EU FALO O QUE ELAS QUEREM OUVIR

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CENAS:  um, dois, três, quatro, cinco, seis


Entram, pela porta, Dagoberto Pereira Barreto e Camilo Filho.

Dagoberto, 49 anos, bem vestido para quem é do Tocantins e deputado federal. Roupa esporte. Baixo. Percebe-se que a origem familiar é baiana. Rico, muito rico. Fazendeiro. Casado, putanheiro. Sabe beber. Tem o desagradável hábito de ficar coçando, literalmente, o sexo.

Camilo, 50 anos, mas se veste como nos anos 70. Usa um certo cabelo desalinhado, calça lee limpa. Tênis. Uma bolsa grande, quase mochila. No fundo, ainda agrada, é um homem bonito.

Dagoberto está calmo. Camilo não faz idéia do que esteja acontecendo ali. Entra e dá uma geral no apartamento. Sala grande, coisa fina, um pouco cafona. Mas rica.

DAGOBERTO-  Data vênia, desculpa o jeito. Esse disfarce ridículo. Estou sendo seguido, é claro. Sei que o figurino é meio extravagante. (tirando um revólver da cintura e colocando numa gaveta) Senta. (Camilo senta, tenso. Dagoberto tira uma peruca de cabelos branca, uma barba postiça). O seu nome é Camilo Filho, 55 anos,você é diretor de teatro - dos mais brilhantes, diga-se de passagem -, casado com a, por uma estranha coincidência, Camila. Tem três filhas, nenhuma com ela. Formado em psicologia, pós-graduado com tese sobre a loucura. Nunca exerceu. Seu pai morreu há dois anos. A coisa tá feia lá em Porto Alegre, não tá? Você não tem de onde tirar o dinheiro para completar a compra do apartamento, no que você mora. Sei que 35 paus não é fácil conseguir hoje em dia. Principalmente um diretor de teatro como você, que teima em não ser comercial. Fora Diário de um Louco, você ganhou dinheiro com o quê? Prêmios, tá certo. Prêmios e mais prêmios. Há dez anos vem adiando a viagem com a Camila para Paris. Mas do jeito que você quer. Com grana. Paris sem grana só nos anos setenta, não é mesmo? Você começou como ator em Hair, em 1969, lembra? Sonia Braga. Mas vamos ao que interessa. (pega um jornal numa pilha cheia deles, em cima da mesa central, leva para ele, aponta uma matéria e manda ele ler) Lê isso aqui. Tarado da Cantareira, reconhecido, fugiu da polícia. Lê aí.

Camilo tira uns óculos de leitura da bolsa e começa a ler. Dagoberto vai até o barzinho e se serve de uísque, sem tirar os olhos de Camilo. Já vai voltando, resolve dar uma dose para  Camilo, enche mais um copo, ambos sem gelo e vai até ele. Entrega. Camilo recusa, lendo.

CAMILO- Posso falar?

