Uma Generosa Capa de Bacon
Prefácio de Fernando Morais
Tenho
a impressão de que o Mario Prata me escolheu para prefaciar este
livro como uma espécie de retribuição. Afinal, foi eu quem o
arrastou para essa aventura. Eu me explico. Nunca fui gordo. Ou
melhor: ficar gordo nunca foi uma de minhas preocupações. Mas em
1990, depois de 33 anos consumindo dois maços de cigarros por
dia, capitulei ao terrorismo antitabagista do doutor Adib Jatene
e a uma pneumonia dupla - e parei de fumar cigarros. O primeiro
resultado foi o aparecimento (lento, gradual e seguro, como uma
democracia de general) de uma generosa capa de bacon em torno da
minha cintura. Meu peso, que nunca excedera os 72 quilos desde
que me tornei adulto, deu um salto acrobático para oitenta
quilos. Para encurtar a conversa, em meados de 1996 eu estava
pesando 88 quilos.
Menos por vaidade, mas
principalmente por medo de cardiopatias que mataram meus avós e que
acabariam levando meu pai, resolvi tomar vergonha na cara e emagrecer. Foi
aí, por volta de agosto do ano passado, que eu vi, na primeira página da
Folha, uma foto do ator Antonio Fagundes com cara de menino, apesar da
barba grisalha, como resultado de uma dieta que lhe subtraíra dez quilos. Os
autores da proeza, dizia a reportagem, eram os médicos de um spa em
Sorocaba, a cem quilômetros de São Paulo. Sempre achei que spa era um lugar
que ricos freqüentavam para aparecer em colunas sociais, mas ali na capa da
Folha, em cores, estava uma prova eloqüente de que o negócio parecia
funcionar. Apesar de velho admirador do ator (desde que, trinta anos atrás,
ele fez o Chicó do Auto da Compadecida, dirigido por George Jonas),
nunca tive intimidade com Fagundes. Mesmo assim, enviei-lhe um fax pedindo
mais informações sobre a metamorfose que vivera. Gentilíssimo, ele respondeu
no mesmo dia e fez, ao telefone, um convincente comercial do lugar (que
contou chamar-se São Pedro - Spa Médico). Depois de dez dias lá, a mudança
não tinha sido apenas no peso, mas principalmente na cabeça. Entrou gordo e
estressado e saiu magro e zen. "Descobri prazer até em tomar água", disse
ele. "Pode ir que você vai adorar."
Eu já estava decidido a ir,
mas ainda temia que passar duas semanas cercado de gente chata e obsessiva
com gordura pudesse ser uma pedrada. Resolvi cooptar alguém para
compartilhar o que eu imaginava serem catorze dias de infortúnio, e a
primeira vítima que me ocorreu foi o Mario Prata. O escritor e dramaturgo
sempre teve uma silhueta de bailarino espanhol, mas amigos comuns me diziam
que ele andava meio macambúzio pelos bares da moda (suspeita que ele
confirmava em sua coluna no Estadão, na qual vivia fazendo apologia
de Prozac, Zoloft, Anafranil, Frontal, Lexotan e outras novidades inventadas
pela química para desentristecer as pessoas). Prata topou no ato, e dias
depois nós cruzávamos os portões de ferro dos doutores Castanho e Sérgio, no
São Pedro - Spa Médico, em Sorocaba. Portões que, imaginávamos os dois,
deveriam ter no pórtico o trecho do verso da Divina Comédia: "Lasciate
ogni speranza, voi che entrate". Engano ledo e ivo.
O resultado está aqui, neste
delicioso Diário de um Magro (ou Me Ajuda, São Pedro!). Com o humor e a
ironia que são marcas registradas de quase tudo o que Mario Prata escreve,
este livro, além de divertir muito o leitor, mostra que o tal de spa, que
ambos víamos com enorme preconceito, é verdadeiramente eficiente. E que,
além de não doer, é mesmo (como Fagundes anunciara) um excelente lugar para
desentupir não apenas as coronárias, mas a alma. E a fauna, que imaginávamos
formada por gordos loucos, é composta, pelo menos no que pudemos ver nas
duas temporadas que passamos no São Pedro (sim, nós voltamos lá mais de uma
vez), de gente encantadora. Não dá para botar aqui o nome de todo mundo, mas
ganhei lá, entre outros, amigos como o maranhense Joaquim Haickel, o
paulistano Ladislau, os mineiros Vavá e Marcelinho e a pernambucana Mônica,
a quem o Prata dedica este livro.
Recomendo Me Ajuda, São
Pedro! (ou Diário de um Magro) não apenas às pessoas que estejam
interessadas em perder peso, mas também a quem quiser passar algumas horas
hilariantes em companhia do Mario Prata.
A simples leitura deste livro
não vai emagrecer ninguém, naturalmente, mas pode ajudar a reduzir o
estresse. Bom apetite.
P.S.: Por último, mas não
menos importante: acabo de subir na balança e o ponteiro não deixa margem a
dúvidas. Estou pesando 73 quilos.
Fernando Morais