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Você já fez o seu seguro-cachorro?

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o estado de s. paulo

02/10/95

 


Minha amiga Rita K. volta do primeiro mundo cheio deles e morrendo de saudades de bares abertos de madrugada, churrasquinho de gato e do congestionamento da Consolação. Um ano e meio, desistiu e convenceu o marido suíço a vir morar do Brasil. Enquanto ele não chega, ela me conta histórias maravilhosas daquelas frias (em todos os sentidos) plagas.

Brincando nos Campos do Senhor:

Dois jovens casais suíços, antropólogos, indigenístas e de alguma FUNAI local lá deles, resolveram visitar in loco os nossos selvagens índios da Amazônica.

Estavam lá eles, no meio do mato, com uma tribo onde ninguém se entendia. Mas eles entenderam que os índios os convidaram para passar morando uma semana com eles. Para entender a coisa mesmo. Discutiram muito os quatro jovens. Tinham medo de doenças tropicais, cobras, árvores carnívoras, feras imensas e, é claro, de serem devorados pelos terríveis alienígenas com cara de japoneses.

Mas, tudo pela profissão. Oportunidade única. Ganhariam prêmios em seu país, escreveriam livros salpicados de exóticas aventuras. Resolveram ficar. E fizeram um trato. Um não poderia se distanciar do outro mais de vinte metros. Teriam que permanecer unidos, com os olhos e ouvidos bem abertos.

Aí que tudo começou. Tinha o problema de fazer as necessidades chamadas fisiológicas no meio do selvagem e traiçoeiro mato. Teriam que ir todos na mesma hora e ficariam atrás de árvores, vendo pelo menos a cabeça um do outro. Claro que tiveram que armar uma forma de todos terem vontade na mesma hora. Isso foi o mais fácil.

Na primeira tarde ficaram eles há uns vinte metros um ou outro, formando um quadrado e conversando entre si. Com o tempo, foram se acostumando com aquela situação ficando cada vez mais próximos. Europeu quando dá para se desinibir é fogo. Até que, um dia, os quatro estavam fazendo cocô juntos, numa clareira, com a maior naturalidade do mundo, em alegres bate-papos. Frente a frente, agachados. Fico a imaginar o papo:

- E então, herr Chistofer, isso vai ou não vai?

- Nossa, Renê, que horror, o que foi que você comeu ontem?

- O mesmo que você, Elisabeth. Aquela raiz amarga.

- Já acabou, Adolf?

- Gente, esquecemos o papel.

- Pega a folha.

- Pinica, frau.

E assim foi, durante uma semana. Acho que eles aprenderam alguma coisa com os nossos índios. Hoje os quatro moram juntinhos numa mesma casa, bem no meio da Floresta Negra. E, no banheiro, são quatro as privadas.

Quem não tem cão...:

Vocês sabem que nos países civilizados, todo mundo tem seguro de tudo. O seguro-desemprego é uma realidade concreta. Mas o mais interessante é que o seguro-desemprego, pago a drogados, mendigos e demais desempregados, tem uma cláusula que só um suíço poderia bolar. O mendigo ou viciado que tiver um cachorro, o cachorro também tem o seu seguro. O Seguro-Cachorro. Claro, as autoridades protetoras dos animais suíços não querem que eles passem fome, só porque o dono está sem dinheiro. Então o viciado vai lá, se apresenta, faz o ficha do seu cão e recebe dinheiro para os dois.

Claro que o viciado deve gastar a parte do seu melhor amigo com ele mesmo. Para cada seringa, um ossinho para o bicho. Dizem que os animais que têm o Seguro-Cachorro são bem magros e subnutridos.

Mas, como não poderia deixar de ser, alguns brasileiros já estão importando cachorros portugueses que eles alugam aos mendigos e viciados. Uma firma, uma empresa. Como cachorro português não sabe latir em suíço, os suíços jamais descobrirão a picaretagem.

É o que eu sempre digo: mais uma vez o primeiro mundo se curva diante do terceiro. País que late, não morde.