PARIS! (Romance inédito)

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Biquíni de bolinha amarelinha
 

O comandante anunciou momentos de turbulência e pediu pra todo mundo sentar. Imagina, sentar. O que o torcedor queria mesmo era a turbulência. Bagunça, diria uma criança. Queria bagunçar. Queria a zona total. Deixou pra trás a mulher, os filhos, o trabalho, o penta do cunhado e a macarronada fria da sogra. Ia pra rosetar mesmo. Se deixar, ele vai se vestir de mulher e, triunfalmente, ensaiar um samba em frente ao tal do Arco do Triunfo. Se deixar, ele vai subir pelado na Torre Eiffel e, se ninguém segurar, fazer xixi lá de cima. Se deixar, ele vai colocar um biquíni de bolinha amarelinha e mergulhar no Rio Sena em frente da Notre Dame, sem se dar conta que Notre Dame, em português, é Nossa Senhora, como eu já havia descoberto com o meu livrinho.

Se deixar, ele nunca mais vai voltar.

E eu, volto? Volto igualzinho como quando fui? Volto pru câmbio do Bradesco?

O filme vai começar. Coloco o fone no ouvido. Estou dominando o avião. Lá fora a temperatura é de menos 40 graus. Quem diria!

Geraldinho ronca. Seu Agenor, depois de uns três uísques, também dorme.

Vai começar Os Desajustados. De graça, meu! Tudo de graça. Não sei se rio ou se choro.

Essa coisa não pode cair porque eu não sei nadar. E vou ter um filho. E preciso pagar o seu Gomes.

Dentro do aeroporto, esperando as malas, eu ainda não me sentia em Paris. Foi quando saímos para pegar o ônibus que eu senti a coisa. Eu olhava em volta e ficava pirado em saber que tudo aquilo ali era francês. Tinha uma poeirinha no chão. Aquela poeirinha era francesa. Me agachei e passei a mão. Me lembrei do papa beijando o chão nos aeroportos. Mandaram eu adiantar o meu relógio cinco horas. Achei chiquérrimo estar no primeiro mundo, cinco horas na frente do Brasil.

Tudo era francês. Encostei a mão na parede de cimento. O cimento era francês. Igualzinho o nosso, pensei, mas de primeiro mundo. Tava escuro, eram umas duas da manhã. Ficou um farelinho de cimento na palma da minha mão. Deu vontade de guardar, colocar num envelope e mandar para a Dadala.

Ali, houve uma divisão. Eu entrei no ônibus roxo. Até o motorista era francês. A moça da agência, que era — olha a coincidência — a Dayse, também falava francês. Fiquei orgulhoso daquela brasileira. Explicava as coisas para o motorista na maior.

O pano do assento. Engraçado que eu ia achando tudo igual o da gente. Quase chegando no hotel, o ônibus fez uma curva e o que é que eu vejo na minha frente, imenso, monumental, todo iluminado às três da manhã? O Arco do Triunfo. Meus olhos ficaram cheios de lágrimas. Foi uma das coisas mais bonitas da minha vida que eu vi assim, de repente. Fiquei danado quando uma mulher atrás perguntou para o marido:

— Pra que que serve? Não tem nem janela...

O hotel, mesmo às três da manhã, era monumental. O que tinha de luz acesa! A mocinha que ia entregar as chaves do apartamento, que depois eu fiquei sabendo que se chamava Sylvia, era da turma da guia. Também de vermelho, com um baita sorriso, me perguntou:

— Síngol?

— Dacór, síngol! (sentiu?)

Não era chave. Era um cartão magnético. Será que eu ia dar conta? Nessas horas que a Magdala é boa. Danada! Danada a Dadala. Brincando com essas palavras subi para o quarto andar, morrendo de nervoso e com o visual do Arco do Triunfo na cabeça. E o quarto síngol se aproximando, me aguardando.

As instruções do cartão eram em francês e japonês. Mas tinha desenhinho. Na segunda tentativa eu abri o síngol. Não tinha espelho no teto. Mas a cama era esperta, grande. Dei uma geral com a porta ainda aberta. Nada ali que me dissesse o que era síngol. Mas era demais. Em cima da geladeirinha, os preços. Fiz o câmbio rápido e não acreditei: uma latinha, oito pau e quarenta. Água, sete e vinte! Tudo bem, era aquela que tinham me falado, a tal da Perrier, mas meu!