MONTEVIDÉU -
1- O povo uruguaio é simpático, culto e educado. E tem
humor. E memória. Estava eu almoçando no Mercado da Aduana (que carnes,
muchachos!) e o garçom a puxar conversa, naquele nosso velho e bom
portunhol.Depois de falar em Collor e Cardoso (FH), me pergunta:
- Como está Cabana?
Cabana?, penso eu. Será algum jogador de alguma outra
seleção? Me parece nome de jogador peruano. Daqueles antigos. Cubillas,
coisa assim.
- Cabana? Não conheço.
- Como não? Aquela praia famosa do Rio de Janeiro.
- Ah, sim. Nào é Cabana. É Copacabana.
- Não. É Cabana. Porque a Copa nosotros trouxemos em 50!
E riu. Gostei dele. Dei propina (gorjetas, cara pálidas)
dobrada.
2 - Agora, passando esses dias aqui no Uruguai, entendo
quando o presidente FH e seus cupinchas econômicos dizem que o Real é
forte. Realmente, aqui, fora do Brasil é fortíssimo. Porque aí, pode ser
forte, mas não compra nada. Qual é a vantagem? Aqui, ele vale realmente
mais do que o dólar. E tudo fica barato para nosotros. Compra-se uma
máquina de fotografia por 20 reais. Come-se muito bem por 5 reais.
Sugiro então aos amigos brasileiros que recebam o salário aí e venham
morar aqui. Vão se esbaldar. Roupas (incluso de couro) por menos de um
salário mínimo. Venham, a Copa mal (nos dois sentidos) começou.
3 - A maior discussão desta Copa América é a proibição das
transmissões dos jogos da Celeste uruguaia para Montevideo, pela
televisão. Com o preço das entradas lá em cima, ninguém vai aos
estádios. E a Fifa proibiu que se transmita os jogos num raio de 300
quilômetros da Capital. Resultado: como o país só tem 500 quilômetros de
extensão, ninguém vê os jogos. Até o presidente Sanguinetti entrou na
briga. Mas Havelange foi irredutível. Os uruguaios organizaram (e bem) a
Copa, diga-se de passagem). O uruguai não assiste a Copa. Coisa de
cartola (brasileiro, por sinal).
4 - Manchete do principal jornal uruguaio (El País) depois
daquele joguinho do Brasil contra o Equador: "Como Te Costo, Campeón"!
Gostaram do Juninho, detestaram o Edmundo. E Zagalo disse, na coletiva,
que "para começar está bom". Os coleguinhas da imprensa não entenderam o
nosso técnico. Nem eu.
5 - Estou num hotel na centro da cidade, onde estão quase
todos os correspondentes estrangeiros. E, é claro, é lá embaixo, no bar,
de noite, tomando o bom tinto uruguaio, que se trocam as figurinhas.
Duas coisas impressionam os periodistas. A primeira: como que um jogador
como Romário pode se dar ao luxo de não defender a seleção nacional?
Explico que também não sei. E a segunda: como é que Ronaldo, não é
titular? Eles acham que desde a Califórnia, Ronaldo deveria estar com a
nove. Concordo e explico que ficou muita gente bom no Brasil. Um deles
(chileno) me perguntou sobre Zé Elias. Um americano afirma que o melhor
jogador da Copa dos Estados Unidos foi o Célio Silva. Donde andará?
6 - Você sabia que desde que o guapo e negro goleiro
Barbosa, tomou aquele gol go Gighia, no segundo e derradeiro tempo, no
lívido e calado Maracanã, que nos tirou a copa da cozinha em para o
Uruguai, que nunca mais nenhum guarda-meta negro defendeu o nosso gol?
Dida é o primeiro, em 45 anos. Será que é porque ele é bonitinho? Faça
uma revisão leitor: nesses quarenta e cinco anos, só loirinhos altivos e
bem educados, jogando com grifadas luvas de pelica.
7 - Os uruguaios se referem ao Brasil como Norteño. Nào é
engraçado a gente ser norte de alguém? E a principal cerveja é a Norteña.
Seria uma homenagem à mulher brasileira? Vou averiguar.