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Vale a pena ser Tereza collor?

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o estado de s. paulo

06/98

 


Paris - Sabe o que a Tereza Collor jantou ontem? Filet de boeuf grillé, sauce béarnaise. Trocando em miúdos: o nosso velho, bom e manjado (mangê?) filé com fritas. Vinho francês? Não, duas cocas. E não eram diet, não. Sobremesa? Sorbets avec parfum de votre choix. Sorvete mesmo e ela escolheu de chocolate. Se você fizer questão, posso dizer até mesmo como foi o almoço e o café da manhã desse domingo.

Não, infelizmente não foi ao meu lado num belo restaurante francês (o Fouquet’s seria ideal) tomando champanha nacional ,que o fato se deu. Sim, por outro lado, foi ao meu lado. Uma parede de vinte centímetros nos separa aqui nesse hotel metido a francês, perto do Arco do Triunfo.

A periclitante proximidade, a avassaladora beleza e a pasmante simpatia dessa guapíssima gabriela do interior das Alagoas faz com que eu dedique alguns minutos do meu dia a pensar nela. Afinal, estamos no mesmo barco e já temos algo em comum: a copa.

E fico pensando: vale a pena ser Tereza Collor? Como se não bastasse ela ser a Tereza Collor ele se veste de terezacollor. Nem tente imaginar a Tereza Collor vestida de outra maneira. A criatura veste a personagem. Ela assumiu o terezacollorismo, enquanto e quando podia ficar apenas a tocar lira. Ela criou o modelo e se encaixou, emoldurou-se dentro dele. Ela é a e o modelo.

Tereza não sai do quarto, aqui em Paris. Não pode. Tereza não pode sair do quarto aqui na França. Lá embaixo, dentro do hotel, algumas centenas de torcedores brasileiros sabem da ilustre hóspede e torcedora. Basta abrir o elevador é as amadoras fotografias espoucam. Pedaços de papeis para um risco do nome dela. “Por favor, abraçado, não”, pede ela tentando uma humildade que parece realmente ter. Mas como ser humilde e simpática o tempo todo? Como não se esquecer que os antepassados alagoanos trucidaram e comeram, literalmente, o bispo Sardinha, com osso e tudo?

No trem-bala, a caminho de Nantes e da Dinamarca, ela tenta ler um livro. Em vão. O assédio é mais rápido que o TGV e os parágrafos. No estádio, o Brasil ainda não entrou em campo. Mas ela, sim. Vinte mil brasileiros sabem onde ela está sentada. Cercada por irmãos, irmãs, cunhados, cunhadas, pai e mãe e o escamabu, ela se levanta para ver a entrada dos canarinhos. Mas os assovios são para ela. Impossível não lembrar dos fotógrafos correndo atrás da Lady Di, no túnel, ali mesmo, ao lado do Sena. E ela sorri. Ela tem que sorrir. O Brasil está de olho nela.

Impossível, para ela, ir à Torre Eiffel que se curvaria com o peso dos olhares verde-amarelos. O Arco do Triunfo abriria suas portas para a sua passagem e a Bastilha (que já foi um castelo-prisão, como o quarto dela aqui no hotel)) só não ruiria porque já houve a queda em 1789.

Vale a pena ser ela?, fico a me perguntar enquanto posso ir tentando seguir os seus passos no quarto ao lado. Liga a televisão, roda por vários canais, o telefone toca, não dá para ouvir. La Vie en Rose?, espinafraria Edith Piaf.

Aqui ao lado do hotel tem uma peruqueria. Ando pensando em comprar uma daquelas bem loira e enfiar na cabeça dela. Dar um banho na maquiagem naquele rosto talhado em mármore quente, um par de óculos escuros e levá-la na minha imaginação de menino traquinas e mineiro para a Disney. Só pra ver a Tereza sorrir por conta dela mesma, só pra ela sentir o frio na barriga numa curva de montanha russa e posar ao lado da Minie. Ver a Tereza pedindo autógrafo para o Pateta, ver a Tereza soltar a criança que deve ter dentro dela. Ouvir a Tereza chupar sorvete ao ar livre e depois comer filé com fritas com as mãos sem esmalte. Tirar a roupa de terezacollor que ela usa, meter ali uma velha calça lee desbotada, um tênis sujo, uma camiseta escrita no peito Center Castilho ou W/Brasil. Colocar a moça na vida, enfim. Tomar uma caipirinha na praia de Marselha, dar um caldo nela no Sena, em frente da Nossa Senhora.

Tirar essa nossa Lady Di cor de jambo da lente-túnel dos fotógrafos, tirar das fofocas das caras & caretas, das manchetes globais. Pôr na vida.

Tirar essa menina assustada dessa Bastilha onde (in)voluntarimente se encarcerou aqui na França, aqui em Paris, aqui no hotel, aqui, do meu lado. Logo ali, depois de apenas um tijolo e um punhado de tinta amarela.

E passar pelo corredor de carpete vermelho como as suas unhas e não ver sempre, sempre, sempre, aquele pedaço de papel pendurado onde ela mesma, por querer ou sem querer, um dia precisou escrever:

Ne Pas Deranger! Ou, se preferem, Do Not Disturb! Ou, para falar em brasileiro bem claro: Não Me Encham o Saco!