Passaram-se
quarenta anos, desde aquele fim-de-semana misterioso. De
tudo aquilo, de toda aquela história que ficou na mente
dos moradores de São João del Rei, apenas duas pessoas
continuam vivas. Frei Vicente, hoje com noventa e dois
anos e completamente surdo, e dona Maninha, com setenta
e cinco e marcada para morrer.
Dona Maninha sabe que vai morrer. A doença
já avançou por quase todo o corpo. Ela está pele sobre ossos. Questão de
dias, meses talvez.
Dona Maninha precisa se confessar, dona
Maninha precisa se livrar daquela agonia, daquele martírio, daquela culpa
que ela carrega há exatos quarenta anos. Já que frei Vicente não escuta nada
mais mesmo . . .
Há quarenta anos que ela guarda aquele
segredo, aquele sofrimento. Só ela, só a dona Maninha sabe exatamente o que
aconteceu naquele fim-de-semana. E se outra pessoa da cidade, por acaso,
vier contar outra versão da história, é mentira, é fofoca, é invenção!
Dona Maninha não pode morrer e levar o seu
segredo para o. . . INFERNO!!!
Frei Vicente, frei Vicente. . . São quarenta
anos, frei Vicente. Quarenta anos carregando este fardo nas costas, sem
ninguém para dividir o peso comigo, frei Vicente. Parece que são quarenta
séculos, frei Vicente. Tá me ouvindo, frei Vicente? Eu sei que não. Minha
culpa, minha culpa, minha máxima culpa!
A minha sorte é que o senhor não ouve mais,
frei Vicente, caduco do jeito que está. Mas eu sei que o senhor sempre olhou
para mim sabendo o que eu tinha feito. Pelo menos me passava essa impressão.
Desde aquele fim-de-semana, frei Vicente, que eu nunca mais consegui olhar
para o senhor de frente, de cara, assim olho-no-olho, assim enfrentando. É
como se eu soubesse que o senhor sabia de tudo. Então, toda vez que eu ia
comungar era um martírio pior que o de Jesus—ele que me perdoe—, porque eu
olhava para o senhor e o senhor estava olhando no fundo do meu olho. Estava
ou não estava, frei Vicente? E o senhor devia estar pensando: essa beata
está comungando com o diabo no corpo. O senhor não pensava isso, frei
Vicente?
Bom, isso não importa mais. O que importa
agora é que eu resolvi contar de uma vez o que eu acho que o senhor já está
cansado de saber. Eu sei que o senhor sempre soube, frei Vicente que eu...
que eu. . . bem, que eu matei os quatro! É isso mesmo! Matei os quatro! A
menina, o pai dela, a mãe dela e o rapaz que veio de fora. Os quatro! Tá
tudo enterrado no fundo do meu quintal!.
O senhor se lembra, há uns dez anos, quando
eu matei o cachorrinho da dona Ritinha com umas pauladas e foi aquele
escândalo na cidade? Todo o mundo perguntando: mas por quê?, o pobrezinho do
cachorrinho, tão bonzinho, nem fazia cocô na calçada nem nada. Lembra, frei
Vicente, quando eu matei o bichinho? Ninguém nunca soube o porquê. Mas agora
eu posso dizer para o senhor. O senhor está me ouvindo, frei Vicente? Sabe
por quê? Porque ele tava cavucando o meu quintal justo onde estão as ossadas
dos quatro. Bem em cima. Fiquei vários dias enxotando ele, mas não teve
jeito. Uma bela manhã. . . O resto o senhor já sabe. Tive que matar o
bichinho. Gostava dele, sabia, frei Vicente? Gostava mesmo. Mas não tive
outro jeito. Umas cacetadas bem aqui atrás, no pescoço. Morreu rápido,
felizmente!
Eu trouxe aqui para ler para o senhor, frei
Vicente, a última carta que o Bento Brandão me mandou, que é para o senhor
não ficar pensando que eu tinha ficado louca de vez ou que então eu estou
inventando tudo agora. Bento Brandão é o nome do rapaz de fora, que chegou
naquele dia e senhor nem ficou sabendo disso. A cidade nem teve tempo de
conhecer ele.
