Sabem quanto tá o dólar lá no Brasil?
Fomos jantar – eu, o seu Agenor e o Geraldinho – em Saint- Germain-des-Prés, por conta e risco do professor de Literatura. Ele se sentia em casa:
— Depois da 2ª Guerra Mundial, isso aqui se tornou famosíssimo pelo mundo dos intelectuais. Surgiram os grandes cafés, bares existencialistas...
— O que é isso?, perguntou o seu Agenor.
— Sartre, já ouviu falar em Sartre? Pois é, bares existencialistas, movimento feminista. Barzinhos em porões. Fora a quantidade de faculdades que já existiam. Sou mais Saint-Germain do que o Quartier Latin.
E pediu mais vinho. Brindamos e o seu Agenor, sempre com aquela voz de paz e sábio, tomou a palavra:
— Vou lhe dar um conselho, Geraldinho. Você me disse que tem duzentos mil dólares aqui na França.
— Cento e cinqüenta. Já foi metade com o pacote da Copa.
— Pois que seja. Não tenho nada a ver com a sua vida, mas, se eu fosse você, deixava para torrar isso daqui a uns seis meses.
— O quê? Voltar para o Brasil?
O seu Agenor, eu sabia, farejava dinheiro. Vivia de ganhar dinheiro. Eu perguntei:
— Pode-se saber por quê?
— Bom vinho, Geraldinho. Você está aprendendo a beber, menino. É o seguinte: tenho falado com o Brasil direto. Tocado os meus negócios. E a Ásia, que é o continente que mais me deve, está atrasando cada vez mais os pagamentos. Filipinas, Rússia, China, Japão... Tão atrasando. O povo lá tá sem dinheiro. Estão me entendendo?
Mas chegou a comida e a gente caiu de boca, deixando os problemas econômicos do seu Agenor pra lá.
Já devia ser uma meia-noite e estávamos em frente à universidade de Sorbonne. Geraldinho:
— Foi fundada na Idade Média, já pensaram? Aqui, em maio de 1968...
Seu Agenor cortou o mestre.
— Vocês querem falar da Ásia ou não?
— Pra falar a verdade, estou mais preocupado é com o jogo com a Dinamarca.
— Sabem quanto tá o dólar lá no Brasil? Zero ponto noventa e sete. Praticamente um por um. E eu estou sentindo que a Ásia vai quebrar. E o dólar vai para dois e meio em seis meses. Não gastem dólares.
Mas eu e o Geraldinho não estávamos mais ouvindo aquilo. Direcionamos o corpo para um boteco e caímos na mesa.
— Champanhe francesa para todo mundo!
E ficamos bebendo e deixamos a Ásia pra lá.
Foi quando o seu Agenor deu a idéia de ir para o Cassino. Ou cazinô, como dizem os franceses. E caímos na besteira de ir.
Feliz e infelizmente tínhamos pouco dinheiro no bolso. Perdemos uns três mil dólares em menos de uma hora. Só nos restava os ingressos do jogo contra a Dinamarca que a gente tinha recebido ao sair do hotel. De pilequinho como estávamos, vendemos cada um por mil dólares. E perdemos tudo.
Os três abraçados, fora de Paris, procurando um táxi.
Entramos e o seu Agenor disse em português mesmo:
— Missiê, vamos para a Ásia!
No que o mestre de Literatura emendou:
— A Lua vem da Ásia!
Uma chuva imóvel caía sobre a vaca de nariz sutil que pastava nos arredores da Cidade Luz.