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URUGUAIANAS E NORTENAS

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o estado de s. paulo

05/09/95

 


MONTEVIDÉU -

1- O povo uruguaio é simpático, culto e educado. E tem humor. E memória. Estava eu almoçando no Mercado da Aduana (que carnes, muchachos!) e o garçom a puxar conversa, naquele nosso velho e bom portunhol.Depois de falar em Collor e Cardoso (FH), me pergunta:

- Como está Cabana?

Cabana?, penso eu. Será algum jogador de alguma outra seleção? Me parece nome de jogador peruano. Daqueles antigos. Cubillas, coisa assim.

- Cabana? Não conheço.

- Como não? Aquela praia famosa do Rio de Janeiro.

- Ah, sim. Nào é Cabana. É Copacabana.

- Não. É Cabana. Porque a Copa nosotros trouxemos em 50!

E riu. Gostei dele. Dei propina (gorjetas, cara pálidas) dobrada.

2 - Agora, passando esses dias aqui no Uruguai, entendo quando o presidente FH e seus cupinchas econômicos dizem que o Real é forte. Realmente, aqui, fora do Brasil é fortíssimo. Porque aí, pode ser forte, mas não compra nada. Qual é a vantagem? Aqui, ele vale realmente mais do que o dólar. E tudo fica barato para nosotros. Compra-se uma máquina de fotografia por 20 reais. Come-se muito bem por 5 reais. Sugiro então aos amigos brasileiros que recebam o salário aí e venham morar aqui. Vão se esbaldar. Roupas (incluso de couro) por menos de um salário mínimo. Venham, a Copa mal (nos dois sentidos) começou.

3 - A maior discussão desta Copa América é a proibição das transmissões dos jogos da Celeste uruguaia para Montevideo, pela televisão. Com o preço das entradas lá em cima, ninguém vai aos estádios. E a Fifa proibiu que se transmita os jogos num raio de 300 quilômetros da Capital. Resultado: como o país só tem 500 quilômetros de extensão, ninguém vê os jogos. Até o presidente Sanguinetti entrou na briga. Mas Havelange foi irredutível. Os uruguaios organizaram (e bem) a Copa, diga-se de passagem). O uruguai não assiste a Copa. Coisa de cartola (brasileiro, por sinal).

4 - Manchete do principal jornal uruguaio (El País) depois daquele joguinho do Brasil contra o Equador: "Como Te Costo, Campeón"! Gostaram do Juninho, detestaram o Edmundo. E Zagalo disse, na coletiva, que "para começar está bom". Os coleguinhas da imprensa não entenderam o nosso técnico. Nem eu.

5 - Estou num hotel na centro da cidade, onde estão quase todos os correspondentes estrangeiros. E, é claro, é lá embaixo, no bar, de noite, tomando o bom tinto uruguaio, que se trocam as figurinhas. Duas coisas impressionam os periodistas. A primeira: como que um jogador como Romário pode se dar ao luxo de não defender a seleção nacional? Explico que também não sei. E a segunda: como é que Ronaldo, não é titular? Eles acham que desde a Califórnia, Ronaldo deveria estar com a nove. Concordo e explico que ficou muita gente bom no Brasil. Um deles (chileno) me perguntou sobre Zé Elias. Um americano afirma que o melhor jogador da Copa dos Estados Unidos foi o Célio Silva. Donde andará?

6 - Você sabia que desde que o guapo e negro goleiro Barbosa, tomou aquele gol go Gighia, no segundo e derradeiro tempo, no lívido e calado Maracanã, que nos tirou a copa da cozinha em para o Uruguai, que nunca mais nenhum guarda-meta negro defendeu o nosso gol? Dida é o primeiro, em 45 anos. Será que é porque ele é bonitinho? Faça uma revisão leitor: nesses quarenta e cinco anos, só loirinhos altivos e bem educados, jogando com grifadas luvas de pelica.

7 - Os uruguaios se referem ao Brasil como Norteño. Nào é engraçado a gente ser norte de alguém? E a principal cerveja é a Norteña. Seria uma homenagem à mulher brasileira? Vou averiguar.