DAGOBERTO- Deixa eu me apresentar. Meu nome é Dagoberto Pereira Barreto, sou deputado federal por Tocantins. Talvez, nos últimos dias, você tenha lido o meu nome nos jornais (Diretor faz que “não, infelizmente”). Infelizmente, no setor policial, com chamadas na primeira página. Sou do interior da Bahia, fomos para Palmas antes daquilo virar estado. Boi - muito boi - e mineração. Sou candidato a governador. Mas já andei no jatinho do governo. No antigo, que não dava nem para ficar em pé. Agora tem um mono. Me esperando. Seis lugares, sala de reunião e duas camas no fundo. Além do bar, é claro. Autonomia de vinte mil quilômetros. Dá para ir almoçar, pra ir comer uma carne no Texas e voltar, sem a patroa nem perceber. Só esse avião já bastava pra mim querer ser governador. Mas eu sonho muito mais alto do que dez mil metros de altitude. Casado, seis filhos. O que mais poderia te dizer? No norte do estado, nas cidades de Xambiá, Filadelfia e Peritoró, extraio basalto. Filadélfia é muito conhecida pelos seus pistoleiros. Pistoleiro que, por uma ninharia, você contrata e eles fazem o que você quiser. O que quiser. Fazem qualquer negócio. Se você quiser dar um sumiço no Papa, é lá mesmo. Na região do Araguaia tenho boi e porco. Também colho e exporto babacú, mamona e pequi. Lá, sou conhecido como o Rei do Pequi. Sabe o que é pequi? Vocês aqui do sul não tem idéia do que seja o Brasil. Debaixo de todo o estado do Tocantins tem ouro, rapaz! Muito ouro. (mexendo nos livros da estante)Minha mulher é intelectual. Formada em letras na Bahia, dá aulas na Unitins, Universidade do Estado de Tocantins, muito boa, por sinal. Devoto de Nossa Senhora das Mercês. Também leio muito. Estudei em colégio salesiano. Sei latim. Mas, vamos ao que interessa. Com o passar dos dias, você irá me conhecendo melhor.

CAMILO- Posso falar?

DAGOBERTO(calmo) - Não, Camilo. Deixa eu terminar, aí você fala. Pode parar de ler. Sei que já leu o suficiente. Esse cara aí, que estuprou e matou onze mulheres, é meu irmão.

CAMILO- O Mario Alberto (lendo) Pereira Barreto? (o outro faz sim com a cabeça)

DAGOBERTO- Tá ali. No quarto. (apontando no jornal) Olha aqui: irmão do deputado Dagoberto Pereira Barreto, candidato a, etc, etc, etc.

CAMILO- Você podia fazer a gentileza de me explicar o que está acontecendo? Eu ia saindo calmamente do teatro, você encostou um revolver na minha cabeça/

DAGOBERTO-Foi um seqüestro sim. Se você está querendo saber se o que aconteceu foi um seqüestro, foi. O deputado Dagoberto Pereira Barreto (aponta-se) seqüestrou o diretor de teatro Camilo Filho.

CAMILO-Isso eu sei. Percebi.

DAGOBERTO-Não quer mesmo o uísque?

CAMILO- Úlcera.

DAGOBERTO- Meu pai tinha isso. É complicado.

CAMILO- É, é complicado. O que mais sabe de mim?

DAGOBERTO-Digamos que quase tudo. Não ia te seqüestrar sem mais nem menos. Sem saber o produto que poderia vender.

CAMILO- Você não acha que já está na hora de abrir o jogo?

DAGOBERTO(grita) - Bebé! (para Camilo)Ab jove principium.

Camilo - Como?

DAGOBERTO - Ab jove principium. Principiemos por Júpiter, ou seja, comecemos pelo primeiro personagem.

Entra Mario Alberto.

Mario Alberto - Ao contrário do que você estava imaginando, Mario Alberto Pereira Barreto Junior é um rapaz bonito, do tipo desalinhado mesmo. Descabelado e magro. Nem feio, nem bonito. Mais para o bonito. Parece ter olhos claros. Sofrido, parece que nunca sorriu na vida. 30 anos.

DAGOBERTO-Esse é o Mario Alberto. Camilo.

OS DOIS - Prazer.

Mario Alberto olha nos olhos de Camilo como os lutadores de boxe antes de começar a luta.  Camilo fica sem jeito. Mario Alberto vai ao bar, pega uma garrafa grande de coca, abre e vai bebendo para o quarto.

DAGOBERTO - Tudo bem com a família?

CAMILO- Tudo bem.A Camila está com uma gastrite e. Mas isso não vem ao caso.               

DAGOBERTO- Gastrite é complicado!

CAMILO- Se você sabe tanto da minha vida, já deve ter percebido que eu não valho um tostão puto furado na praça. Ninguém vai te pagar nada por mim.

