Estou lendo o livro com o título acima, autobiografia de um dos maiores
escritores vivos do mundo, o sul-americano Gabriel García Márquez,
brilhantemente traduzido pelo Eric Nepumoceno. Se eu já era apaixonado
pela sua obra desde 1966, quando ele lançou Cem Anos de Solidão, agora amo
o homem. Não apenas o homem, mas o menino e o adolescente que foi, criado
pelos avós maternos num casarão do interior da Colômbia rodeado de
estranhíssimas tias, fantasmas, guerras e descobertas.
Aos quatro anos, o avô, seu primeiro grande amor, o levava até a casa do
Belga, um belga muito doido, e ficavam jogando xadrez. O avô e o Belga. Em
silêncio. Lances demoradíssimos. O menino ali, querendo que o Belga
morresse para a partida acabar. Até que alguns meses depois o Belga matou
o seu cachorro e suicidou-se. Ao sair da casa do morto, Gabriel (repito,
quatro anos), comentou:
- O Belga não vai mais jogar xadrez.
“Foi uma idéia simples, mas meu avô contou-a na família como se fosse uma
coisa genial. As mulheres a divulgavam com tanto entusiasmo que durante
algum tempo eu fugia das visitas com medo que contassem o caso na minha
frente ou me obrigassem a repetir a frase. Isso me revelou, além do mais,
uma condição dos adultos que haveria de me ser muito útil como escritor;
cada um contava com detalhes novos, acrescentados por sua conta, até o
ponto em que as diferentes versões terminavam sendo muito distintas da
original. Ninguém imagina a compaixão que sinto desde então pelos pobres
meninos declarados gênios pelos próprios pais, que fazem com que cantem
para as visitas, ou imitem vozes de pássaros, ou até mesmo mintam para
divertir-se. Hoje percebo, porém, que aquela frase tão simples foi meu
primeiro êxito literário”.
A infância de Gabo (como os íntimos o chamam), só poderia fazer como que
ele se tornasse o escritor que é. Lendo sua vida real, vemos que a sua
ficção é muito pouco ficção. Sua casa da infância em Aracataca, lhe rendeu
grande parte dos seus personagens e das loucuras dos mesmos. Não havia uma
única tia “normal” naquela casa. E a memória do escritor é mesmo
realista-fantástica. Criança naquele mundo de doidos em decadência
financeira, ia escrevendo seus livros antes mesmo de conhecer o alfabeto.
Olha esta parte em ele fala de uma das avós:
“Desde que me dei por gente sofri a tortura matinal de Mina escovando meus
dentes, enquanto ela desfrutava do privilégio mágico de tirar os seus para
lavá-los, e deixá-los num copo d’água enquanto dormia. Convencido de que
era sua dentadura natural que ela tirava e punha por artes guajiras , fiz
com que me mostrasse o interior da boca para ver como era por dentro o
avesso dos olhos, do cérebro, do nariz, dos ouvidos, e sofri a desilusão
de não ver nada além do céu da boca. Mas ninguém me decifrou o prodígio e
durante um bom tempo estive obcecado para que o dentista fizesse a mesma
coisa que tinha feito com a avó, para que ela escovasse meus dentes
enquanto eu brincava na rua”.
E, como ainda faltam quatrocentas páginas para terminar o livro, entre em
férias hoje.
Depois eu conto o resto. Bom natal, bom fim de ano, et cetera e tal.
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