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o estado de s. paulo

25.9.94

 


VOCÊ já fez, alguma vez, uma endoscopia? Nem sabe o que é isso? É o seguinte: eles enfiam um cabo com uma câmera de televisão pela sua boca, garganta a dentro, e ficam bisbilhotando o seu esôfago, o seu estômago e vão até o duodeno. Recomendo por dois motivos: primeiro que você fica se conhecendo melhor. Fica íntimo do seu interior, participa de uma intimidade interior e sua que você jamais poderia imaginar, e fica por dentro de você mesmo. E, em segundo lugar porque, para que as suas estranhas entranhas apareçam na TV (a cores), te dão uma injeção na veia que é, no mínimo, interessante.

É muito engraçado e rico ficar numa sala de espera onde todos serão esofagogastroduodenoscopizados. A palavra oficial é essa. Tente repetir. Todos entram valentes, garbosos e falantes. Firmes. E saem, quinze minutos depois, totalmente drogados, cambaleantes, o olho paradão, sem mesmo saber o rumo de casa. Lembra do lança-perfume? Mais ou menos aquilo. Só que dura mais. O barato aplicado e um terço de Dolantina, um terço de Diazepan e uma talagada de Buscopan. Na veia. Bate na hora.

Dois dias depois você vai buscar o resultado e está lá o cenário da sua novela interna, a vida íntima de personagens com quem lidamos diariamente e pouco sabemos deles.

Ficamos sabendo coisas interessantíssimas sobre o lado de dentro da gente. Por exemplo, o meu esôfago tem boa expansibilidade e calibre conservados. Tenho orgulho disso. Calibre conservado a álcool, provavelmente. Fiquei sabendo também, incrédulo, que tenho a mucosa esbranquiçada e espessada, principalmente em um terço distal. E mais: não há erosões ou úlceras, nem hérnia hiatal às manobras de esforço abdominal. Deve ser o seguinte: posso fazer abdominais tranqüilamente, que o esôfago garante.

Vamos agora para a cena seguinte, o estômago, que, segundo o relatório, estava em boas condições para o exame, com o lago mucoso claro, sem resíduos alimentares. Não é poético saber que temos, lá dentro, um lago? Mucoso, mas lago. À manobra de retrovisão, o fundo e o cárdia não apresentam alteração. O que a doutora quis dizer com isso é que ela fez uma tomada de câmera complicada; deve ter dado um zoom nas minhas pregas. Sim, porque, logo a seguir, me informa que o pregueado mucoso de corpo segue sua distribuição regularmente. Felizmente. E fico sabendo, finalmente, que a mucosa de incisura angularis e antro está íntegra e sem lesões. Ou seja, além do lago, descubro que tenho um antro lá dentro. E conclui que o meu piloro está centrado e facilmente permeável. Não me pergutem o que é o meu piloro. O que importa é que ele está centrado. Já o fato dele estar facilmente permeável não deve ser coisa boa. Preferia ter um piloro mais firme, duro, impermeável.

Partimos agora para o duodeno que, como o próprio nome indica, tem o tamanho de doze dedos. Lá a barra estava pesada: a mucosa adjacente está hiperemiada e edemaciada. Entenderam? Nem eu, mas não deve ser boa coisa. Mas, felizmente, não há qualquer sinal de sangramento ou estenose. E, de repente, uma cena digna de final de capítulo. A vilã finalmente mostra a sua cara para os espectadores: em parede posterior próxima à transição para a segunda porção, uma úlcera alongada de 5 a 10 mm de média profundidade e fundo com fibrina. Para minha alegria (e do meu duodeno), a segunda porção não apresenta anormalidades.

Conclusão: tenho uma úlcera bulbar ativa. Claro, jamais me sujeitaria a ter uma úlcera bulbar passiva. É a envelhescência!