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Vaca louca

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o estado de s. paulo

21/02/2001

 


Eu não queria me meter nessa história da vaca louca. Mesmo porque o Verissimo escreveu uma crônica aqui outro dia. Definitiva. E também, não posso confiar muito num país onde a polícia anda montada e tem uma florzinha vermelha na bandeira.

Mas resolveram testar a nossa vaca e saiu em todos os jornais. Sabe-se lá Deus por que, mas foi em Lins que resolveram verificar se a nossa vaca é louca mesmo. Sou de lá, conheço bem as minhas vacas, o meu gado. Tem até veado louco, mas vaca posso garantir que não. Aliás, como ficou comprovado nos testes com as vacas linenses.

Não sei se testaram todas as vacas da cidade. Mesmo porque, as vacas do meu tempo já foram para o brejo há muito tempo. Como uma professora de matemática que eu tive e que era mesmo louca.

A Véia Izabé e a Gaúcha, verdadeiras vacas leiteiras da zona local, devem ter falecido há muito. A Beleza e a Lindeza se esvaíram com o tempo.

Tenho muitos amigos que se casaram com moças lá de Lins mesmo. E sempre se referiam às sogras como vacas. Vacas, sim. Mas loucas, não.

Mas pensando aqui de longe, distante da cidade há alguns anos, me lembrei de um cara que tinha uma plantação de maconha na fazenda dele. Talvez tenha sido isso. As vacas comeram a plantação de maconha e ficaram loucas.

Doidonas, pastando pela cidade, dizendo absurdos e morrendo de rir dos canadenses caretas. E uma perguntando pra outra:

- O que é mesmo que a gente tava falando?

Fico aqui imaginando aquele bando de vacas loucas, entrando pela cidade, às gargalhadas. Requebrando, mexendo com os burros, os jumentos e até mesmo com os cachorros. Cachorro doido sempre teve.

Da vaca louca, imagino até o olhar dela. Meio perdido atrás da cerca das fazendas, pensando besteiras sobre os fazendeiros, olhão caído, avermelhado.

Aquele sorrizinho nos lábios que só uma vaca muito louca consegue exprimir.

Algumas em overdose, achando que são gansos, tentando nadar na fonte da pracinha. Outras, mais doidas ainda, achando que são freiras do Colégio das Freiras.

Vaca louca deve até subir em árvore lá na Praça Coronel Pisa. Vacas loucas cantando em dueto no coreto da pracinha.

Nuas dentro do cinema ou barbarizando em filme do Bill Halley. Vaca louca chamando bezerro de meu louro.

E agora fico imaginando aquele bando de canadenses caretas chegando à cidade e vendo as vacas todas doidonas pela cidade. Aquele bafo de patchuli caboclo. Vaca pingando colírio. Vaca de óculos escuros pra não dar bandeira.

Vaca dechavando sentada na grama, passando a língua no papelzinho.

Charutaços. Vaca com as unhas do pé pintadas de vermelho! Piercing nas tetas, tatuagem no lombo.

A prefeita pode alegar que a maconha é colombiana e desviar a atenção para aquele país. Mas vai ter vaca dizendo que o fumo é falsificado e paraguaio.

Vai ter vaca de bode! Vai dar bode. Vai ter vaca imaginando estar vendo boi dormir. Vai ter boi na linha. Vai ter vaca achando que a Polícia Montada é o Papai Noel de verão.

Deve ter umas vacas com conversa pra boi dormir.

Vai ter vaca doida com complexo de Ícaro que vai subir lá em cima da torre da catedral e voar lá de cima. Vai estar tocando Boi Voador, do Chico Buarque, verdadeiro hino das vacas loucas.

E quando uma vaca que não fumou observar aquela zona toda com os bois todos animados, vai futricar:

- Aquilo é boi de piranha!

É, a vaca louca vai amolar o boi.

O que eu acho mesmo é que uma vaca louca deve ser muito legal. Deve estar numa boa com ela mesma. Tá certo que os canadenses não vão entender nem a alegria das nossas vacas e muito menos a nossa.

E, cá entre nós, o Canadá existe mesmo? Alguém aí já viu um canadense? Louco ou não? Duvido. Um bando de vacas caretas.