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Você

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o estado de s. paulo

25/10/2000

 


Estou falando com Você. Você, leitor. Leitora.

Você, que só aparece no jornal quando escreve para Carta do Leitor. Logo Você, para quem é feito o jornal. Centenas, milhares de pessoas se mobilizam para Você. Sem Você não existiria jornal. E sem jornal, a crônica.

Você é a minha meta. Quero te pegar. E te garanto que uso todas as armas e ferramentas que conheço. Desculpe, mas jogo baixo e alto. Uso truques que Você não percebe. Quando Você começa a desconfiar, é tarde. Já te peguei.

Você já é meu.

Mas não é fácil te pegar. Principalmente se Você for daqueles que reclamam que eu misturo Você com tu. Como se houvesse alguma diferença entre vocês dois. Tu não acha?

Eu sei - ou será que eu desconfio - como é Você. Enquanto eu sou um só, Você é vários. Você varia de sexo, idade, cor e religião. Você é uma velhinha de 85 anos. Mas eu sei que Você tem 16 e até já me mandou uma cartinha toda bonita.

Tenho que tomar cuidado com Você. Às vezes é corintiano, no dia seguinte palmeirense. Malufista de carteirinha, Brizola lá no Rio. Você votou no Collor. Você me adora e me odeia. Mas Você me lê. E não pode negar isso, pois é o que está fazendo neste momento.

Eu não vivo sem Você. Nem desconfia, mas o meu salário tem um pouquinho de Você. O dinheiro que a minha editora me manda todo mês, saiu do seu bolso e Você nem percebeu.

Eu amo Você, sabia? E Você tem o poder sobre mim. O dia que for embora, Você acaba comigo, Você me mata. Se quiser, sumo. Me esquecem.

Você é quem manda aqui neste espaço. Às vezes, me esqueço disso, esqueço que Você está aí e faço da minha profissão uma piada, como na semana passada.

Você perdoa?

Penso muito em Você. Posso até dizer que é a pessoa em quem mais penso na vida. Tenho várias teorias sobre a sua personalidade, a sua inteligência, a sua capacidade. Às vezes te subestimo. Faço pouco caso. E sofro com isso.

Para Você, eu não posso ficar cansado, estressado, sem idéias. E Você tem razão. Você paga o mesmo preço pelo jornal todo dia. Você vem até aqui, atrás de mim. E eu tenho que estar inteiro, lúcido. E lúdico, de preferência.

Existem estudos dos mais teóricos sobre Você, o leitor. Análises profundas.

No ano passado fiquei horas e horas em Paris conversando com a Marina Maluf (nada a ver, esposa do Fernando Morais) sobre Você. Você nunca poderia imaginar isso, né? Um escritor e uma titular de História da PUC, falando sobre Você. Te esmiuçamos, sabia? Discutimos. Havia alguns pontos onde a gente discordava. A Marina te conhece muito, muito bem. Já escreveu sobre Você. Me deu livros sobre Você. Você não sabia, né?, que já foi tema de teses e mais teses? De doutoramento. Você já foi julgado, analisado, iluminado.

Me lembro bem desta conversa na cozinha. Sim, estávamos na cozinha da Marina/Fernando, falando sobre Você. E eu me lembro que a conversa teve início quando eu comecei a falar da relação do Proust com os leitores dele.

Com os Vocês franceses. Proust, além de se preocupar com o absinto e com a asma, pensava muito em Você.

Você não sabia que o Proust pensava em Você, né?

Você percebeu a sua importância?

E, neste exato momento, Você Marcela, me mandou um poema. E eu vou terminar essa declaração de amor com ele:

"Eu sem Você, não tenho porquê. Porque sem Você, não sei nem chorar. Sou chama sem luz, jardim sem luar, luar sem amor, amor sem se dar. Eu sem Você, sou só desamor, um barco sem mar, um campo sem flor, tristeza que vai, tristeza quem vem. Sem Você, meu amor, eu não sou ninguém."

Viu?, esse cara aí também pensava em Você.