PARIS! (Romance inédito)

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Quanto é que não deve custar pintar a torre Eiffel todo ano?

Voltei para as Filipinas. Era um primeiro-de-abril. Aqui é das Casas Bahia e o senhor ganhou um pacote para a Copa da França! Pode? Podia, porque daí a pouco tocou o telefone de novo na mesa da Maria Alice. Fiquei de rabo de olho. Ela atendeu, colocou o telefone em cima da mesa e foi até a minha. Abaixou um pouco — estava de sutiã preto:

— É o cara de novo.

Era verdade. O microondas.

Voltei para o meu lugar e sentei de novo. A primeira coisa que eu tive vontade de fazer foi mandar a Maria Alice e o banco pra de Bagdá. Mas depois fui caindo na realidade. Melhor não. Era cedo, ainda.

A Magdala não acreditou.

— Primeiro-de-abril pra cima de mim, Gorinho?

Fiquei olhando para a cara dela. E se tivesse mesmo sido um primeiro-de-abril? Mas o cara falou até o número da nota fiscal, cara! Tava pensando nisso quando a Magdala abriu a gaveta da escrivaninha de cerejeira, tirou um envelope de dentro e meu entregou. Era do Laboratório de Análises Clínicas da Mooca, há mais de cinqüenta anos, agora em prédio próprio.

— Primeiro-de-abril?

Com os olhos cheios de água:

— Não, amor! O Gregorinho vai ser papai!

O abraço durou uns vinte minutos, em silêncio. Nossos corpos balançavam ao ritmo das lágrimas.

Depois:

— Quanto?

A Magdala fez cara de quem tinha percebido que eu estava desbundado com o que estava ouvindo do outro lado da linha. Confirmei:

— Trinta e dois mil, duzentos e quarenta dólares!!!

A Magdala girou a tampa da coca gigante. Caiu sentada na poltrona. Não dizia nada. Pensava nos trinta e dois paus. Eu também não dizia nada. Bendito microondas. Trinta e dois paus! Fora os quebrados. Seu Gomes.

A Magdala conseguiu não só abrir a coca, como entornar quase tudo no carpete novo. A gente começou sorrindo e acabou gargalhando mesmo. Deus existia. E morava na Mooca. Mas a Magdala, que é de áries, é complicada:

— Pode receber em dinheiro?

— Claro!

Eu disse sem nenhuma convicção.

Pode? Liguei, de novo, para a agência de turismo. Me pediram para passar lá. Três da tarde. Sujou?

—  Se não puder receber em dinheiro, não vou.

—  A gente faz uma vaquinha, bem.

— Tá pensando que Paris é o quê? Aquilo deve ser caro pra burro. pensou quanto é que não deve custar pintar a Torre Eiffel todo ano?

—  Quanto tá o dólar?

—  Um real. Pau a pau.

Mais tarde:

Lei?

— É, é lei. A gente não pode entregar o valor do pacote em dinheiro. O senhor tem que ir.

Tenho que ir. Martelava na cabeça. Terqueir, parece palavra francesa.

Aquele terqueir foi dito por uma funcionária simpática e que parecia entender das leis. Eu tinhaqueir.