Deu vontade de ver o Brasil dar uma goleada no Peru.
E convidei uma professora austríaca que está no Brasil fazendo uma tese de
doutoramento sobre os nossos cronistas. Andou lendo o Nélson Rodrigues,
queria ver um jogo. Comigo mesmo.
Fui educado, fino e caro: consegui ingressos de R$
50. Os mais caros. No melhor lugar, avisei a Barbara. "R$ 50? Trinta por
cento de um salário mínimo?" E o ingresso impressionava qualquer primeiro
mundo. Uma cartela cheia de efeitos e, no meio, encaixadinho, o ingresso
que parecia um cartão de crédito. E escrito lá: Cadeira Superior. Mais do
que isso: Cadeira Superior Especial. Coisa de luxo. E ela me fez a
primeira pergunta:
- Não é numerado? A cadeira não tem número?
Tive de dar a explicação: antigamente era. Mas, como
ninguém respeitava a numeração, deixou de ser. Ou seja, como a lei era
desrespeitada, em vez de fazerem valer a lei, tiraram a lei. Mas fica
tranqüila, é Cadeira Especial.
Eu havia lavado o carro. E estava bem vestido, porque
depois do jogo, lá mesmo, no Morumbi, tinha o aniversário do meu primo, o
Hugo. Eu disse que havia lavado o carro, porque você não pode imaginar o
estado em que ele ficou logo depois. Sim, quanto mais você se aproxima do
estádio mais elementos pulam em cima do seu carro, tentando te vender
ingressos (por três vezes o valor) ou querendo te garantir uma vaga logo
ali por aquele preço que você sabe. Foi quando ela fez a segunda pergunta,
diante da horda de hunos:
- Mas não tem policiamento?
- Tinha, mas essa turma foi ficando maior que a dos
policiais, então tiraram.
Aí já não valia mais mão ou contramão. A única mão
que valia era a do cara no seu vidro. Travei tudo. Olhei para ela e achei
que ela estava pensando na morte.
Depois de estacionar (vou pular esta parte, porque
não temos espaço) chega-se em frente do estádio. No ingresso estava
escrito portão 5. Azul. Mais ou menos 10 mil pessoas apertadas perguntavam
entre si: aqui é azul ou laranja? Ninguém para responder. Ninguém! Para
facilitar as coisas, cinco policiais montados a cavalo tentavam colocar
ordem na coisa. Cocô para todo lado. Dizem que aquela fila é a azul. Não,
aquela é a laranja. Tem uma cerca, não pode pular. Rodamos, rodamos e
achamos o portão 5. O número estava escrito bem pequeno.
Entramos. Catraca eletrônica, modernérrima. Aí
pergunto, todo cheio de orgulho e riqueza:
- Onde é a Cadeira Especial?
- Daqui até lá.
Daqui até lá, era o lado direito inteiro do estádio.
Tudo ali era Cadeira Especial. Nos sentamos lá em cima, na penúltima fila.
Aos nossos pés uma poça d'água completa. A fileira inteira molhada. Água
pra valer. Não, não havia chovido naquela noite. A moça estava de
sandália... Arregaçou a calça como se nada estivesse acontecendo.
As pessoas que iam chegando, pediam licença, passavam
por cima da gente, pisavam nas nossas cadeiras e desciam. Pisavam com os
pés molhados, é claro. O líquido parecia ser água. Foi quando ela fez a
terceira pergunta:
- Não tem corredor, para as pessoas descerem?
Antes de eu tentar explicar que antigamente tinha,
ela fez a quarta pergunta:
- Por que o jogo não começa às 8 da noite? Nunca vi
um esporte começar às 10 horas.
Ia falar na televisão, na novela das 8. Mas ela não
ia entender. Ia fazer muita pergunta. Como explicar para ela que é para os
torcedores ficarem enchendo a cara no bar das 6 até as 10 da noite,
esperando a novela acabar? Que não vendem bebida alcoólica lá dentro
porque todo mundo já entra de cara cheia? Happy hour de torcedor
brasileiro é coisa séria, pensei olhando para os olhos azuis dela,
pensando no Mozart, em Salzburg. Mas logo voltei ao Morumbi.
Quando ia começar o jogo, ela me perguntou onde era o
banheiro.
- Melhor, não. Em último caso, voltamos para casa.
- Non entender.
Como se ela estivesse entendendo alguma coisa até
ali. E me fez mais uma pergunta complicada:
Queria saber por que é que entre o alambrado e o
gramado tinha quase cem metros de distância. Por que a arquibancada era
longe do campo.
É que antigamente...
Deixa pra lá.
Saímos do estádio à meia-noite imundos, suados e
apertados para fazer um inocente xixi. O carro, uma impressão digital só.
Isso tudo durou quatro horas. E ela não acreditou que
esteve no melhor estádio de futebol de São Paulo.
Entendeu, Hugo, por que não fomos ao seu aniversário?
Soube que tinha até peru. Parabéns, cara!!!