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UMA CARTA DE AMOR PELA CANON BJ-200-E

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o estado de s. paulo

1994

 


Tudo começou com uma carta de amor que escrevi aqui no meu computador. Uma carta de amor daquelas que a gente pede perdão e promete que nunca mais, etc, etc, etc. Mas sincera, até se transformar em cômica, conforme relato (verdadeiro) a seguir.

Sendo a carta (como toda carta de amor) um tanto quanto íntima, resolvi não passar pelo fax. Iria imprimi-la e entregar na mão da moça. Provavelmente com um buquê de flores (duvido).

Foi quando tudo começou. Eu não usava a minha potente impressora Canon desde que voltei do Uruguai, no final de julho. De lá para cá, tudo que escrevi faxei ou arquivei.

Aperto o botão para imprimir, a Canon dá uma mexida, faz um barulho esquisito, estranho. Desliguei tudo. Liguei tudo de novo. Brrrrrrrrrrr. Crok-crok. Nessas horas a gente sempre pensa nos filhos da gente que andam bisbilhotando por aqui. Pior ainda, nos amigos deles metidos a intelectuais da informática.

Tiro o papel da máquina. Olho lá dentro. Tudo normal. Vejo o cartucho de tinta. Perfeito. Não entendo muito de máquinas, mas achei que estava tudo certo. De repente a máquina começa a lançar papel para fora, de cinco ou seis páginas de cada vez. E tortos. A impressão, além de borrada, saía com o papel quase na diagonal. Não estava bom para uma carta de amor. Logo aquela em que eu caprichei tanto nas margens e nas imagens, Brrrrrrrrrrrr. Crock! Craft!

Foi quando eu me lembrei que, na volta do Uruguai ela veio dentro de uma maleta onde joguei notas de despesas (estava cobrindo a Copa América, que o Zagallo perdeu), remédios (menisco estourado) e camisinhas. Camisinhas que não cheguei a usar. Você sabe, a gente viaja e a esperança é a última que dorme. Provavelmente algum papel tinha caído dentro da Canon. Virei a bicha de ponta-cabeça e nada. Recoloquei o papel. Liguei para o Cachorrão e o Luciano, meus experts em informática. "Estranho", disseram. "Tenta outra vez. Depois me liga que eu vou aí. Deve estar desalinhada". Provavelmente pela viagem.

Fiz o sinal da cruz (tem horas que só assim mesmo) e mandei ver. Foi quando ouvi um barulho diferente. Como se fosse um plástico se rasgando. E era. Primeiro, junto com a página, foi saindo o envólucro de uma camisinha uruguaia. Logo depois, toda esticada, foi saindo, grudada no texto a camisinha. Acreditem: com coisas de amor, impressas.

Acho que a ponta dela ficou presa lá dentro do mecanismo e ela foi saindo, se esticando toda. E sendo impressa. Fiquei com medo de puxar e ela arrebentar. Nada pior do que uma camisinha que arrebenta.

Acabou a impressão. Deve ter sido a primeira vez que uma impressora usou camisinha, pensei, estupefato. Coloquei a camisinha ao lado de uma folha em branco e dava para se ler alguma coisa. Pensei em mandar a camisinha no lugar da carta para a moça. Mas ela nunca iria entender. "Como é que você me manda uma carta escrita em cima de uma camisinha usada"? E se a moda pega? Definitivamente não iria pegar bem.

Na ponta da camisinha dava para se ler com algum esforço: "Meu amor". Depois, uma frase meio truncada assim: "juro que não (...) eu nem fui naquela fes/". Mais para frente (ou para trás) da camisnha, meio na vertical, sabendo como era o original, estava bem claro para mim: "não é mais uma chance, é a chance. Afinal/". Lá em baixo, quase coincidindo com o final da carta: "em teus seios mais amores". Que vergonha, como é que eu fui escrever isso? Só pra imprimir numa camisinha mesmo.

Contei para a moça, ela (como você) não acreditou. Mas foi o suficiente para ela vir até a minha casa ver a camisinha-carta.

Deu resultado. Usamos a camisinha textualmente. Foi uma maneira de colocar e imprimir o meu amor dentro do meu amor. Borrou um pouco, é claro. Mas o que borrou mesmo foram as lárgimas que derramamos em cima do travesseiro branco.

Em tempo: a Canon continuou a funcionar normamente depois de ejacular a camisinha e o meu epistolar prazer.

Em tempo-2: tenho certeza que você não acreditou nessa história.