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VOCÊ JÁ FEZ SEXO COM ALICATE?

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o estado de s. paulo

07/08/95

 


Já disse aqui,  mais de uma vez, que não costumo responder cartas de leitores. São muitas e teria que me dedicar um tempo maior que o disponível para elas. Mas adoro recebê-las. Gostaria de responder, por exemplo, para a Deborah, de Presidente Prudente. Ou para a Adriana, do Guarujá. Vontade de pedir foto de corpo inteiro, como sugeriu meu amigo Reinaldo Moraes.

 Gosto de cartas, sim. Principalmente com humor, como esta que eu vou transcrever, na íntegra. Como o leitor usou um pseudônimo (Ambrose Bierce IV; ou isso é nome de gente?), tenho todo o direito.

 O tema da carta foi aquela crônica onde eu tergivessava sobre a importância do joelho na relação sexual. Disse o senhor Bierce IV:

 "Parabéns pelo brilhante artigo sobre a importante questão sexo/joelho. Mostra o artigo, entretanto, desconhecimento das reais questões sexo/joelho, que são aquelas do pós-operatório. É nesta fase difícil que o cuidado é maior e em que está presente a muleta, este formidável aparato de sustentação.

 No pós-operatório, são três, e somente três, as soluções a dois. A saber:

 Solução escrivaninha: a parceira, de pé, apóia o abdômen sobre a escrivaninha, eventualmente forrada com quantidade de livros que acerte a altura da ferramenta. Com  a muleta dando sustentação à perna ruim e a perna boa dando a impulsão, faz-se o serviço.

 Solução cachorro: a parceira, de quatro na cama, com os joelhos apoiados sobre quantidade de travesseiros convenientemente e as nádegas perfeitamente alinhadas com a borda do leito. Procedimento como no caso anterior.

 Solução Persig: o doente deita-se de barriga, e tudo mais, para cima. A parceira se põe de cócoras sobre a ferramenta e executa movimentos verticais acelerados conforme: em baixo contração, tipo alicate, em cima descontração, desce descontraído e então alicate de novo e assim por diante.

 Nos dois primeiros casos o doente está com as mãos ocupadas: uma na muleta e a outra enlaçando o abdômen da parceira. No terceiro caso, as mãos estão liberadas, porém é comum que uma delas seja usada para proteger o joelho e a outra para assegurar o equilíbrio da performer.

 Cumpre notar que em qualquer dos três casos, a atenção do doente está, inevitavelmente, no joelho. Este natural descaso com o principal pode causar perda de sustentação, nos dois primeiros casos. No terceiro, pode resultar em crise de risos. Assim, nos três casos, há uma alta probabilidade de fracasso. Isso não deve, em absoluto, desestimular a experimentação.

 Sendo o que nos vem pelo momento, subscrevemo-nos, atenciosamente".

 Esta era a carta do leitor que não tinha mais nada a fazer na vida e que também deve sofrer das mazelas das suas articulações.

 Se, por um lado, veio trazer uma certa luz ao meu sofrimento mencionado em crônica passada, deixou-me com algumas dúvidas.

 Meu senhor, nem eu, nem minha parceira, entendemos o tal do "alicate". Se o senhor tivesse usado outras ferramentas como "martelo" ou mesmo "prego" (e porque não dizer "furadeira"?), teríamos seguido suas instruções. Mas alicate...

 Em que hora o alicate entra em cena? Ou na cama? Para segurar a muleta, aumentar a altura dela, beliscar alguma parte do corpo da parceira ou mesmo a minha? Será que não machuca, senhor Bierce IV? Favor mandar nova carta, falando somente do alicate.

 Isso me lembra uma história que aconteceu há uns vinte anos, logo depois do meu casamento. Como a casa era pequena, guardamos alguns eletrodomésticos, ainda dentro das caixas, debaixo da cama. Emprestamos a casa para um casal gay (aliás, conhecidíssimo), também em lua-de-mel, passar o carnaval, lá no Rio de Janeiro.

 Quando voltamos, estavam os dois completamente esfolados:

 - Foi tudo bem, a gente só não se deu bem com a batedeira de bolos.