PARIS! (Romance inédito)

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Com açúcar e com afeto caprichei no desodorante

Ainda nu, me ajoelhei como se estivesse diante do altar de Deus e estendi a bandeira do Brasil no chão do quarto. De joelhos, estiquei, alisei, idolatrei. Contei as estrelas no azul dos nossos rios, como me ensinaram no grupo escolar. No tempo do grupo tinha menos. Vinte e uma? Nenhuma ruga, nenhuma prega. Ali no chão estava, adormecida e estendida em berço esplêndido, a pátria amada. Pensava nessas coisas, pode? Me levantei, assoviei o início do hino nacional. Devia ter trazido umas garrafas de cachaça.

No chuveiro, cantarolei feliz. Olêêê-olêolêolááá, Brasil! Fiz a barba com carinho, cigarrinho do lado. Com apuro, passando as lâminas  uma segunda vez a contrapelo, como dizia meu avô espanhol. Com açúcar e com afeto caprichei no desodorante porque hoje vai ser dia de suar a camisa, vai ser uma luta. Dei um trato no cabelo.

Entrei de novo no quarto. Jamais pise numa bandeira. Símbolo máximo, sei disso. Sentei na cama. Coloquei a meia branca. Com as duas mãos puxei cada uma, com jeito, quase até o joelho. Na próxima copa vou trazer uma caneleira. Cueca branca, limpinha mas amarrotada, lavada no banho de manhã. Mas com sabonete francês.

A primeira camisa, por baixo, é do coringão. Por cima, a da seleção, quatro estrelas no peito e todas no coração. Olhei no espelho. Joguei um beijo pra mim mesmo. Por que não? É proibido proibir! Brasil!

Aquela mesma velha calça Lee desbotada, aquele novo tênis branco como a alma. Nike, é claro.

Voltei ao banheiro com meus batons. Pintei, de um lado, o rosto de amarelo. Do outro, verde. Gostei. Dei uma piscada pra mim mesmo. É hoje!

A tiara, onde é que eu guardei a tiara? Verde com losangos azuis. Estrelas em grupos de quatro, do tetra. Estiquei. Em cima da mesinha passei a palma da mão nela, com devoção. Coloquei na testa. Dei o nó atrás. Traguei gostoso.

Peguei o apito. Apitei. Sorri. Ri. Todo brasileiro tem direito à felicidade. Nem que seja de quatro em quatro anos. É hoje. Carteira, passaporte, tudo em cima. Onde é que está o ingresso?

O cachecol! Nunca usei cachecol na vida. De lã. Escrito penta. Passei pelo pescoço. Num gesto totalmente teatral joguei um dos lados para trás. Coisa de bicha, passou pela minha cabeça.

Ergui, icei a bandeira quase num ritual. Amarrei no pescoço. Rodopiei, girei uma, duas, três vezes. A bandeira flutuou comigo pelo quarto. O mundo é meu. Meu pescoço é o mastro nacional, gigante pela própria natureza. Eu sou o Brasil, eu sou todos nós. Valsei pelo quarto. Cantarolei o final do hino pátria amaaada, Brasil! Zil-zil-zil!  Achei e peguei o ingresso. Meti o cartão magnético no bolso.

E saí.

A melhor imagem que eu tenho para dizer como estava o negócio lá embaixo é falar que parecia um baile de carnaval do Juventus ou do Monte Líbano, desses que a gente vê pela televisão com o Otávio Mesquita entrevistando umas gordas peitudas.

Tinha de tudo, além da orquestra improvisada. Faltavam três horas para a abertura da copa e estava todo mundo ali. Preparado. O barulho era infernal. Eu era um dos mais discretos.

Estava fácil para vender o ingresso. Tinha gente por ali, franceses, com uma plaquinha I Need Tickets, que com o meu inglês de ginásio e câmbio, dava para entender. Estavam oferecendo cem dólares. Achei pouco. Achei pouco ou não queria vender? Pensei que na porta do estádio o preço devia estar mais alto. Devo confessar que dei uma geral para ver se via a Carolina. Mas tinha muita gente. A Sylvia, de vermelho, apareceu com uma bandeirinha roxa escrito “Staff” e mandou quem fosse roxo que a seguisse. Eu era. Brasil roxo.

Quando entrei no ônibus, já estava lá o seu Agenor com uma latinha de cerveja. Equilibrando, na cabeça chata. Cheia, ele disse — e gargalhou orgulhosamente.