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Vou sentir saudades do Maluf

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o estado de s. paulo

09/10/2002

 


Votei em São Paulo no domingo ensolarado e risonho. Digo risonho porque as pessoas estavam felizes indo e vindo das eletrônicas urnas. Claro que teve uns bodes em algumas sessões (secções!), com máquinas tendo fricotes, filas dando voltas, eleitores reclamando. Mas como disse o chefe das eleições, tudo não passou de um por cento e estava previsto. Como ele fazia questão de deixar claro, somos Primeiro Mundo em termos de eleição. Talvez não sejamos em termos de candidatos, de falta de educação, cultura e outros quesitos.

Mas, para eleger esse bando todo de políticos que vamos pagar com o nosso dinheiro, já somos Primeiro Mundo.

Mas eu dizia que o Brasil - principalmente São Paulo - estava feliz no domingo passado. O brasileiro pode até não saber votar, como dizia aquele atleta, mas adora. Tenho certeza de que quando o voto não for mais obrigatório por aqui (como no Primeiro Mundo) vamos continuar todos votando.

É como ir a um baile de debutante, à final de um campeonato de futebol ou até mesmo ver a filhinha de 5 anos naqueles balés horríveis lá na escolinha pelo qual todos nós já passamos. O brasileiro adora votar. Não importa em quem nem para quê. Mas ele está lá.

E ali dentro do colégio, nos locais de votação, enquanto se espera na fila, a impressão que passava é que todo mundo tinha o mesmo candidato. Sorrisos pra lá, tapinha pra cá, o banheiro fica ali, minha senhora, onde é a minha sessão (não é sessão, é secção!) Enfim, um convescote cívico e nada militar.

Minha fila era lenta. Mas as pessoas estavam firmes. Voto num colégio de um bairro ultraclasse média. E ali tinha de tudo. Idades, sexos, modas, cabelos e anéis. E eu olhando aquilo tudo e pensando como é que metade daquelas pessoas - metade! - estava votando num ex-metalúrgico, num homem quase analfabeto das letras? Um sujeito que saiu de Garanhuns e agora metade do Brasil estava apostando nele. Assim é o Brasil. O Brasil está mudando, pensava eu e dava mais um passo à frente. Em cada duas pessoas naquele ilustre colégio, uma ia votar como eu. Naquele barbudinho, como dizia o meu pai.

Se isso me deixou satisfeito da vida no ensolarado domingo (metade da população acreditando num metalúrgico), horas depois, ao sentar-me na poltrona do papai diante da televisão e acompanhar minuto a minuto a contagem dos disquetes, tive a maior surpresa da eleição. O fim do Maluf, o fim da era dos Malufes. E eu, confesso, vou sentir saudades do Maluf.

Mas deixe-me explicar. O fim do Maluf significa o fim dos melhores momentos de humor no horário político. Significa o fim de alguém que ria da nossa cara. Significa o fim da palhaçada. O fim de uma era em que mentir era permitido e muitos eleitores acreditavam.

Como escritor e criador de personagens de ficção, posso te garantir: poucos escritores no mundo teriam capacidade para criar um personagem como o Maluf.

E poucos atores teriam talento para interpretar tão difícil personagem. A última imagem política, a última cena tragicômica do derrotado homem vai ser mesmo a dele - após votar - ficar fazendo o sinal da vitória para os fotógrafos. Um passinho, uma paradinha, o braço levantado e o sorriso. Um passinho, uma paradinha, o braço levantado e o sorriso. Aquele sorriso estático. Mal sabia ele que o pano do fim da peça estava caindo.

De noite - não por querer -, acabei passando em frente da sua casa. Toda a imprensa estava diante da portentosa mansão. Lá dentro, luzes apagadas, cadeiras vazias, nenhum aplauso, nenhum pedido de bis. Personagem e ator calaram o sorriso falso. Fim da peça, fim de uma época.

Mas metade do País - metade! - dormia tranqüila sem a imprensa à sua porta, sem nenhum sorriso mentiroso nos levando à gargalhada.

Descanse em paz, Maluf. Você nos fez rir (e chorar) muito. O Brasil mudou.

Só não sabe quem já morreu.

Mas nem tudo está perdido. O Enéas nos fará rir (e chorar) por muitos anos.