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Vitória de Guimarães (vide bula)

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Revista Caros Amigos

06/09/99

 


Não, não é nem uma vitória constituinte do Ulisses e muito menos literária do Rosa, outros Guimarães, igualmente notórios e idos.

Mas de outros idos, outra viagem.

- É sobre a cidade de Guimarães, em Portugal. Uma crônica sobre Guimarães. Conhece?

- Médio.

- Lá não foi o berço de Portugal?

Foi uma coisa de família, meu caro amigo Sérgio. Coisa de pai pra filho. No caso, de filho para pai. Coisa do Antonio Henriques. Assim mesmo, no plural, talvez por ter sido tantos e de tantas glórias.

Acontece que o homem expulsou uns invasores e criou o reino de Portugal. Isso lá pelo século 12. E tinha que ter uma capital, é claro. E ele escolheu Guimarães que é onde o pai dele morava, outro Henrique. Era (e ainda é hoje, com 48 mil habitantes) um cidade pequena e charmosa. Muito verde. Norte de Portugal, perto do Minho. Aquele, da famosa dupla ginasiana o Minho e o Douro. E, quem nasce por lá, é um minhoto. E toma um bom vinho da região do Porto.

O capitão da seleção de 74, o Marinho Peres, esteve por lá, dirigindo o glorioso Vitória de Guimarães. Jamais saberemos a que vitória foi a homenagem, tal a quantidade delas nas mãos dos henriques e dos sanchos d'antanho.

Fui lá uma vez, assistir a um jogo com ele, sentado no banco de reservas. O jogo era contra o Sporting (onde ele havia sido treinador durante quase três anos) e perdemos de quatro a um. E o Marinho tentava de explicar a história.

- Nessa cidade só tem padre e rei. E padre e rei não são bom de bola. Veja as principais atrações daqui, fora o Vitória, é claro: a igreja de São Francisco, a capela da Ordem Terceira e as ruínas da igreja de São Domingos. Fora o mosteiro dos dominicanos. É muito santo pra pouco craque.

Depois, o mesmo Afonso Henriques foi para o sul, conquistou Santarém e Lisboa e consolidou de vez o Reino Unido de Portugal e Algarves. E olha que, para conquistar Lisboa ele se aliou aos alemães, flamengos (sem Romário), normandos, ingleses e escoceses. Coitado dos muçulmanos.

Mas logo depois, um dos Sanchos (Portugal teve vários Sanchos, descendentes diretos do Henriques). Pois um deles mudou a capital para Coimbra e o Afonso Pancho III (já devia ser o neto), já em 1256, transferia-a para Lisboa. E aqui voltamos ao Ulisses. Pois diz a lenda que a palavra Lisboa vem do herói grego Ulisses que por lá teceu algumas raparigas e mordiscou - em algures – cachopas, enquanto Penélope penava sozinha. O mais impressionante disso tudo é que Ulisses é um personagem de ficção. Seria também Lisboa uma ficção e a capital ainda seria Guimarães? Estás a perceber?

Mas o que importa é que o simpático povo de Guimarães se orgulha até hoje e jamais se esqueceu que foi ali que tudo começou com tantos henriques e tantos sanchos.

No ano passado, por exemplo, a cidade foi escolhida como a Capital Cultural da Lusofonia e isso é muito importante para eles. E veja o que dizia um folheto de divulgação do evento:

Tratou-se de uma distinção com grande significado mas, também, com grande exigência. A inclusão de Guimarães no grupo de cidades-membros da UCCLA (?) deveu-se ao significado de Guimarães ter sido a cidade capital no nascimento da Nação Portuguesa e, conseqüentemente, uma Cidade-Mãe de toda a comunidade lusófona.

Quanto à origem da palavra Guimarães, o Marinho Peres não conseguiu me adiantar nada. Devia, talvez, ser o sobrenome do bisavô do primeiro Henriques. Mas, me disse ele, quem nasce em Guimarães não se chama guimarãesense, não. Chama-se vimaranense.

- E não me pergunte por que, porque isso foge da minha alçada e do próprio alcaide atual.

Tudo bem, Marinho, tudo bem, Sergio, afinal, quem nasce no Porto chama-se tripeiro e quem nasce em Lisboa, Alfacinha. E as explicações se confundem pelos séculos. Mas isso é outra crônica e fica pra outra bula.

E, por falar em bula, lá em Portugal bula tem outros significados:

- Outrora, bula papal que concedia indulgências a quem contribuía com armas ou dinheiro para combater os infiéis.

- Concessão de indulgência a quem contribui materialmente para a fundação de seminários, reparação de edifícios eclesiásticos, etc.