DAGOBERTO- Quero dinheiro, não, Camilo. Mas antes que alguém dê pelo seu desaparecimento, você vai ligar para a Camila, lá pru Rio, e dizer que acabou de receber um convite para dirigir um espetáculo na Argentina e está partindo daqui a pouco. Diz que vai ficar lá uns dez dias, que liga de lá, e tal. Tudo com a maior naturalidade do mundo. Espero não ser obrigado a dizer para o Tarado da Cantareira onde está a arma.

CAMILO- Só que esse negócio do Argentina não vai dar certo. Ela logo vai ligar para o Badaró atrás de mim.

DAGOBERTO- Badaró Castillo, o argentino que te abriu as portas de Buenos Aires, não é esse? Pois, logo em seguida de falar com a Camila, vai ligar para o Badaró, dizer que conheceu uma gatinha de 20 aninhos, que faz teatro amador lá em Olinda, que está apaixonado, que a menina é uma coisa, que sabe Shakespeare de cor, em inglês - com sotaque nordestino, o que é bastante excitante -, que você tá pirado com ela e que você vai passar uma semana com ela num motel e vai pra lá daqui a pouco e disse para a Camila que vai para lá, Argentina. Certo? E quando ela ligar para o Argentina, você dá o telefone daqui, ele te liga, você diz que isso aqui é o apê de um amigo em São Paulo. Assim você fica em contato com a sua mulher, numa boa. E pode ir adiantando para ela que esse projeto, dessa vez sim, tem muita grana. Produção do Mercosul inteiro, tem até gente de Brasília envolvida, coisa de primeiro mundo. Certo?

CAMILO- Pelo que eu entendi, ou eu faço isso ou vocês me matam, somem comigo, alguma coisa assim?

DAGOBERTO(frio)- Alguma coisa assim. (quase teatral) Digamos que essa viagem não tem mais retorno. E temos data para a estréia. E grana, muito grana, meu caro prêmio Moliere. Vai, vai telefonar. E nenhuma gracinha, entendeu? Nós simplesmente te apagamos. Quem matou onze, um a mais, não é mesmo?

CAMILO(pega o celular na bolsa, disca) - Camila? É, eu imaginei. Tudo bem? Não, não fui para o hotel ainda. Como é que tá tudo aí? (fica ouvindo) Ah, ligou, é? Mas eu já falei com a diretora do colégio, já acertei tudo. Quer dizer, fiquei de acertar. (Camila fala muito) Mas a Luíza é mesmo uma vaca! Tudo bem, tudo bem, não vamos discutir isso agora. Não, não acho mesmo. Já disse, já disse, depois a gente fala disso. Não, não estou adiando nada. É que o momento não é o ideal, né? Por telefone. Não, não, não, Camila. As coisas não foram bem assim. Você tá deturpando tudo. O que é isso, tá louca? A Fabiana não tinha nem três anos. Foi demais, Camila, você fazer a menina assistir o Batman, em inglês. Custava levar a menina onde tava passando dublado? Tá certo, não foi o Batman, foi o Superman. (ironizando) Um ou dois? Superman 1 ou 2? Vai você! (Bate o telefone).

DAGOBERTO- O que é isso? Pirou. E o combinado, Argentina...

CAMILO- Juro, esqueci. Comecei a me empolgar com a história da Fabiana e sempre acaba nisso. É que a Fabiana é uma adolescente cheia de minhoca na cabeça. E a terapeuta dela disse que os problemas delas - todos - se originaram no dia que ela foi assistir, forçada, o Batman.

DAGOBERTO- Superman.

CAMILO- Isso.

DAGOBERTO- Esse negócio de terapia é um negócio muito... Muito... Muito complicado. Veja você. Pelo que eu entendi, a sua filha, que não é filha da sua mulher, foi levada por ela, sua mulher, de sacanagem, para assistir o Superman sem dublar. E o que é que eu tenho com isso? Vamos, liga de novo e faz o que já devia ter feito. Que que eu tenho a ver com os problemas de adolescente da sua filha? Se eu começar...

