Mas o Brasil
estava distante de mim
Lá dentro havia um pacote com trezentos mil francos franceses. Mais ou menos cinqüenta mil dólares. Devia ser do cafetão, o Ricardo. Contei nota por nota. E, a cada nota, pensava: ele jamais saberá que esse dinheiro ficou aqui no quarto andar. Jamais! Deus existe, pensei seriamente. Olhei pela janela. Carolina não estava mais lá. Carolina não existia mais. Meu filho teria uma vida mais digna.
Precisava contar para alguém. Seu Agenor, é claro. Ele foi mesmo um pai, depois de ouvir toda a história.
— Ninguém jamais, em tempo algum, saberá disso, Gregório. Ninguém! Esse dinheiro é seu. Troque
por
dólar.
Mas não aqui na França. Esse Ricardo pode ser perigoso. Vai farejar tudo. Vamos para a Suíça. De noite estamos de volta.
Não era nem meia-noite quando voltamos. A Suíça era ali mesmo e eu havia aberto uma conta lá. Eu, Gregório Morus, tinha uma conta numerada na Suíça com 60 mil dólares! Eu!
Nessa noite o jantar correu por minha conta. Soube que o corpo da Carolina seria enviado ao Brasil no dia seguinte. Em paz.
Fiquei até as três da manhã andando sozinho pelas avenidas de Paris, pensando na primeira semana na França. Olhando os prédios, as fachadas, as entradas, os grandes portões da Avenida Montaigne, depois Boulevard Saint Germain. Pensei no Raí,
pensava na Carolina, pensava na Suíça. Como Proust (aprendi essa com o Geraldinho), acabei no café da manhã do Ritz Hotel. Quase cem dólares de café da manhã. Mas valeu. Tinha umas pessoas lá do meu grupo do Méridien. Quando elas passavam por mim, caprichei com o garçom:
— Je vu remersi de lakoei cordial, messiê. Je vu suí biã reconessâ.
Agora eu estava sozinho no Ritz. Funcionários limpavam o chão. Já eram onze da manhã. Ali, sozinho, fazia um balanço da minha vida nos últimos dez dias. Estava preocupado comigo mesmo.
Bom na matemática, logo cheia à conclusão que o dinheiro que eu tinha na conta da Suíça, equivalia a 160 salários meus lá no banco da Mooca. Ou seja, eu precisaria trabalhar treze anos e meio para ganhar aquilo. Comecei a achar que estava ficando ganancioso. Pois a cada jogo o bolão aumentava e se comentava lá no hotel que, se o Brasil fosse para a final, o bolão entre a turma seria de mil dólares o palpite.
Dois dias depois fomos para Marselha e o Brasil perdeu para a Noruega. Achei que não ia ter bolão nenhum de finalíssima.
Mesmo com a derrota, eu estava orgulhoso do meu Brasil. Na primeira vez que saímos de Paris para jogar fora, contra Marrocos, em Nantes, até o exército francês estava na Gare du Nord para o embarque da torcida brasileira no TGV, o trem-bala. Achando que a gente era bicho. Agora, para o embarque para Marselha, apenas um ou dois guardinhas lá na estação de trem mesmo. A gente estava conquistando Paris. E Paris me conquistando.
Meu Deus, o que eu vou fazer com aquele dinheiro todo?
No jogo contra o Chile eu só fui porque era em Paris, porque eu estava mesmo era preocupado com os negócios.
Eu, o seu Agenor e o Geraldinho tínhamos planos. Altos planos. No saguão do hotel só se falava em negócios, em dólares, em árabes, em Ásia. E lá no Brasil o Lula e o Fernando Henrique disputavam, mais uma vez, a presidência da república. Mas o Brasil estava distante de mim. Cada vez mais distante.
Reagi, comprei um celular descartável e liguei para a Dadala. Mas não falei da grana, não. Sei lá como é que ela ia reagir.
— Meu amor, o bebê está mexendo...