Tudo começou com uma carta de amor que escrevi aqui no meu computador.
Uma carta de amor daquelas que a gente pede perdão e promete que nunca
mais, etc, etc, etc. Mas sincera, até se transformar em cômica, conforme
relato (verdadeiro) a seguir.
Sendo a carta (como toda carta de amor) um tanto quanto
íntima, resolvi não passar pelo fax. Iria imprimi-la e entregar na mão
da moça. Provavelmente com um buquê de flores (duvido).
Foi quando tudo começou. Eu não usava a minha potente
impressora Canon desde que voltei do Uruguai, no final de julho. De lá
para cá, tudo que escrevi faxei ou arquivei.
Aperto o botão para imprimir, a Canon dá uma mexida, faz
um barulho esquisito, estranho. Desliguei tudo. Liguei tudo de novo.
Brrrrrrrrrrr. Crok-crok. Nessas horas a gente sempre pensa nos filhos da
gente que andam bisbilhotando por aqui. Pior ainda, nos amigos deles
metidos a intelectuais da informática.
Tiro o papel da máquina. Olho lá dentro. Tudo normal. Vejo
o cartucho de tinta. Perfeito. Não entendo muito de máquinas, mas achei
que estava tudo certo. De repente a máquina começa a lançar papel para
fora, de cinco ou seis páginas de cada vez. E tortos. A impressão, além
de borrada, saía com o papel quase na diagonal. Não estava bom para uma
carta de amor. Logo aquela em que eu caprichei tanto nas margens e nas
imagens, Brrrrrrrrrrrr. Crock! Craft!
Foi quando eu me lembrei que, na volta do Uruguai ela veio
dentro de uma maleta onde joguei notas de despesas (estava cobrindo a
Copa América, que o Zagallo perdeu), remédios (menisco estourado) e
camisinhas. Camisinhas que não cheguei a usar. Você sabe, a gente viaja
e a esperança é a última que dorme. Provavelmente algum papel tinha
caído dentro da Canon. Virei a bicha de ponta-cabeça e nada. Recoloquei
o papel. Liguei para o Cachorrão e o Luciano, meus experts em
informática. "Estranho", disseram. "Tenta outra vez. Depois me liga que
eu vou aí. Deve estar desalinhada". Provavelmente pela viagem.
Fiz o sinal da cruz (tem horas que só assim mesmo) e
mandei ver. Foi quando ouvi um barulho diferente. Como se fosse um
plástico se rasgando. E era. Primeiro, junto com a página, foi saindo o
envólucro de uma camisinha uruguaia. Logo depois, toda esticada, foi
saindo, grudada no texto a camisinha. Acreditem: com coisas de amor,
impressas.
Acho que a ponta dela ficou presa lá dentro do mecanismo e
ela foi saindo, se esticando toda. E sendo impressa. Fiquei com medo de
puxar e ela arrebentar. Nada pior do que uma camisinha que arrebenta.
Acabou a impressão. Deve ter sido a primeira vez que uma
impressora usou camisinha, pensei, estupefato. Coloquei a camisinha ao
lado de uma folha em branco e dava para se ler alguma coisa. Pensei em
mandar a camisinha no lugar da carta para a moça. Mas ela nunca iria
entender. "Como é que você me manda uma carta escrita em cima de uma
camisinha usada"? E se a moda pega? Definitivamente não iria pegar bem.
Na ponta da camisinha dava para se ler com algum esforço:
"Meu amor". Depois, uma frase meio truncada assim: "juro que não (...)
eu nem fui naquela fes/". Mais para frente (ou para trás) da camisnha,
meio na vertical, sabendo como era o original, estava bem claro para
mim: "não é mais uma chance, é a chance. Afinal/". Lá em baixo, quase
coincidindo com o final da carta: "em teus seios mais amores". Que
vergonha, como é que eu fui escrever isso? Só pra imprimir numa
camisinha mesmo.
Contei para a moça, ela (como você) não acreditou. Mas foi
o suficiente para ela vir até a minha casa ver a camisinha-carta.
Deu resultado. Usamos a camisinha textualmente. Foi uma
maneira de colocar e imprimir o meu amor dentro do meu amor. Borrou um
pouco, é claro. Mas o que borrou mesmo foram as lárgimas que derramamos
em cima do travesseiro branco.
Em tempo: a Canon continuou a funcionar normamente depois
de ejacular a camisinha e o meu epistolar prazer.
Em tempo-2: tenho certeza que você não acreditou nessa
história.