Quando os jogadores formam a barreira, ele acha que estão posando para a foto
Tomei o café gelado e fui para a cama. Peguei o jornal e fui ler. Faltava um mês para a Copa. Lia sobre os treinos da seleção. Magdala gritou da sala:
— Benhê! Benhê!
Entrei correndo.
— Dadala?
— Sabe o que que o Jornal Nacional deu? Que os ingressos da Copa, os ingressos da Copa, Gregório, que os ingressos da Copa estão esgotados e estão
vendendo no câmbio negro por uma grana preta.
— E daí?
— Senta, Gregório. Senta e siga o meu raciocínio. Pelo amor de Deus, Gregório!
Sentei ainda um pouco com os olhos no treino da seleção.
— Você vai. Chega lá, pega os ingressos e vende. Faz que vai pru jogo, mas não vai. Vende! Vai, tá valendo
uma grana. Vai que o Brasil chegue até a final. Quantos jogos são?
— Sete.
— Então?
Fiquei olhando pra ela. Eu não tinha a menor idéia de quanto custava o ingresso. Muito menos no câmbio negro.
— Entendeu, Gorinho?
— Dadala, ir até lá e vender os ingressos? Não assistir os jogos?
— Quanto a gente deve para o seu Gomes?
— Uns sete e pouco.
— Gregório, fala a verdade.
E difícil confessar as dívidas da gente. Principalmente para a mulher. Grávida.
— Hein?
— Uns dez!
— Tá resolvido. Você vai. A gente faz uma vaquinha, dá um jeito daqui, dá um jeito dali e você vai.
Eu precisava de tempo para pensar melhor naquilo. Fazer umas contas, ver o câmbio. Quanto é que custa um misto quente por lá? Um Big Mac? Dizem que a coca está quatro dólares, imagine o resto. A Magdala estava
delirando.
— Ninguém precisa saber. Principalmente o pessoal da agência.
— E se o Brasil não passar nem da primeira fase?
— Vai passar! O Brasil tem que passar da primeira fase. A gente depende disso. O Brasil não pode perder.
Pensei longe:
— Quer dizer que o nosso futuro está nas mãos do Zagallo?
— E nos pés do Ronaldinho e do Romário?
— Será que o Brasil chega lá?
— Tem que chegar na final! Tem!!!
— Me dá um uísque.
— Acabou. Esqueceu?
Esse esqueceu se referia ao porre pela nomeação do Fernandinho para a sub.
E para convencer a Maria Alice que o Bradesco tinha que me dar férias? Ainda por cima, mais de quarenta dias, ela disse. Não tem nem três meses que voltou de férias, Gregório!
— Mas eu tinha que tirar férias para casar, Maria Alice. Ou não?
Quase que eu falei ou queria que eu passasse a lua-de-mel aqui em cima da minha mesa e dos meus carimbos e das minhas fichas e da minha máquina de calcular — já pedi uma nova, não adianta — e da almofadinha da cadeira? Tá certo que ela foi até simpática quando soube que eu havia ganho o pacote primeira classe, mas vamos e venhamos. Tive que passar por cima dela e ir falar com o gerente-geral, o Macário, que, absolutamente, não gosta de futebol. Não entende de futebol. Quando os jogadores formam a barreira, ele acha que estão posando para foto.