HOJE vou falar sério. Vou escrever sobre o ato de escrever.
O ato de escrever é uma profissão como outra qualquer.
Exige um certo dom de observação, talento e muita técnica. Além do suor,
é claro. Será mesmo que é uma profissão como outra qualquer? Meu filho
Antonio, de 16 anos, quer ser escritor como o pai e a mãe. E me
perguntou: "que faculdade eu devo fazer?". Penso. Não sei, meu filho.
Além de mandar ler os clássicos brasileiros, portugueses,
franceses e russos, sei lá. O que eu quero dizer é que o Brasil é um dos
únicos países do mundo onde não se ensina a escrever em nenhuma
faculdade. Não temos uma Faculdade de Escritores. Cuba, por exemplo, tem
uma escola de roteiros e dramaturgia que forma alunos de todo o mundo.
Seu diretor, ninguém menos que Gabriel Garcia Márques. Jean Claude
Carriere, roteirista dos últimos filmes do Buñuel, faz o mesmo nos
arredores de Paris. Aqui o jovem tem que aprender na marra, na
datilografia apressada. Mas não é com os dedos que se escreve. Tem que
aprender apenas lendo os outros. Será que isto basta?
Sou júri de um interessante projeto do Ministério da
Cultura para premiar (com financiamento) projetos de filmes de longa,
média e curta metragem. Já li uns 70 roteiros. A quantidade de pessoas
(inteligentes) que acha que sabe escrever um roteiro de cinema me
impressionou. Filmes onde todos os personagens falam exatamente igual,
roteiros sem pé nem cabeça, nenhuma estrutura dramática, sem ação nem
reação, é o que se encontra ao folhear os calhamaços que o MinC me
mandou. Por que não uma escola para roteirista de cinema? Glauber Rocha
fez um grande mal para os novos cineastas brasileiros quando afirmou
que, para filmar, basta ''uma câmera na mão e uma idéia na cabeça". O
problema é que os pretensos cineastas não têm nem a mão nem a cabeça do
baiano.
Vejam o caso das telenovelas brasileiras. Há alguns anos
que elas são todas iguais. Se pegar a primeira parte da novela das seis,
a segunda da novela das sete e a terceira da das oito e misturar,
ninguém vai perceber a diferença. Tudo igual. Claro, são escritas pelos
mesmos profissionais há mais de vinte anos. Não houve e nem haverá nunca
uma renovação nas telinhas. O gênero telenovela tende a morrer por falta
de autores.
A literatura brasileira, tão rica (apesar de escrevermos
em português) não nos dá um Machado, um Nelson Rodrigues, há quanto
tempo? O teatro brasileiro, que teve um grande boom de dramaturgos nos
anos 60 e 70, carece de textos. Quem é o novo dramaturgo brasileiro?
Eu não tenho nenhuma dúvida ao afirmar que a profissão de
escritor ainda é olhada meio de soslaio pela sociedade brasileira.
Quando preencho alguma ficha (em hotel, por exemplo) e no item profissão
tasco ESCRITOR, todo mundo me olha meio de lado, provavelmente pensando:
mas isso lá é profissão? Pior ainda é quando digo numa rodinha que
escrevo, logo alguém pergunta: "mas, para viver, faz o quê?". Ora, minha
senhora...
Meu filho já sentiu isso. Com 16 anos todo mundo pergunta
para ele o que ele vai ser. Ele tem vergonha de dizer que quer ser
escritor. As pessoas, segundo ele, acham que é esnobismo querer ser
escritor no Brasil. Não consigo, por mais que eu tente, descobrir de
onde vem este absurdo preconceito.
Será que não caberia à nossa arcaica e acadêmica Academia
Brasileira de Letras pensar um pouco neste assunto enquanto tomam chá de
cadeira? Será que a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (a nossa
velha SBAT) não poderia fazer algo nesse sentido? Será que as USPs e
Unicamps da vida não poderiam dar bolsas para brasileiros irem estudar
lá fora? Será que apenas a Fundação Vitae (que é do Mindlin, um
empresário que gosta de ler) subsidiará escritores no Brasil?
Espero que o filho do meu filho, se um dia quiser ser
escritor, tenha a possibilidade de estudar numa faculdade específica
para isto e aprenda as técnicas necessárias. Como toda profissão, a
nossa também requer técnicas. E, portanto, cursos técnicos para tais
fins.
Não tenha vergonha, Antonio, de querer ser escritor.
Afinal, você foi criado pelos seus pais, que só sabem fazer isso na
vida: escrever. Com muito orgulho, diga-se de passagem.
Quando eu disse para o meu pai, aos 16 anos, que queria
ser escritor, ele torceu o bigode e me perguntou:
- E isso lá é profissão que se apresente?
Hoje, 32 anos depois, eu respondo para o meu filho:
- É!