Página anterior

VELHINHO É A VÓ!

Próxima crônica

o estado de s. paulo

1996

 


Várias coisas me deixam perplexo no Zagallo. Até mesmo, não sei o por que, os dois eles do nome. São de lobo. Mas o que me deixa mais perplexo mesmo, boquiaberto, pasmo, lívido, é a total falta de tato com os jovens. Zagallo nunca deve ter lido nem uma crônica na Claudia sobre psicologia.

De uns tempos para cá ele deu para chamar os jogadores com idade em torno de 30 anos de “velhinhos”. Claro que ele diz isso de uma maneira simpática, bonachona, de paizão mesmo. Modelito que gosta de fazer, depois que ficou mais velhinho.

Sei não. Ninguém, fora os adolescentes, gosta de ser chamado de velho ou velha. Mesmo afetivamente. Qualquer que seja a idade que tenhamos. Mas um sujeito com trinta anos, virando a curva, driblando a própria esquina da vida, tem lá seus problemas, sofre muito mais com a coisa. É a chamada hora da verdade. Chega de ser moleque, deixa eu cair na real. É quando os homens resolvem ser pais. Sentem que viraram gente.

O jogador de futebol com 30 anos está vivendo, na sua carreira profissional, os seus últimos anos, o canto do cisne. É uma carreira atípica. Quando ele, finalmente, tá sabendo tudo, vai para a reserva e, dali, para casa. O jogador de futebol sabe que está em fim de carreira e, pior, que isso é irreversível. Até hoje a Fifa, que tem filiados em duzentos países, jamais registrou um caso de jogador que tenha, com o passar dos tempo, ficado mais jovem.  Neste idade o cara não tem a menor idéia do que vai ser a vida dele dali a dois, três anos. Você já pensou nisso, Zagallo? Quando você foi campeão do mundo em 58, tinha 28 anos. Já devia estar preocupado com o assunto.

Jogador de futebol e modelo. Para estes profissionais, fazer 30 anos assusta. 31 então, nem pensar. Meu Deus, e com 35?

Aldair, Dunga e Romário, os três velhinhos do Zagallo, devem estar sofrendo e muito com esse negócio. Para mim, três jovens homens. Para o futebol e para Zagallo, três simpáticos velhinhos. Velhinhos craques.

Já que o papo é esse, eu poria mais uns velhinhos no time: Raí, Mauro Silva e até o outro, o Galvão. O técnico diz que só quer três velhinhos, porque o time dele precisa correr. Meu querido Zagallo, você com quase setenta 70 anos sabe que, hoje em dia é melhor dar uma tirando (com a experiência de velhinho) do que dar cinco (penta?) sem tirar (com aquela nossa velha inexperiência).

Acho que a nossa seleção devia usar a sabedoia dos mais velhos. Dos jogadores mais velhos. E não do técnico. Correria no futebol é coisa de europeu, de alemão. Veja aquela seleção de 70 onde o Zagallo era o técnico. Jogava quase que parada, a bola rolando de geniais pés para geniais cabeças. Um baile, uma valsa, só comparável com aquele meio de campo com o Cerezzo, Falcão, Zico e Sócrates.

Trinta anos, começo da maturidade. Velhinhos? Jogue a bola na cabeça deles, Zagallo, como você fazia para o Pelé em 58 e Vavá e Amarildo em 62. Mas procure entender a cabeças desses rapazes. São bem mais novos que seus filhos. Eles querem ser tratados como meninos, meninos bom de bola, boleiros.

Vamos deixar esse negócio de velhinho de lado. Dá gemada para eles.

***

E por falar em técnico e psicologia, eu fico olhando para o Wanderley Luxemburgo e não entendo aquela roupa dele. Aquele terno impecável, aquela gravata do Mappin Movietone.

Na Europa, tudo bem, faz frio, é comum o uso do terno. Mas aqui do Brasil, Luxemburgo? Com esse sol, sem esse gol? Para sentar naquele banquinho de cimento sujo do banco de reserva? Com aquela grama molhada sujando a barra da calça? E o xixi que jogam da arquibancada, cai onde?

O Luxemburgo vestido daquele jeito, não lembra segurança do Maluf?

Eu acho que o Luxemburgo é doido. Pensa bem. Me dê um motivo para aquela fantasia. Um só. Basta um que eu calo a boca. Acho que deve ser algum problema psicológico também. Logo um cara tão talentoso como ele?

Fico imaginando a mulher dele, lidando com os ternos sujos:

- Olha aí, Wander, a bunda tá toda puida! E os carrapatos, então? E o pior é o Junior que quer porque quer ir lutar judô, de terno.

Quem deve gostar disso é a lavanderia da esquina. São uns três ternos por semana para lavar.

Pensando bem, todo técnico de futebol brasileiro é doido. Tem um até que bate em jornalista. Mas aí já é caso para psiquiatra.