Trouxe a carta para provar agora, antes da
minha morte, que eu não inventei nada. Tô na hora da morte, frei Vicente, e
o senhor sabe muito bem que mentir antes de morrer é pecado contra pelo
menos uns três mandamentos. Além de poder muito bem inverter o caminho do
Céu no caminho da perdição e do Inferno. Quero morrer com a alma limpa,
contando tudo para o senhor, em todos os detalhes, porque eu sei que,
contando tudo para o senhor, eu estou contando tudo para Deus que, através
de sua infinita bondade e sabedoria, vai ter que me perdoar e me receber no
reino dos Céus. O senhor não acha que ele vai me perdoar, frei Vicente?
Mas o que eu estava dizendo para o senhor e
a conversa mudou de rumo, frei Vicente, é da última carta que ele me mandou.
Estou falando da última porque vão pra mais de cinqüenta todas elas, todas
as missivas dele. Isso é para o senhor ver que eu não estou inventando nada
e nem que fiquei louca. Tá me ouvindo, frei Vicente?
"Senhorita Maninha. Dois pontos. Acabo de
ler a sua última carta. Ler, reler, reler e reler ainda mais uma vez. O
poema sobre o pé de abacaxi que a senhorita tem no fundo do seu quintal, não
poderia ser mais frugal, viçoso, parnasiano e meserânico! É como se eu
estivesse vendo, aqui da minha janela, tão trigueiro pé de fruta. Ah, e o PS
do final? Tirou-me um largo sorriso: "um beijo na ponta do nariz"! Mas que
intimidade, senhorita Maninha! Mas isso não importa. O que importa é que
agora a sua distinta família acatou em me receber para fazer o pedido formal
de noivado e posterior casamento. Portanto, estou escrevendo-lhe esta para
dizer que chego no sábado da semana da pátria. Passarei dois dias ao seu
lado e ao lado de sua distinta família e, assim, formalizaremos o pedido.
Ah, senhorita Maninha, não vejo a hora de conhecê-la pessoalmente. Mas já a
imagino em meus devaneios: a senhorita diz que passa todos os dias e todas
as horas na janela da sua casa, quieta, mansamente triste, sem falar com
ninguém. A senhorita deve ser bonita, suave como suas cartas, pele de
mineira bronzeada, dentro dos seus dezoito anos. . ."
Sim, padre, sim, frei Vicente, eu mentia
para ele. Desde a primeira carta que eu mandei, eu mentia. E agora ele dizia
que vinha para cá. Que iria conhecer a minha família, os meus pais, os meus
18 anos! O senhor está entendendo a enrascada em que eu me meti, frei
Vicente? O senhor está me ouvindo, frei Vicente?
Quando eu escrevia para ele, frei Vicente,
ao invés de eu me descrever com os trinta e tanto que eu tinha naquele
tempo, em vez de falar nessa minha pele toda espinhenta e esburacada, com
espinhas com pus amarelo na ponta, esses peitos caídos, essas orelhas de
abano, esses joanetes que não tem sapato que entre, esse mau hálito que me
persegue desde nascimento, essa corcunda, esse papo todo, enfim, frei
Vicente, esse bagulho que eu sempre fui, ao invés de contar tudo isso para
ele, eu descrevia ela, a moça da janela da frente, aquele frescor que eu
odiava e odiava principalmente porque ela tinha o mesmo nome que eu:
Maninha! A outra Maninha, a que era o meu contrário, a que eu sempre odiei!
Ele era da FEB, frei Vicente. Da FEB! O
senhor se lembra da FEB? Força Expedicionária Brasileilra!... Ele foi para a
Itália com a FEB e estava lá na tomada daquele morro. Lembra, padre, o
Brasil foi para a Segunda Guerra Mundial, tomou um morro. Não foi nem uma
cidade, foi um morro, lembra? Nunca entendi direito. Tanto morro aqui em
Minas Gerais, teve que gastar aquele dinheirão com os pracinhas... Bem, isso
é outra história. O que interessa é que o Brasil voltou da guerra todo
famoso por causa do morro que eu não lembro o nome, todo mundo ficou famoso,
o morro ficou famoso também, saiu em tudo quanto foi jornal e tudo quanto
foi revista na época. Lembrei: Monte Castelo!
Mas teve uma notícia especial que saiu na
revista O Cruzeiro. Lembra desta revista, frei Vicente? O senhor está me
escutando, frei Vicente? Uma notícia de umas trinta páginas mais ou menos na
revista O Cruzeiro, contando como foi que eles tomaram o tal de Monte
Castelo. E foi nessa revista que eu vi pela primeira vez o Bento Brandão. A
segunda seria no dia do crime mesmo. Assim que eu vi a foto dele na revista
O Cruzeiro, recortei, coloquei dentro de um envelope e fico olhando para
ele. De quepe e tudo. Tenente Bento Brandão! Fico olhando para ele. Ele que
gostava tanto dos meus poemas sobre o fundo do meu quintal, acabou enterrado
lá mesmo, entre o pé de abacaxi e a jabuticabeira pequena. Será que eu devia
mesmo ter matado ele? O que importa é que, na hora, não titubeei. Matei
mesmo.
