacinho por pedacinho na dentada. Adoro comer mulher crua.

CAMILO (dando força pra ele continuar, pois não entendeu o comer que Mario Alberto se referia)) - É, beiço é fundamental. E a bundinha, como é que você gosta da bundinha?

MARIO ALBERTO -  Arrebitadinha, é claro. Mas não muito. Um pouquinho de culote só. Só um pouquinho, daqueles que deslizam-presos pela calça bem justinha, sabe? Bem justinha mesmo. Se peidar, arrebenta.

CAMILO -   E os peitinhos? Durinhos?

MARIO ALBERTO -  Igual daquela. Olha lá, vai virar a esquina, a sacana. No final, cara, eu mandava elas tirar a roupa, mas ficar de calcinha e soutien. Mulher inteira pelada não é muito legal, não. Dá a impressão que estão frias, já notou? Mulher tem que ter alguma coisa em cima do corpo. Nem que seja um curativo no joelho, meio de lado, meio solto. Tem que ficar de calcinha pra eu poder arrancar com os dentes. Mas não é vontade de transar que eu tenho, cara, eu tenho vontade é de comer. Comer igual coxinha de galinha. Segurando assim dos dois lados, com as mãos, meter a boca, se lambuzar todo. A coisa escorrer pelo pescoço da gente. Chupar a pele, devagarinho, sem pressa. A última eu quase comi inteira.

CAMILO (percebeu que estava indo longe demais) - OK, OK, Mario Alberto. Senta aqui.

MARIO ALBERTO (limpa o suor) - O culote é a melhor parte. Podes crer! Filé mignon puro!

 Toca o telefone. Silêncio. Dagoberto entra e atende.

DAGOBERTO (antes de atender) - Ou é o doutor Paulo ou o seu argentino. Só os dois tem o telefone daqui. (atende) Doutor Paulo? Um momento. (sai com o sem fio)

CAMILO -  Esse doutor Paulo é o seu advogado?

MARIO ALBERTO - Não, é o homem do partido dele aqui em São Paulo. Donde é que você pensa que vem essa grana toda que você está ganhando, meu?

CAMILO -  Quer dizer que tem mais gente que sabe disso aqui?

MARIO ALBERTO - O nosso advogado e o doutor Paulo.

CAMILO -   Esse doutor Paulo? É quem eu estou pensando?

DAGOBERTO -  E eu sei lá em quem você está pensando.

Camilo se levanta, vai comer o outro pedaço do sanduíche. Mario Alberto também se serve de comida e abre mais uma garrafa grande de coca. Ficam os dois comendo em silêncio.

CAMILO - Precisamos arrumar um nome para esse seu personagem.

MARIO ALBERTO -  Como é que é? Como, nome?

CAMILO - Todo personagem tem um nome. Você é o Mario Alberto, assim. Mas o que estamos criando é uma outra pessoa. Essa é a magia do teatro. A gente virar, por um período de tempo, outra pessoa. Enganar o público, entende? Então esse nosso personagem tem que ter um nome. (fica olhando para o sanduíche, pensando) Vai se chamar Irmão Beltrão.

MARIO ALBERTO -  Irmão Beltrão? Por que Irmão Beltrão?

CAMILO - Não sei. Bateu. Bateu forte. Talvez tenha vindo na minha cabeça o Nelson Irmão Beltrão um velho amigo, irmão, que morreu. Morte besta. Puta ator, morrer daquele jeito. Ele dizia pra mim que o sobrenome dele, Irmão Beltrão era, na verdade, Mario Alberto. As mesmas letras, sabe?, misturadas. Tem um nome esse negócio das mesmas letras, que me fugiu agora. Tô vendo a palavra na minha frente, mas não vem, entende? Como é mesmo o nome dessa porra, meu?

MARIO ALBERTO - Quer dizer que é assim que dá nome para o personagem? Bateu? O cara que inventou o Tarzã, por exemplo. Tava assim, comendo um sanduíche e de repente falou Tarzã! e virou Tarzã?

CAMILO - Provavelmente.

MARIO ALBERTO - O Batman também?

CAMILO - Provavelmente.

MARIO ALBERTO -  E você acha legal Irmão Beltrão, pra mim?

CAMILO - Se você colaborar, pode dar um ótimo Irmão Beltrão. Um Irmão Beltrão inesquecível. Para você e para mim. Faz aí, de novo, a cara de doido? (ele faz, igual da primeira vez) Sabe que melhorou?

MARIO ALBERTO - É mesmo?

CAMILO - Te juro

 B.O.