Paris
- Sabe o que a Tereza Collor jantou ontem? Filet de boeuf grillé, sauce béarnaise.
Trocando em miúdos: o nosso velho, bom e manjado (mangê?) filé com fritas.
Vinho francês? Não, duas cocas. E não eram diet, não. Sobremesa? Sorbets
avec parfum de votre choix. Sorvete mesmo e ela escolheu de chocolate. Se você
fizer questão, posso dizer até mesmo como foi o almoço e o café da manhã
desse domingo.
Não,
infelizmente não foi ao meu lado num belo restaurante francês (o Fouquet’s
seria ideal) tomando champanha nacional ,que o fato se deu. Sim, por outro
lado, foi ao meu lado. Uma parede de vinte centímetros nos separa aqui nesse
hotel metido a francês, perto do Arco do Triunfo.
A
periclitante proximidade, a avassaladora beleza e a pasmante simpatia dessa
guapíssima gabriela do interior das Alagoas faz com que eu dedique alguns
minutos do meu dia a pensar nela. Afinal, estamos no mesmo barco e já temos
algo em comum: a copa.
E
fico pensando: vale a pena ser Tereza Collor? Como se não bastasse ela ser a
Tereza Collor ele se veste de terezacollor. Nem tente imaginar a Tereza Collor
vestida de outra maneira. A criatura veste a personagem. Ela assumiu o
terezacollorismo, enquanto e quando podia ficar apenas a tocar lira. Ela criou
o modelo e se encaixou, emoldurou-se dentro dele. Ela é a e o modelo.
Tereza
não sai do quarto, aqui em Paris. Não pode. Tereza não pode sair do quarto
aqui na França. Lá embaixo, dentro do hotel, algumas centenas de torcedores
brasileiros sabem da ilustre hóspede e torcedora. Basta abrir o elevador é
as amadoras fotografias espoucam. Pedaços de papeis para um risco do nome
dela. “Por favor, abraçado, não”, pede ela tentando uma humildade que
parece realmente ter. Mas como ser humilde e simpática o tempo todo? Como não
se esquecer que os antepassados alagoanos trucidaram e comeram, literalmente,
o bispo Sardinha, com osso e tudo?
No
trem-bala, a caminho de Nantes e da Dinamarca, ela tenta ler um livro. Em vão.
O assédio é mais rápido que o TGV e os parágrafos. No estádio, o Brasil
ainda não entrou em campo. Mas ela, sim. Vinte mil brasileiros sabem onde ela
está sentada. Cercada por irmãos, irmãs, cunhados, cunhadas, pai e mãe e o
escamabu, ela se levanta para ver a entrada dos canarinhos. Mas os assovios são
para ela. Impossível não lembrar dos fotógrafos correndo atrás da Lady Di,
no túnel, ali mesmo, ao lado do Sena. E ela sorri. Ela tem que sorrir. O
Brasil está de olho nela.
Impossível,
para ela, ir à Torre Eiffel que se curvaria com o peso dos olhares
verde-amarelos. O Arco do Triunfo abriria suas portas para a sua passagem e a
Bastilha (que já foi um castelo-prisão, como o quarto dela aqui no hotel)) só
não ruiria porque já houve a queda em 1789.
Vale
a pena ser ela?, fico a me perguntar enquanto posso ir tentando seguir os seus
passos no quarto ao lado. Liga a televisão, roda por vários canais, o
telefone toca, não dá para ouvir. La
Vie en Rose?, espinafraria Edith Piaf.
Aqui
ao lado do hotel tem uma peruqueria. Ando pensando em comprar uma daquelas bem
loira e enfiar na cabeça dela. Dar um banho na maquiagem naquele rosto
talhado em mármore quente, um par de óculos escuros e levá-la na minha
imaginação de menino traquinas e mineiro para a Disney. Só pra ver a Tereza
sorrir por conta dela mesma, só pra ela sentir o frio na barriga numa curva
de montanha russa e posar ao lado da Minie. Ver a Tereza pedindo autógrafo
para o Pateta, ver a Tereza soltar a criança que deve ter dentro dela. Ouvir
a Tereza chupar sorvete ao ar livre e depois comer filé com fritas com as mãos
sem esmalte. Tirar a roupa de terezacollor que ela usa, meter ali uma velha
calça lee desbotada, um tênis sujo, uma camiseta escrita no peito Center
Castilho ou W/Brasil. Colocar a moça na vida, enfim. Tomar uma caipirinha na
praia de Marselha, dar um caldo nela no Sena, em frente da Nossa Senhora.
Tirar
essa nossa Lady Di cor de jambo da lente-túnel dos fotógrafos, tirar das
fofocas das caras & caretas, das manchetes globais. Pôr na vida.
Tirar
essa menina assustada dessa Bastilha onde (in)voluntarimente se encarcerou
aqui na França, aqui em Paris, aqui no hotel, aqui, do meu lado. Logo ali,
depois de apenas um tijolo e um punhado de tinta amarela.
E
passar pelo corredor de carpete vermelho como as suas unhas e não ver sempre,
sempre, sempre, aquele pedaço de papel pendurado onde ela mesma, por querer
ou sem querer, um dia precisou escrever:
Ne
Pas Deranger! Ou, se preferem, Do Not Disturb! Ou, para falar em brasileiro
bem claro: Não Me Encham o Saco!