Duvido. Duvido que você esteja calmo. Há muito
tempo que eu não vejo uma pessoa calma.
Antigamente era mais comum, os calmos. É a calma em
pessoa, era uma frase muito usada há uns anos atrás. Quem é que não tinha um calma em
pessoa na sua família? Geralmente eram tios, os calmos. Já tias calmas era mais
difícil.
Como a gente invejava um amigo ou amiga que tinha
uma mãe calma. Era lá que a gente ia comer rosquinha de tarde. Aquela calma.
É o que eu tenho observado ultimamente. E você
também, não é mesmo? Afinal, eu e você somos iguaizinhos. Tenho certeza que hoje você
gasta três vezes mais do que gastava antes do plano cruzado. Acertei? Doido isso, né?
Tenho certeza que você vem acompanhando de perto o
caso do motoboy que não se entrega, em São Paulo.
Ele ainda não percebeu que quanto mais tempo fica
escondido, mais podres se descobre dele. Que personagem, meu deus! É até bem capaz que
ele, só para me contrariar, esteja calmo.
Eu e você temos acompanhado as pesquisas da
eleição. O que me deixa menos calmo é que em todos os estados, os candidatos são os
mesmos. Como um deles vai ganhar, a gente não tem a mínima condição para ficar calmo.
Nos próximos quatro anos (nós vamos decidir nas urnas) nada vai mudar. Pode até mudar,
mas para pior. Os mesmos. Nas cidades, também. Mantenha-se calmo.
Tem uns que fingem que estão calmos. O Lídio
Toledo, por exemplo, médico da seleção desde a copa de 1930. Você já reparou a cara
de calmo dele? A foto dele devia servir de modelo em aulas sobre a calma. Mas acho que ele
finge.
O Clinton é outro. Nunca vi a foto do homem
preocupado. Só que aquela cara de calmo, não sei porque, não transmite calma. Como
ficar calmo diante da mulher da gente se tem uma mocinha com o vestido cheio de
espermatozóide de sua lavra?
O papa, por exemplo, eu nunca consegui entender se
aquela cara é de calma, gagaismo ou se ele está de cara cheia. Eu sei que é falta de
respeito e imaginação minha, mas que o papa tem cara de quem está de ressaca, tem.
O Caetano sim, era a calma em pessoa. Não sei o que
deu nele e ele perdeu a calma. Já reparou? Tá bravo com todo mundo, com tudo que
acontece. Aquele jovem calmo virou um senhor ranzinza. Fica bravo comigo não, Caetano.
Relaxa, cara.
As vezes, mas só as vezes, a gente fica calmo. Numa
determinada hora do dia você saca que está calmo. Basta descobrir isso para ficar
nervoso de novo. Mas aquele pequeno momento, naquele descuido, estava muito bom, estava
ótimo estar calmo.
A coisa tá tão feia que nunca se vendeu tanto
calmante no mundo. Há uns anos atrás, quem tomava calmante era olhado meio de lado. É
que tava ficando doido, era neurótico, etc. Eu já terminei um namoro quando soube que
ela tomava calmante. Todo dia! Hoje em dia, quando não levo os meus, peço um dos dela. E
é um negócio que não deve funcionar bem, não. Ninguém sara. Hoje é normal você
ouvir:
- Saiu um agora que funciona mesmo!
Mentira. Daí a uns dias o seu organismo já tá
rindo dele. Manda mais, manda mais, alguém deve ficar gritando lá dentro da gente. Nós
viciamos a gente. Nós não temos mais calma nem para voltar a ter calma.
Dá uma paradinha no principal cruzamento da sua
cidade e fica olhando, calmamente: todo mundo passa num pressa doida. Onde é que todos
eles vão com tanta pressa? Será que não dá para andar devagar? Outra coisa que me
intriga nos pedestres é que todos eles sabem - acho isso fantástico - para onde vão.
Pra que a pressa então?
Por que a pressa então para terminar essa crônica?
A minha para escrever e a sua para ler?
A coisa tá tão preta que é a gente, hoje em dia,
que diz para o ladrão na hora do assalto:
- Calma, tenha calma. Fiquei calmo. Vai dar tudo
certo.
E o pior é que acaba dando certo, porque ele
também está a fim de ficar calmo. Só que ele não sabe como.
É isso, ninguém mais consegue ficar calmo.
E pensar que fomos descoberto por causa das
calmarias dos mares. Aliás, com toda calma, olhando agora no Aurélio, descobri que
calmaria pode significar também grande calor sem vento.
É isso que a gente está vivendo: um grande calor
sem vento. Apesar do frio.