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O ESTADO DE S. PAULO

10/12/2003

 


Estou lendo o livro com o título acima, autobiografia de um dos maiores escritores vivos do mundo, o sul-americano Gabriel García Márquez, brilhantemente traduzido pelo Eric Nepumoceno. Se eu já era apaixonado pela sua obra desde 1966, quando ele lançou Cem Anos de Solidão, agora amo o homem. Não apenas o homem, mas o menino e o adolescente que foi, criado pelos avós maternos num casarão do interior da Colômbia rodeado de estranhíssimas tias, fantasmas, guerras e descobertas.
Aos quatro anos, o avô, seu primeiro grande amor, o levava até a casa do Belga, um belga muito doido, e ficavam jogando xadrez. O avô e o Belga. Em silêncio. Lances demoradíssimos. O menino ali, querendo que o Belga morresse para a partida acabar. Até que alguns meses depois o Belga matou o seu cachorro e suicidou-se. Ao sair da casa do morto, Gabriel (repito, quatro anos), comentou:
- O Belga não vai mais jogar xadrez.
“Foi uma idéia simples, mas meu avô contou-a na família como se fosse uma coisa genial. As mulheres a divulgavam com tanto entusiasmo que durante algum tempo eu fugia das visitas com medo que contassem o caso na minha frente ou me obrigassem a repetir a frase. Isso me revelou, além do mais, uma condição dos adultos que haveria de me ser muito útil como escritor; cada um contava com detalhes novos, acrescentados por sua conta, até o ponto em que as diferentes versões terminavam sendo muito distintas da original. Ninguém imagina a compaixão que sinto desde então pelos pobres meninos declarados gênios pelos próprios pais, que fazem com que cantem para as visitas, ou imitem vozes de pássaros, ou até mesmo mintam para divertir-se. Hoje percebo, porém, que aquela frase tão simples foi meu primeiro êxito literário”.
A infância de Gabo (como os íntimos o chamam), só poderia fazer como que ele se tornasse o escritor que é. Lendo sua vida real, vemos que a sua ficção é muito pouco ficção. Sua casa da infância em Aracataca, lhe rendeu grande parte dos seus personagens e das loucuras dos mesmos. Não havia uma única tia “normal” naquela casa. E a memória do escritor é mesmo realista-fantástica. Criança naquele mundo de doidos em decadência financeira, ia escrevendo seus livros antes mesmo de conhecer o alfabeto. Olha esta parte em ele fala de uma das avós:
“Desde que me dei por gente sofri a tortura matinal de Mina escovando meus dentes, enquanto ela desfrutava do privilégio mágico de tirar os seus para lavá-los, e deixá-los num copo d’água enquanto dormia. Convencido de que era sua dentadura natural que ela tirava e punha por artes guajiras , fiz com que me mostrasse o interior da boca para ver como era por dentro o avesso dos olhos, do cérebro, do nariz, dos ouvidos, e sofri a desilusão de não ver nada além do céu da boca. Mas ninguém me decifrou o prodígio e durante um bom tempo estive obcecado para que o dentista fizesse a mesma coisa que tinha feito com a avó, para que ela escovasse meus dentes enquanto eu brincava na rua”.
E, como ainda faltam quatrocentas páginas para terminar o livro, entre em férias hoje.
Depois eu conto o resto. Bom natal, bom fim de ano, et cetera e tal.