Tentei me concentrar em mim
De relance vi, lá no fundo, com um lugar vago do lado, a Carolina. Deixei pra lá. Pensei na Magdala. O ônibus foi enchendo. A barulheira era infernal. Aquelas cornetas. A Sylvia fez a chamada, feito em escola.
O ônibus partiu. Eu ia ver Paris de dia. Mas não deu. Do meu lado, na janela, estava um sujeito fantasiado de Napoleão Bonaparte com um imenso chapéu verde e amarelo. Na minha frente uma carioca com uma escandalosa peruca de plástico nas cores azul e amarelo. O sapato dela, de salto, era das mesmas cores, com uma bandeirinha do Brasil na lateral.
Correu o bolão. Cravei dois a um para o Brasil sem saber que custava cem francos. Contabilizei, de cabeça: dezessete dólares e meio. Não podia recuar. Tinha que dar aquilo. Devia ter posto três a um.
Tentava olhar Paris. Era terça-feira, um trânsito horrível. O filho do Sarney estava no ônibus. Ele, a mulher e dois filhos. Cravou quatro a zero, sob o olhar incrédulo do filho.
Arrisquei uma olhadinha lá para o fundo. Coincidência ou não, a Carolina estava com o pescoço no corredor. Acenei pra ela. Depois achei que não devia ter acenado. Mas eu estava curioso mesmo era para ver o namorado dela. Não dava ângulo. Tinha esquecido de mandar uma cartinha, um postal que fosse, para a Dadala. Depois do jogo eu tinha que ver isso. Não podia me esquecer, em hipótese alguma.
Tentei me concentrar em mim. Tinha que chegar no estádio, dar uma disfarçada, sair do grupo, vender o ingresso e procurar a padaria mais próxima para assistir o jogo. Mas, por mais que eu pensava nisso, a vontade de assistir a partida ia ficando cada vez mais forte. Aquele pessoal todo gritando, cantando, as pessoas nas calçadas olhando pra gente, sem entender nada. Com a mão no bolso, eu alisava o ingresso.
Nunca tinha me sentido tão dividido na minha vida.
Comecei a imaginar o seu Gomes vestido de Napoleão, todo verde e amarelo com um apito soprando no meu ouvido e me apresentando um cartão vermelho! Pensei no filho que ia nascer. No peito da Dadala que ia ficar maior ainda e eu adoro peito grande. Que coisa, pensei também no peito da Carolina.
Saint-Denis é uma espécie de Osasco de Paris. A gente andando na rua a caminho do estádio, mulheres e crianças francesas saiam na janela e gritando bressil, bressil!, e sorriam e
os ricos fotografavam. Quando viramos a esquina, topamos com um bando de escoceses. Eles levantavam a saia e mostravam a bunda pra gente. De cara deu pra perceber que eles bebiam mais que nós. A gente foi se juntando, batendo fotos juntos. Eu, de olho nas plaquinhas de compra de ingresso.
A uns cem metros do estádio entrei num bar que já estava cheio de brasileiro bêbado na maior batucada, para tomar uma cerveja, uma bierre. Tinha televisão. Lá fora passou a Carolina com o namorado. Namorado? Parecia pai dela. O cara devia ter, por baixo, sessenta anos. Boa pinta, mas coroa. Não devia dar no couro, não. Fui até a porta e segui o casal com o olhar. Que corpinho!
Vendo ou não vendo esse troço?
Ouço um gaúcho dizendo que estão oferecendo trezentos dólares por um ingresso. Meu Deus, o que é que eu faço? Me lembrei da Dadala abraçada comigo na porta de embarque me pedindo duas coisas: vender os ingressos e tomar cuidado com as milionárias.
Pedi um uísque. Virei, sem gelo, porque eu ainda não sabia dizer que era com gelo. Paguei. Caro pra burro. Já tinha gasto uns trinta dólares e não estava em Paris nem há doze horas. Assim não ia dar, Magdala.
Eram mais ou menos nove horas da noite quando eu cheguei ao meu quarto no Méridien Etoile. Primeira coisa que fiz foi olhar no banheiro. Meu plano tinha dado certo. A empregada tinha colocado outro xampu e outro condicionador no chuveiro. Isso significava que eu podia esconder todo dia os tubinhos e ela ia colocar outros. Isso significava que, quando eu voltasse para o Brasil, estaria levando 34 xampus e 34 condicionadores. Franceses. Em matéria de presentes, eu ia arrasar.
Ah, Dadala. Ah, Brasil!