O senhor tem que me compreender, frei
Vicente. Tinha trinta e tantos anos, um filho já com dezenove. Filho esse
que o senhor sabe muito bem que nunca teve pai, assim que eu fiquei
grávida... Bem, o senhor sabe muito bem da história e eu não vou ficar aqui
repetindo tudo de novo para o senhor. Mas se aquele desgraçado um dia voltar
aqui para São João Del Rei, eu sei muito bem o que fazer com ele. O senhor
sabe que o Paulo foi para Belo Horizonte morar com ele depois daquele
fim-de-semana. O Paulo viu tudo, frei Vicente. Mas isso é outra história.
Ele sofreu muito. Obriguei o coitado a abrir a cova grande. Não gosto nem de
pensar nessa parte da história. Se o senhor me permite, eu vou pular essa
parte, frei Vicente. Não gosto de falar do pai do Paulo.
Mandei uma carta para a revista pedindo o
endereço do tenente Bento Brandão, dizendo que era uma velha tia que não via
ele tinha muito tempo. Duas semanas depois, chegou uma carta muito simpática
da revista O Cruzeiro, mandando o endereço do quartel. Era tudo que eu
queria. Mandei a primeira carta. Ele respondeu. Mandei outra, ele respondeu.
Foi assim que tudo começou. Tenente Bento Brandão, esse homem que me amou
profundamente até a hora de sua morte. Sim, frei Vicente, o senhor pode não
estar entendendo, mas ele me amou sim. E muito.
O que eu quero deixar bem claro, frei
Vicente, é sobre a questão do amor dele por mim. Eu sei que o senhor vai
dizer que eu mentia para ele, que eu descrevia ela para ele e não eu, e
coisas assim, não vai me dizer isso? Que eu não tinha dezoito anos, que eu
não tinha pele de pêssego, e tudo o mais? Tudo bem, é verdade. Mas quem é
que escrevia as cartas? Era eu! Quem é que teve a felicidade de ter aquela
letra linda que eu sempre tive? Quem é que fazia os poemas sobre o fundo do
meu quintal? Quem, quem? Quem é que mexia com os sentimentos dele, frei
Vicente? Quem ? Eu! A verdadeira Maninha! A autêntica! Ou seja, frei
Vicente, ele podia até imaginar o corpo dela, mas a cabeça era a minha,
aqui, a minha cabeça, a velha cabeça aqui da velha costureira de São João
del Rei.
Duma coisa eu tenho certeza, frei Vicente.
Se fosse ela, a outra Maninha, que escrevesse, eu tenho certeza que ele não
ia se apaixonar como ele se apaixonou por mim. De jeito nenhum. A paixão
dele chegou a ponto, frei Vicente, de numa só semana mandar doze cartas. Ou
seja, quase duas cartas por dia. Então, quando eu matei ele e todo o mundo,
eu estava defendendo o nosso amor e não destruindo um amor entre eles.
Porque ela... O senhor conhecia bem ela,
frei Vicente? Será que quando ela se confessava com o senhor ela contava
tudo o que ela fazia? Será que ela contava todos os pecados dela para o
senhor? Porque eu sei. Ficava na janela. Via! Via tudo! Ela era má! Muito
má! Por trás daquele rostinho todo róseo, por trás daquele rostinho de anjo
que ela tinha... Não que agora, aqui no confessionário, eu vá perder o meu
tempo e o tempo do senhor falando mal dela, que já está morta e enterrada e
nem pode se defender. . . Longe de mim uma coisa dessas.
Se ele tivesse chegado, tivesse vindo direto
para a minha casa, nada teria acontecido. Mas não. O problema é que ele veio
vindo, veio vindo pela rua, no seu cavalo. Ao passar pela janela dela, ela
sorriu para ele, sorriu feliz, muito feliz. Ele parou a sua montaria, deu
uma olhada para mim que estava na minha janela, desceu muito galante, a
porta se abriu e ele entrou na casa. Dela.
O senhor vai querer saber por que é que eu
matei todo o mundo. Ele e ela, é fácil de compreender. Mas e o pai e a mãe?