CAMILO- Adolescência é complicado!

DAGOBERTO- É complicado! Vamos, liga lá. E, pelo amor de Deus, nada de Fabiana.

CAMILO(disca e, quando atendem, fala bem rápido) - Estou na Argentina! Estou na Argentina! Seguinte, pintou um negócio agora lá no Argentina, no Teatro Colon. Coisa finíssima. Tou indo pra lá. (ouve) Não, Camila, dessa vez tem grana. Amanhã te ligo de lá. (ouve) Tem, Camila. Pelo que eu entendi, é uma super-produção. (ouve)Amanhã eu te explico direito. Os remédios? Tão na bolsa. Acho. Beijinho. Eu também.

DAGOBERTO- Você não devia ter desistido da carreira de ator. Gostei.

CAMILO (que desligou e ligou para o Badaró, no Argentina. Fala em portunhol) - Madrediós? Camilo. Bien, tudo bien. Tá indo bien. Quer decir, aquele publicozito de siempre. Pero acá está mejor que en Rio. La  critica estuvo mui bien. Tá bem, tá bem, tá ótima. Falei com ela agora. A Fabiana? (Dagoberto olha feio para ele, pede para ele acelerar)  Seguinte, eu estou em São Paulo. O Badaró está? Si, si, nada grave. Pero, Madrediós, pida que Badaró me chame en lo celular, está bien? Dô, dô sim. Otro pra ti. Besos. (desliga) Não dava para abrir com ela. Ela é amiga da Camila. Não ia dar certo.

DAGOBERTO- Você foi muito bem.

CAMILO- Posso saber agora o que é que está se passando? O que é que vocês querem de mim?

DAGOBERTO- O Mario Alberto matou onze mulheres. Fora as que ele tentou e não conseguiu. Essas vagabundas, as sobreviventes, depuseram, deu a maior confusão. Você deve ter acompanhando pelos jornais e pela televisão. Resumindo: o Mario Alberto fugiu. Ninguém sabe onde ele está. Os jornais estão dizendo que ele foi visto no Paraguai. É incrível, sempre que alguém foge do Brasil a imprensa e os policiais desconfiam que ele esteja no Paraguai, já notou isso?

CAMILO(pensando, ouvindo bem, atento) - É verdade.

DAGOBERTO- Ninguém poderia imaginar que ele está em São Paulo, nos Jardins, no apartamento do irmão deputado. Ali, naquele quarto. Também ninguém sabe que eu tenho esse apartamento, percebes? Vamos ao que interessa. Isso, além do meu irmão estar ferrado, é claro, vai ferrar de vez com a minha carreira. Queria, quero e vou ser a governador do meu estado, o Tocantins. E não quero ver o meu irmão preso o resto da vida, isso se alguém não enfiar uma faca nele assim que ele entrar na penitenciária. Esse meu irmão, somos oito, é quase como um filho. Quando ele nasceu eu já servia o exército - aliás, sou tenente da reserva, com muito orgulho, diga-se de passagem. Implico até com o tamanho do cabelo dele, percebes? É como se fosse um filho. Meu filho mais velho. Ele sempre foi assim, meio doido.

CAMILO- Meio doido?

DAGOBERTO- É. Meio. Mas não é doido desses que você olha e diz que é doido, percebes? Meio esquisito, complicado,vamos dizer assim. Desde pequeno, essas coisas ligadas a sexo. Ele teve uns probleminhas - coisa à toa - com uma tia nossa, a tia Daví-   ah, a tia Daví!- , mas isso ele vai te explicar melhor depois. Claro que é uma pessoa que estupra onze mulheres e depois mata elas. Eu até desconfio, cá entre nós, que foram mais de onze. Mas isso não vem ao caso. Não que ele seja doido. Mas ele tem umas manias. Desde pequeno que tem umas manias esquisitas.

