Minha amiga Rita K. volta do primeiro mundo cheio deles e morrendo de
saudades de bares abertos de madrugada, churrasquinho de gato e do
congestionamento da Consolação. Um ano e meio, desistiu e convenceu o
marido suíço a vir morar do Brasil. Enquanto ele não chega, ela me conta
histórias maravilhosas daquelas frias (em todos os sentidos) plagas.
Brincando nos Campos do Senhor:
Dois jovens casais suíços, antropólogos, indigenístas e de
alguma FUNAI local lá deles, resolveram visitar in loco os nossos
selvagens índios da Amazônica.
Estavam lá eles, no meio do mato, com uma tribo onde
ninguém se entendia. Mas eles entenderam que os índios os convidaram
para passar morando uma semana com eles. Para entender a coisa mesmo.
Discutiram muito os quatro jovens. Tinham medo de doenças tropicais,
cobras, árvores carnívoras, feras imensas e, é claro, de serem devorados
pelos terríveis alienígenas com cara de japoneses.
Mas, tudo pela profissão. Oportunidade única. Ganhariam
prêmios em seu país, escreveriam livros salpicados de exóticas
aventuras. Resolveram ficar. E fizeram um trato. Um não poderia se
distanciar do outro mais de vinte metros. Teriam que permanecer unidos,
com os olhos e ouvidos bem abertos.
Aí que tudo começou. Tinha o problema de fazer as
necessidades chamadas fisiológicas no meio do selvagem e traiçoeiro
mato. Teriam que ir todos na mesma hora e ficariam atrás de árvores,
vendo pelo menos a cabeça um do outro. Claro que tiveram que armar uma
forma de todos terem vontade na mesma hora. Isso foi o mais fácil.
Na primeira tarde ficaram eles há uns vinte metros um ou
outro, formando um quadrado e conversando entre si. Com o tempo, foram
se acostumando com aquela situação ficando cada vez mais próximos.
Europeu quando dá para se desinibir é fogo. Até que, um dia, os quatro
estavam fazendo cocô juntos, numa clareira, com a maior naturalidade do
mundo, em alegres bate-papos. Frente a frente, agachados. Fico a
imaginar o papo:
- E então, herr Chistofer, isso vai ou não vai?
- Nossa, Renê, que horror, o que foi que você comeu ontem?
- O mesmo que você, Elisabeth. Aquela raiz amarga.
- Já acabou, Adolf?
- Gente, esquecemos o papel.
- Pega a folha.
- Pinica, frau.
E
assim foi,
durante uma
semana. Acho
que
eles aprenderam alguma
coisa
com os
nossos
índios.
Hoje os
quatro moram juntinhos numa
mesma
casa,
bem no
meio da
Floresta
Negra. E, no
banheiro,
são
quatro as
privadas.
Quem
não tem
cão...:
Vocês sabem que nos países civilizados, todo mundo tem
seguro de tudo. O seguro-desemprego é uma realidade concreta. Mas o mais
interessante é que o seguro-desemprego, pago a drogados, mendigos e
demais desempregados, tem uma cláusula que só um suíço poderia bolar. O
mendigo ou viciado que tiver um cachorro, o cachorro também tem o seu
seguro. O Seguro-Cachorro. Claro, as autoridades protetoras dos animais
suíços não querem que eles passem fome, só porque o dono está sem
dinheiro. Então o viciado vai lá, se apresenta, faz o ficha do seu cão e
recebe dinheiro para os dois.
Claro que o viciado deve gastar a parte do seu melhor
amigo com ele mesmo. Para cada seringa, um ossinho para o bicho. Dizem
que os animais que têm o Seguro-Cachorro são bem magros e subnutridos.
Mas, como não poderia deixar de ser, alguns brasileiros já
estão importando cachorros portugueses que eles alugam aos mendigos e
viciados. Uma firma, uma empresa. Como cachorro português não sabe latir
em suíço, os suíços jamais descobrirão a picaretagem.
É o que eu sempre digo: mais uma vez o primeiro mundo se
curva diante do terceiro. País que late, não morde.