Minha
vida nunca mais seria a mesma
Meu nome é Gregório Morus, sou da Mooca, trabalho no câmbio do Bradesco. Tenho 38 anos e, pra quem se interessa, digo que sou de aquário e todo mundo comenta que eu vivo cem anos na frente. Fui criado ali perto da Rua Javari, onde fica o Juventus, time do qual o meu avô espanhol - daí o Morus - diz ter sido conselheiro vitalício, na Gomes de Moraes.
Ganho uns quinhentos reais por mês. Quando faço hora extra. Sou casado com a Magdala, que eu namorava desde que a gente tinha uns treze. Só de noivado foram uns dez anos. Casei há três meses. Com tudo o que tinha direito. Demorei para casar por isto: queria do bom e do melhor em matéria de eletrodomésticos e móveis. E hoje temos. Tá certo que o apartamento é alugado, mas eu chego lá. Como costuma dizer a minha sogra, “está um brinco, Gorinho”.
Minha vida nunca mais seria a mesma desde que eu vi aquele microondas no anúncio das Casas Bahia. O Gugu me convenceu. E, de quebra, ainda concorria para assistir à Copa do Mundo lá na França, com tudo pago. Mas não foi por isso que eu comprei, não. Tava em liquidação e, realmente, é coisa de primeiro mundo, como costuma dizer o meu sogro. Só vendo mesmo. Eu dizia que a minha vida nunca mais seria a mesma.
A coisa toda começou quando o Agamenon, que é uma espécie de cobrador do seu Gomes, me deu um toque lá no bar do Marquinhos.
— Tua dívida com o home tá pra mais de dez pau. Cumequié?
O que aconteceu foi o seguinte: eu saquei que, com o dinheiro do banco, eu nunca ia poder comprar as coisas que eu queria. Pra casar. O seu Gomes empresta dinheiro. Vive disso. Não gosto da palavra, mas o que ele é mesmo é agiota. Tem o mesmo nome da minha rua, sei lá. Foi com ele que eu levantei a grana do casamento.
Naquele época, eu achava que ia pegar a subgerência do Ipiranga. Não da Avenida Ipiranga, que era um sonho muito alto, mas do bairro. Ia resolver o meu problema. Mas escolheram o Fernandinho. O gerente me chamou:
— Seu currículo é impecável, Gregório. Não fôra (foi assim mesmo que ele falou; fôra), não fôra aquelas três faltas no ano passado.
Agora o seu Gomes tá no meu pé. Se você olhar para ele, sem saber das suas histórias, você vai dizer: — Preocupado com o seu Gomes? Mas o cara é um anão. Manda ele passear! Paga quando puder.
Dizem — nunca ninguém provou — que ele já mandou matar um. O pessoal fala, não sei, sabe como é que é, né?
São dez paus. Dez paus e pouquinho. Mês que vem aumenta. A única coisa que eu tenho certeza na vida é que todo mês aquela coisa vai aumentar.
Mas eu tinha que faltar aqueles três dias no ano passado? O doutor Mesquita não quis me dar um atestado de jeito nenhum. Eu contava com aquilo quando resolvi emendar a semana lá no Perequê. Me azarei depois. O Fernando, que nem sabia converter iene legal, nunca deve ter faltado. Mais de mil por mês. Líquido! Em um ano eu pagava o calhorda do seu Gomes e partia pru Gol um ponto oito, sonho da Magdala. E meu. Vermelho, meu amor.
No dia primeiro de abril, uma quarta-feira, eu estava, como sempre, no banco, trabalhando. Tava uma zona, porque a bolsa lá na Ásia tinha dado uma inesperada oscilada e quem se danava era eu lá no banco. Pelo menos dava hora extra. Toca o telefone na mesa da gerente. Umas dez. Ela me fez um sinal levantando o aparelho. A Maria Alice não gosta que as pessoas liguem pra gente na mesa dela.
— Vá gozar a mãe!!! Desculpa, Maria Alice.