CAMILO- Você podia contar, pelo menos uma das manias dele?

DAGOBERTO-  Isso é importante? Digo, para o trabalho?

CAMILO-  Trabalho?

DAGOBERTO- Uma mania dele? Deixa eu ver se lembro duma boa. Deixa eu ver. A gente era oito, já falei, né? Morava quase tudo junto, lá na fazenda. Em dois quartos. Sabe a mania que ele tinha? De tirar as nossas cobertas, de noite. Ele tinha uns doze anos quando começou a fazer isso. Só que ele fazia isso de uma vez só. Puxava a coberta de todos de uma vez só. Sabe o que ele fazia? Amarrava linha de pescar em todas as cobertas, nos dois quartos, levava as linha lá para fora, onde amarrava uma na outra. Depois, amarrava todas numa só, saía para o quintal, amarrava no rabo do cachorro, dava um ponta-pé no cachorro, que acordava e saia correndo, patinando e latindo. Todo mundo acordava assustado. Até aqui tudo bem. O pior é que ele não conseguia dormir sem fazer isso todo dia. Principalmente no  inverno. A gente só conseguiu acalmar ele, quando combinamos que ele podia amarrar todo mundo, mas não valia puxar. Então, toda noite, ele só conseguia ir dormir depois de amarrar todo mundo. Isso era uma complicação, porque alguém acordava de noite para ir ao banheiro, tropeçava numa só linha que fosse e descobria todo mundo. Esse inferno durou anos. Eu tenho uma tia - aquela - que dizia que o menino tinha problema. Meu pai dizia que era falta de couro.

CAMILO- Deputado, desculpa, mas eu não estou entendendo nada. Nada! Onde é que você quer chegar?

DAGOBERTO- Já chego lá. Só tem uma maneira, senhor Diretor, do Bebé escapar da cadeia, da penitenciária. É a defesa alegar que ele é doido. Doido varrido. Desses que quase babam. Desses que você olha na televisão e diz: esse cara é doido. Cê tá me entendendo, Camilo? Ele, sendo doido, vai ser internado e eu limpo a minha barra política, entendeu? Doido é doido, não sabe que está fazendo ou fez. O cara teve problemas de sexo na infância, na adolescência, pirou. Acontece. Uma vez ele no manicômio, depois eu tenho jeito lá em Brasília para tirar ele de lá. Coloco ele lá na minha fazenda e o Brasil, questão de pouco tempo, esquece de uma vez do Tarado da Cantareira. Afinal, ter um irmão louco, todo mundo tem, mesmo. Quem é que não tem um irmão louco? Normal.

CAMILO- Mas, pelo pouco contato que eu tive com ele, ele não parece ser louco. Talvez um pouco fechado. Ele não tem as características de um louco normal. Normal que eu digo é... entende? Um louco mesmo, de carne e osso.

DAGOBERTO- É esse o ponto, meu querido Diretor.

Toca o celular de Diretor.

DAGOBERTO- Veja lá, hein?