Apenas porque me viram furiosa com uma faca em cada mão, desferindo golpes e
mais golpes dentro daquela sala e dos quartos? Só porque eram testemunhas da
minha vingança? Não, frei Vicente! Eles não prestavam!
O pai dela, não sei se ele contava tudo para
o senhor no confessionário, mas era, com todo o perdão da palavra, um tarado
sexual. O senhor não pode imaginar os tipos de coisas que ele dizia para mim
toda vez que passava pela minha janela. Não sei se é verdade, mas ele dizia
que não tinha mais nada com a mulher dele e que largaria tudo por minha
causa. Não sei se o senhor vai acreditar nisso, mas eu vou ter que voltar a
falar do meu filho e do escândalo que foi o nascimento dele. Está na hora da
verdade, frei Vicente, está na hora da minha morte. Eu sinto que tenho que
contar tudo para o senhor. Hoje o meu filho Paulo está lá em Belo Horizonte
com o pai dele. Mas aquele pai, frei Vicente, juro por Deus, quero ver a
minha mãe morta, sequinha atrás da porta, aquele pai não é o verdadeiro pai
dele. Ninguém nunca soube disso. Eu odeio ele porque ele recebeu dinheiro do
pai da Maninha para ocultar tudo. Sim, frei Vicente, eu sei que o senhor não
está me escutando, mas o verdadeiro pai do meu filho era ele, o pai da
Maninha jovem. Está entendendo a minha situação, frei Vicente? O meu filho
Paulo estava se apaixonando pela própria irmã, a outra Maninha. Meia-irmã, é
verdade, mas irmã! Um dos dois tinha que morrer, o senhor não acha? Então o
senhor vê que o fato de eu ter matado o pai da moça não é um pecado tão
grande assim. Eu estava apenas resolvendo um probleminha pessoal, familiar.
E a mãe da moça, então? Durante quantos
anos, frei Vicente, ela não ficou encarregada de fazer as hóstias da igreja?
Pra mais de trinta, não foi mesmo? E o que é que ela fazia? Ela misturava
hortelã nas hóstias. As hóstias tinham gosto de hortelã, frei Vicente. Isso
no começo. Depois foram ficando carameladas, suco de laranja, um pouco de
jabuticaba. O senhor nunca soube disso porque o senhor só comia aquelas
hóstias grandonas, na hora da consagração. E ela contava pra todo o mundo.
Hoje vou fazer hóstia com sabor de feijoada. E ia todo o mundo comungar
sabendo que o gosto da hóstia ia ser de feijoada. Agora eu pergunto: foi
pecado ter matado essa vagabunda, essa doceira sem eira nem beira? Me diz!
Foi pecado ou foi a justiça de Deus que baixou na ponta da minha faca
afiada? Não sinto o menor remorso, frei Vicente.
Naquele dia ele apareceu na rua. Um
verdadeiro cavaleiro. E cavalheiro. Alto e forte, moreno, de semblante
altivo, montado num belo cavalo alazão. Despontou no começo da rua, ninguém
sabia de onde —menos eu—e veio vindo para a minha casa. Eu sabia que ele
vinha vindo para a minha casa. Era para os meus poemas que ele vinha vindo;
era para os meus trinta e cinco anos que ele vinha vindo; era para a minha
pele espinhenta e esburacada que ele vinha vindo; era para essas espinhas
com pus amarelo na ponta que ele vinha vindo; era para esses peitos caídos
que ele vinha vindo; era para essas orelhas de abano que ele vinha vindo;
era para esses joanetes horrorosos que ele vinha vindo; era para esse mau
hálito—tá sentindo, frei Vicente?—que ele vinha vindo. Isso é o que eu
pensava, frei Vicente.
Quando a outra Maninha sorriu feliz, sorriu
muito feliz ao ver ele passar, não me passou mais nada pela cabeça. Peguei a
faca e fui para o quintal. Não estava muito amolada, frei Vicente, mas eu
fui para o fundo do quintal e fiquei afiando ela no cimento duro do tanque
de cimento. Deixei ela tinindo.
O senhor já matou alguém, frei Vicente? Já
enfiou a faca em alguém? É engraçado, frei Vicente, porque entra feito faca
em manteiga gelada. No começo a gente sente uma certa dificuldade, depois
vai entrando liso. E gostoso, frei Vicente. Sei que é uma loucura eu dizer
isso, mas não tive a menor dificuldade em matar os quatro.
Tô
perdoada ou não tô, frei Vicente? O senhor está me escutando, frei Vicente?