PARIS! (Romance inédito)

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Entreguei, pela primeira vez na vida, o meu passaporte
 

A fila. Eu, crente que seria o primeiro. Tinha mais de cem pessoas na nossa frente. Mas era bonita a fila. Amarela.

— Não disse que tinha que vir com a camisa amarela que a agência deu? Olha aí. Todo mundo.

— Tá frio, benhê.

Todo mundo da excursão. Camisa igual, bolsa de mão igual. Tinha uma pochete também. Amarela. Mas a pochete eu não ia ter coragem de usar. Tinha gente — pouca — com crachá roxo, como o meu. E tinha gente de crachá azul e, a maioria, vermelho. Eu estava comentando isso quando um sujeito de vermelho — igual à Dayse, a da agência, lembra? — chegou perto de mim, olhou o meu crachá, leu o meu nome, olhou para a Magdala, voltou a olhar para mim e disse:

— Por favor, senhor, me siga.

Sujou, pensei. Deu caca. Apesar dele ter a cara simpática e ter me chamado de senhor, pode ser um engano, eu não ganhei coisa nenhuma, era mesmo um primeiro-de-abril levado às últimas conseqüências. Fui seguindo o cara. Olhei para a cara da Dadala e ela devia estar pensando as mesmas besteiras que eu.

Naquele momento eu comecei a entender melhor o que estava acontecendo comigo e iria acontecer nos próximos 35 dias.

— O senhor é primeira classe!

Me levou num lugar que não tinha fila, tinha carpete vermelho, fui tratado com toda a delicadeza do mundo, a mocinha do balcão era um amor, com um uniforme muito bonito e muito bem passado. A Dadala até me olhou com ciúmes.

Ela também sabia que eu estava caindo num outro mundo. Ela sabia que a partir dali eu iria conviver com milionários e milionárias. Sim, um cara que paga 32 mil dólares para assistir a uma Copa do Mundo é milionário! E ainda leva a mulher.

— Se o senhor quiser esperar na sala VIP, é dentro da sala de embarque.

Não contava com aquilo.

— Ela também pode ficar esperando comigo?

— Infelizmente, não. É depois de passar pela alfândega, senhor.

Era senhor demais.

Na porta do embarque internacional:

— Melhor não falar nada. Odeio despedidas. Vai indo, vai andando, como se a gente fosse se ver mais tarde. Como se nada disso estivesse acontecendo. Como se tudo isso fosse mesmo um sonho.

— Quero te pedir só uma coisa, Gregório. Uma, não. Duas. A primeira é que você, pelo amor de Deus!, venda os ingressos. Eu sei que você vai ficar com a maior vontade do mundo de assistir os jogos, eu sei.

— Tudo bem, tudo bem, pode ficar tranqüila. Segunda coisa?

— Cuidado, cuidado com os milionários! Sem falar nas milionárias!

Fomos dar um beijinho de leve na boca, mas a coisa foi tomando um vulto que eu tive até que me agachar, sem parar de beijar, para colocar a sacola no chão e poder usar os braços, as pernas, a barriga, tudo, naquele abraço. Era eu, a Dadala e o bebê, ali, às sete da manhã. Do outro lado do vidro, Paris.

A Dadala tinha medo que a minha vida nunca mais voltasse a ser a mesma. E eu, confesso, também.

Virei as costas e entrei rumo à Policial Federal. Limpo, com tudo em cima. Entreguei, pela primeira vez na vida, o meu passaporte para alguém que não era a Dadala, a minha mãe, o seu Santana e a Maria do Carmo, a minha irmã mais velha. Ele olhou sério, olhou para a minha cara, voltou a olhar para a foto, olhou para mim:

— Torce pela gente, senhor Gregório!