CAMILO- Deixa comigo. Badaró? E aí, rapaz! (...) Obrigado, obrigado. (...) Parece que dessa vez vou até ganhar um dinheirinho. Quando é que você vem assistir? (...) Pelo jeito fica uns seis meses. O público adora, Badaró. (...) Tá bem, estão bem também. (Dagoberto faz sinal para ele entrar logo no assunto) Sei, eu também gostei muito. Saiu um outro livro dele agora, depois de mando. Negócio de vidas passadas. (...) É, tá na lista da Veja. (...) Badaró, é o seguinte. Tou precisando que você me quebre um galho. Arrumei uma gatinha de Olinda, uma garota, atriz e (...) Vinte, Badaró. Vinte aninhos. (...) Melhor, muito melhor. Ora, Badaró, você sabe que todas as meninas de vinte anos são lindas.(...) Mas que Viagra, Badaró. Com uma menina de vinte anos não precisa dessas coisas, não. Mas é o seguinte: disse para a Camila que estou indo praí. Ficar uma semana. Disse que pintou uma senhora produção envolvendo todo o Mercosul, etecetera e tal. Mas eu vou ficar com a menina aqui no apartamento de um amigo. Não, estou em São Paulo. Anota aí o telefone, caso ela te ligar aí, você me liga aqui. (pega o papel com Dagoberto) Onze, né? 9883.7770. Não,70. Certo? Então, se ela ligar, você me avisa e eu entro em contato com ela. Tá entendendo? Estamos conversados? Sabia que podia contar com você, Badaró. Fica tranqüilo que eu não vou sumir, não. Eu dou notícias. Pode deixar. Fico te devendo essa, hein? Tá bom, tá bom. Outro, querido. Um beijo. (desliga) Fui bem?

DAGOBERTO- Beijo? (muda o tom) Ótimo. Bem, agora que você já está no Argentina, vamos ao que interessa. Você vai dirigir o Mario Alberto!

CAMILO- Dirigir o Mario Alberto?

DAGOBERTO- Você vai pegar o Mario Alberto e transformar o Mario Alberto num louco. Um louco que ninguém duvide da loucura dele.  Basta olhar para ele, ao vivo, ou pela televisão, e até mesmo em fotos de jornais, para não se ter nenhuma dúvida, a menor dúvida de que o cara é louco e, conseqüentemente, precisa de tratamento e não de prisão. Desde o momento que ele sair daqui, pegar o taxi, chegar na Federal, se apresentar, etc. Tem que ser um louco. Não só a postura, mas as frases que ele tem que dizer, tudo, tudo, tudo. O penteado, tudo. E se eu te escolhi, depois de muito pesquisar, é porque eu sei, eu tenho certeza que você é o diretor adequado para isso. Confio em você, Camilo Filho. Sei que esse espetáculo, vamos dizer assim, será o maior desafio da sua carreira. O seu maior e melhor trabalho. Você terá o Brasil inteiro como espectador. Milhões e milhões de pessoas vão assistir esse seu trabalho ao vivo e a cores. Você não vai precisar ficar na porta do teatro, contando quantas pessoas pagam o ingresso. O seu espetáculo, Camilo querido, vai estar em todas as televisões do Brasil, durante horas, durante dias. Primeira página de todos os jornais. E esse espetáculo, querido Camilo, tem que ser, repito, tem que ser um sucesso de público e de crítica. O seu trabalho será visto do Oiapoque ao Chuí. Todas as classes sociais, os ricos e os pobres, os cultos e os ignorantes, católicos e igreja universal, em mansões e nas favelas. Não se fala em outra coisa hoje no Brasil a não ser no meu irmão. Ele é o personagem do momento. E eu te dou, de mão beijada, a direção do espetáculo. É pegar ou morrer.

CAMILO(literalmente de boca aberta) - Não sei o que dizer. Você está me propondo que eu, eu, seja cúmplice do assassinato de onze mulheres!

DAGOBERTO- Eu não estou te propondo isso. Estou te propondo dirigir um espetáculo teatral. Sei da sua capacidade. A estréia e as demais sessões têm que ser um sucesso. Casa cheia. Você não pode falhar, Camilo. Cem mil reais assim que ele der entrada no manicômio judicial. Dois anos para você e sua mulher em Paris, num apartamento já alugado em Marais, a um quadra do Sena. E tudo o que você está devendo hoje, pago. Assim que você disser o sim, hoje mesmo, já começamos a pagar todas as suas dívidas. Inclusive os 35 mil do apartamento. (pega o celular dele que está em cima da mesinha e coloca no bolso) Cê tá me entendendo?

