1 - Não quero fazer nenhuma
exigência segundo uma estética teórica. É difícil num país-enigma como o Brasil,
olhar de um ponto de vista absoluto para apreciar uma peça de teatro. A peça de Mario
Prata e, sem dúvida, uma situação trágica, mas seu talento de escritor consegue
colocar um quadro negro em um monstro cor de rosa para demonstrar que somos todos uns
caçadores de rolinhas. É uma bela peça.
2 - Mario Prata olha o mundo e seu
movimento com uma visão crítica avassaladora e enxerga com seus olhos, os olhos que
estão vendo seus olhos. E é um olhar dolorido sobre seus personagens sem um sentido
moral suficiente para condenar delitos de ordem sexual: Dagoberto, deputado federal e
candidato a governador em Tocantins - Camilo, um diretor teatral em crise como todos os
diretores teatrais do Brasil - Mário Alberto, um caçador de rolinhas (verdadeira
transfiguração para o teatro da estória do maníaco do parque) com a perspicácia
matreira de levar meninas para o abismo - e Daví, a tia que é puta, reputa, arquiputa,
neta de puta, filha da puta horizontal... (afinal, quantas vezes ouvimos falar: tudo
começou a partir da tia...)
3 - Todos sabem que a psicanálise
está acabada. Está acabada porque faz mais perguntas do que é capaz de responder. E
Camilo, o diretor teatral da peça é obrigado a ir até o fundo das questões
psicanalíticas para fazer com que Mario Alberto se transforme num ator-louco, todo
baseado em Stanislavisk. É contratado por Dagoberto para isso e toda a história da peça
caminha kantnianamente para um sublime terrível, mostrando como pode um autor jogar seu
torrencial talento para mostrar a todos nós que a desgraça alheia precisa ser embelezada
ou não teremos unamuniamente o sentimento trágico da vida.
Antônio Abujamra
***
Miguel de Unamuno (1864-1936) - Estruturada
em torno de um tema central - a busca da certeza da imortalidade - a obra do filósofo
espanhol constituiu um esforço para dotar de sentido a existência humana, sem renunciar
a qualquer dos seus aspectos.
Immanuel Kant (1724-1804) - Em linha
gerais, Kant argumentava que, embora seja certo dizer, como Hume, que o conhecimento tem
origem na experiência, isso não significa que dependa unicamente dela. Segundo Kant, a
realidade física é conhecida a posteriori - ou seja, indutivamente a partir da
experiência - e seria ilegítimo atribuir ao mundo sensível princípios universais, como
por exemplo o da casualidade. Toda ciência racional deve possuir igualmente princípios
gerais a priori, isto é, independentes das contingências e circunstâncias externas.
Assim, os princípios dedutivos são faculdades do entendimento humano e é necessário
determinar de que maneira intervêm no processo cognitivo.