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VESTIBULAR PARA VESTIBULADORES

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ISTOÉ

1998

 


Há uns trinta anos que os primeiros classificados nos vestibulares são chineses, coreanos e japoneses. Há trinta anos que não se ouve mais falar neles depois desses minutos de glória. O que será? Onde se meteram depois da decoreba?

Há três anos acompanhado os vestibulares de perto. Você já viu as provas, as questões que caem? O que é que um cara que vai fazer artes cênicas tem a ver com a plataforma marítima do sul da Austrália? E a curva de Gauss? Unificaram tudo. Aliás, todas as provas de vestibular em São Paulo, acompanhei de perto. Não passaria nem em português. Com exceção da Unicamp e da PUc-São Paulo, as provas foram feitas para chineses, por professores que não falam - absolutamente - a mesma língua dos estudantes. E você, aí, bem posto na vida, passaria num Fuvest hoje em dia? Tenho certeza que não.

Cada vez mais que convenço que as questões falam de uma realidade e os jovens vestibulandos, vivem outra. Os vestibuladores (deve ser o nome dos que “bolam” os quesitos) não passariam por um vestibular preparado pelos estudantes.

Por exemplo: “quem não tem colírio, usa óculos escuros”. O que um vestibulador diria disto? Tudo, menos o certo: o assunto refere-se ao uso da maconha.

Será que os vestibuladores sabem o que é:

Animal? Não, não é nem bicho e nem o Edmundo.

Bagana? Tribo xingu, ou planta rasteira? Nada disso. Pergunte ao seu filho.

Balada? Elvis Presley? Como você está por fora, meu caro professor.                             

Básico não tem nada a ver com o curso que ele já fez e muito menos com algo essencial.

Beata. Seu filho vai morrer de rir se você disser que beata é aquela velhinha que vai na igreja todos os dias. Peça uma para ele.

Becado. Não, senhor, professor, não tem nada a ver com vestimenta de magistrado ou juiz.

Se você acha que a Bic é usada só para escrever, nunca viu um paraiso artifical pela frente.

Há muito tempo que boquete não é  mais uma entrada estreita, como diz o Aurélio.

E breaca, irmão? Consegue imaginar o que seja uma mulher breaca?

Brilho, há muito tempo não significa o jeitão que ficou o seu assoalho.

Brizola deixou de ser político há muito tempo. Sua filha, Neuzinha, que o diga.

Chavecar, com ch ou com x, não é mais andar de embarcação. Sabia?

Cheirar? É mais ou menos como tirar o pó dos móveis.

Cinira não é mais nome de mulher. Parece sinistro, não parece?

Posso lhe garantir que colombiana não é mais quem nasce na Colômbia, nem uma colombina, muito menos as mulheres que seguiam Colombo.

Dar um tiro não significa mais tentar acertar um alvo ou deixar uma bala perdida por aí.

Ficar é incrível. É quase o contrário de ficar estático.

Fileira não tem mais nada a ver com fila. A não ser com a fila que fica atrás da fileira. Entendeu?

Galera. Nem antigo navio, nem torcida. Pergunte para a galera da sua casa.

Gererê? Tribo indígena? Tu tá por fora mesmo.

Matar! Tão gostoso alguém perguntar a um jovem: quer matar? Não, pode matar você mesmo.

Mó. Pedra de moinho? Palavra de palavras cruzadas? Mó erro.

Não fique preocupada se você não souber o que é noiada. Não vai cair na prova. Bilac também não sabia. Nem os vestibuladores.

Pá. Há muito tempo que deixou de ser um objeto. A não ser que você se considera um objeto do seu filho.

Paranga. Você é uma trouxinha se não souber o que é isto.

Peteca. As petecas estão cada vez menores e mais caras. Já percebeu?

Por na roda uma presença. Isso é bom, isso é bom demais.

Racionais. Há de se ouvir um bom racional. Percebeu, meu caro vestibulador, como você está por fora e fica a julgar os jovens muito mais racionais que você?

Sarado? Não professor, um jovem sarado ou saradinho, nunca esteve doente. Muito pelo contrário.

Tipo se você sipar sarado e sirolar não vai sujar, tá ligado? Ou você não está nessa viagem?

E os cursinhos, então? Alguns, mais caros que um ano em Harvard ou Berkeley. Isto é que é primeiro mundo!!!

Afinal, e por fim, mas não menos importante, gostaria de perguntar aos doutores mestres:

Dentre as alternativas abaixo, qual não descreve a instituição cursinho?

a - Leito estreito e pouco profundo das nascentes dos rios do centro-oeste capixaba;

b - Engodo semelhante à auto-escola, conveniado ao Detran e ao MEC;

c - Ritual de passagem judaico-cristão que tem, no sofrimento e na auto-penitência, seus alicerces;

d - Lobotomia grupal, visando a aniquilação dos instintos e da criatividade pessoal;

e - Curso intensivo de truco, jogo de baralho violento e ruidoso, muito comum em finais de milênios. Uma espécie de clubão;

f - Concentração inútil de jovens talentosos, com finalidade econômica, de fins culturais ainda não conhecidos;

g - nenhuma das respostas anteriores