CAMILO- Tô. Você foi de uma clareza shakesperiana. Ser ou não ser, não é mesmo?

DAGOBERTO- Aqui só vale o ser.

CAMILO- Tou fora, cara! Tou fora!

Dagoberto pega Camilo pelo colarinho, quase que o levantando.

DAGOBERTO-Acho que você não está me entendendo direito, rapaz!

CAMILO-cai em si)Duas perguntas. O seu irmão tem alguma experiência teatral?

DAGOBERTO- Nunca entrou num teatro. É bicho do mato mesmo. Não teve a sorte de ter uma mulher como a minha, formada em Letras, que fala inglês correntemente - precisava ver ela na Disney, arrasou! -, que mudou muito a minha vida. A Lourdes adora o seu trabalho, por exemplo. Foi com ela que eu aprendi a gostar e a entender de teatro. Gosto mesmo. Sempre que estou em São Paulo ou Rio reservo uma noite para o teatro.  Escreve uns poemas, a Lourdes. Qualquer dia te mostro. Segunda pergunta.

CAMILO- Ele está sabendo desse seu plano?

DAGOBERTO- Claro. E, mais claro ainda, disposto a colaborar.

CAMILO- Mas eu estou falando em talento. A pessoa para interpretar tem que ter um mínimo de talento.

DAGOBERTO- Tem nada! Vejo muito ator sem talento aí na televisão.

CAMILO- Mas estamos falando em teatro. Tem que ser um ator muito bom para representar um papel desses. É um papel difícil. Vamos e venhamos!

DAGOBERTO- Estamos perdendo tempo, meu caro Diretor. Você tem que começar a ensaiar logo. Estreamos dentro de uma semana. A data e a hora da estréia já foram anunciadas. Deve sair nos jornais de amanhã. Você tem uma semana.

CAMILO- É pouco tempo.

DAGOBERTO- Repito: uma semana! Vinte e quatro horas por dia. Pelas suas perguntas, parece que aceitou a proposta. Sou um bom produtor. Pago em dia. Cumpro meus compromissos. Os figurinos também ficam por sua conta. Não era seu o figurino do Diário de um Louco?

CAMILO- Olha, realmente eu não sei o que dizer. Já dirigi espetáculo até dentro de ônibus, em buraco de metrô, ao ar livre/

DAGOBERTO- Pois agora vai ser via Embratel. Horário nobre. Oitenta milhões de espectadores.

CAMILO- E se não der certo?

DAGOBERTO- Você vai amanhecer boiando no Rio da Prata, em Buenos Aires. Você e o Badaró, é claro. (serve-se de outro uísque) Você precisa de algum material para o trabalho? Não quer mesmo uma dosezinha?

CAMILO(vai até o bar, dá uma virada do uísque e leva a mão imediatamente ao estômago) - Uma lousa e uma fita crepe. Preciso de umas horas para estabelecer um plano de trabalho. Traçar umas coordenadas.

DAGOBERTO- O seu quarto é o último do corredor. Ah, todas as janelas do apartamento têm grades. Não por você, mas sou eu mesmo que tenho um certo medo de olhar pela janela. Me dá vontade de pular. Dizem que isso é normal. Tem um nome isso.Todos os meus apartamentos têm grades. (estica a mão para Camilo)

Os dois dão um aperto de mãos, selando o contrato.

Camilo tira uma prancheta, já com papel, da mochila. Seu trabalho vai começar.

DAGOBERTO- Vem comigo. Vem conhecer o seu novo guarda-roupa. Tem a sua cara. Acta est fabula.

CAMILO- Como?

Dagoberto - Acta est fabula. Está representada a peça.

Os dois entram para os fundos, fechando a cena. Antes, porém, Dagoberto pegou o revólver na gaveta e girou no indicador, como os pistoleiros de cinema, bem teatral. Sorriu para si mesmo. Colocou na cintura, feliz. O homem estava contratado.

BLACK-OUT